Verborragia sem concessões

February 22, 2008

VIDA É DA VIDA A RAZÃO

Foi quase uma década de convivência diária com escadas, portas, janelas, banheiros, carpetes, paredes, cadeiras e pisos. Eu sabia de cor como seria o sabor de cada alimento comprado. Pela luminosidade que entrava numa fresta da janela, poderia dizer que horas eram. Pela sombra que corria ao longo do corredor, tinha condição de adivinhar exatamente o horário. Mesmo trancafiado, tinha plena convicção de como estava a temperatura na rua só de olhar para o teto. Vivi praticamente todo o período dos meus vinte e poucos lá dentro, desfrutando da companhia das mais diversas pessoas. De todo o tipo.

Sabe, no fundo eu acho que as coisas sempre foram fáceis pra mim. Acho que é porque eu nunca passei pela sensação de queda. Nunca tinha caído, estatelado com meu beiço no chão. É a velha história das necessidades e possibilidades. Fazendo um balanço do que eu sou nestes 28 anos, chego à conclusão de que sempre fui estável. Mesmo colégio no primeiro grau, mesmos colegas no segundo grau. Passei de primeira no vestibular e nunca troquei de faculdade. Estágio, contratado no primeiro emprego. Quase uma década neste emprego e aí…boom. A porrada. A primeira. Até então minhas decepções eram poucas. E todas as decepções foram com pessoas. Nunca uma instituição havia me dispensado por opção. Só pessoas. E prefiro acreditar que foram pessoas que dispensaram minha colaboração.

Nutro ainda um profundo respeito por este grupo que me formou para o mundo. Guardarei para sempre mágoas das pessoas que, de certa forma, fazem parte das decisões deste grupo. Uma incompreensão crônica, que vai tomar conta de mim cada dia da minha vida, num revés irreparável que o destino traçou para mim. E é impossível não ter a nostalgia de que por um longo tempo da minha vida eu dediquei tempo, saúde, vontade e orgulho por ter feito tudo que eu fiz. Se houver algum arrependimento, é de ter confiado em gente que não deveria.

Depois da queda, a gente refaz todo um percurso que chega a machucar. A oportunidade, a ascensão, a confirmação, a contestação, a dúvida, o descarte. E por fim, a incompreensão e vinte e um mil questionamentos. Somos apenas um número de matrícula? Sou incompetente? Irresponsável? Instransigente? Inconstante? Desobediente? Inconseqüente? FOLCLÓRICO? Sou tudo isso? Eu errei? Eles erraram? Tem um culpado?

Engraçado como se cresce rapidinho. Em uma semana, parece que eu me tornei uns vinte anos mais sábio. E mais humilde também. E é com profundo orgulho que defenderei a camisa de onde estou agora. Porque é meu jeito. Vou teimar, teimar, teimar em não aceitar isso, não aceitar que eu sou só um número de matrícula que não existe mais. Por mais que tenham esfaqueado minha auto-estima. Por mais que, pela primeira vez na vida, eu tivesse que olhar para o espelho e pensar: “Eu sou ruim no que eu faço?”. Não há sensação pior no mundo do que duvidar da própria capacidade, do próprio potencial.

O que me conforta um pouco é que não vesti branco no final do ano e nem dei tapinha nas costas de chefe. E também não cantei que a vida é mentira, é verdade. Mas concordo com o lema. Vida também é uma cadeira vazia.

February 12, 2008

O DIA EM QUE O GÊNIO CAIU

Um dos meus jogos preferidos de computador é o grande CHAMPIONSHIP MANAGER. Gosto da versão da temporada 2003/2004, antes que houvesse uma briga na corporação que desmembrou a franquia em CM e FOOTBALL MANAGER.

Neste jogo, você acumula as funções de técnico, vice de futebol e presidente de qualquer clube do mundo. Desde o RS Futebol até o Real Madrid. Começa com um certo dinheiro em caixa, recebe mais grana da bilheteria dos jogos, bônus com títulos, além do grande barato: poder dispensar, contratar e promover jogadores. Mexendo os pauzinhos no simulador, você pode, daqui a pouco, promover um garoto de 16 anos sem muita certeza de que ele será um craque. Ou dispensar um veterano de 36 anos, porque não está “rendendo mais”.

O poder virtual de ser o presidente de um clube de futebol, que nada mais é hoje em dia, do que uma grande empresa, mexe com o cara, que acaba se viciando nisso. Você faz o papel dos chamados MANAGERS. Lembro que ali por 2004 eu jogava todas as tardes esse jogo, por uns dois meses, até que meu time conquistasse o título mundial. E óbvio, contratando MUITOS jogadores e DIPENSANDO vários. Prazer danado esse. Coisa boa ter PODER, o sonho do ser humano. MANDAR. Melhor ainda quando se mexe com vidas. Decidir os planos, o futuro, agregar novidades, comprar, vender, descartar. Pessoas. No videogame eu gostava, um monte de gente gosta.

Os managers odeiam os gênios. Causam problemas demais. A obsessão dos managers é pela perfeição de suas próprias idéias aplicadas. Dispensar, contratar, trocar de posição, botar no banco, escalar. E depois o técnico dedica a vitória aos seus jogadores de função tática. Afinal, foi sua organização que venceu, com os seus aplicados comandados fazendo exatamente o que ele pediu. Os chamados cumpridores de função tática são aqueles que não comprometem, os que fazem direitinho suas funções sem reclamar, sem cometer atos de indisciplina, fazendo um feijão com arroz bem feitinho, com a receita do chefe e nenhuma pitadinha de sal a mais do que diz na receita. Enquanto isso, o “gênio” entrou na lista de dispensados, sai do clube e vai jogar em outro lugar. Mesmo que durante sete anos ele tenha resolvido as coisas dentro de campo.

Gênio é o considerado extra-classe. Aquele que acredita que alguma coisa não usual faz a diferença. Uma novidade, um momento de criatividade. Um pouco de filé pra juntar ao arroz com feijão. O problema é que os “gênios”, os “diferenciados” são complicados. Eles não seguem um padrão pré-estabelecido de conduta porque simplesmente acreditam que a sua própria conduta é a mais efetiva. E no final das contas, aqueles que indicam este padrão só querem enquadrar o cara. Entrar na linha. Mesmo sabendo que dentro de campo ele resolve, ele mete gol, ele faz a alegria da galera.

Com relação aos “gênios”, a gente nunca sabe o que pode acontecer. Em dia de inspiração, ele sozinho vale por todo um time. Em dia de repé, briga com todo o grupo e não desempenha bem seu papel em campo. Mas quando exigido, resolve. Em grandes momentos, cresce. Joga fora de posição. Joga em TODAS as posições. Joga BEM em todas as posições. Nunca quis ser um burocrata. Sempre amou o clube e já atuou machucado, só por amor à camiseta. Mas ele é rebelde, ele não assume, ele nunca se compromete. E ele não manda.

Os que mandam são os managers. Eles têm o poder e a curtição é mexer no time, trazendo cara nova, dispensando outros e regendo as leis internas a seu bel prazer. Enquadrando todo mundo e depois se olhando no espelho numa masturbação para as próprias decisões. Os managers contratam os fiéis escudeiros, que jamais vão contrariar uma decisão sequer. Cumprem direitinho a função e voltam pra casa ou continuam na empresa, produzindo mais e melhor e mais barato. Custo-benefício atendido. Mais grana no cofre do clube e no bolso do manager.

Os managers mandam com um falso ar democrático. Na verdade, democracia só serve para quem está no poder. No fundo, bem no fundinho, se trabalha ainda com o modelo da ditadura militar. Nomenclaturas, cargos, hierarquias, disciplina, enquadramento. Esconder a podridão e jogar versões oficiais como se fossem as definitivas. Os subversivos, os talentosos, os extra-classe, estes estarão sempre à mercê de uma porrada. O modelo militar é o ideal! Ordem e progresso. Ame-o ou deixe-o. Ou eles te deixarão.

Cansei de jogar o Championship Manager. Uma vez eu dispensei um cara do meu time e ele desandou a marcar gol pelo adversário. Me arrependi tanto que desisti do jogo. Ele era do time dos “gênios”. Ele nunca cumpriu bem a função tática. Tá na seleção brasileira.

February 7, 2008

DOSSIÊ CERVEJA NO CÉREBRO

Filed under: cachaça, saudosismo - Carlos @ 5:59 pm

Volto de férias leve, apesar do post abaixo. Então, um post leve. Originalmente publicado em abril de 2006, num lapso de criatividade. Aí vai:

Geralmente, há passos durante o consumo de cerveja, desde o primeiro gole até o estado de embriaguez total. Cada cerveja representa uma alteração considerável no cérebro.
Por isso, aqui estamos com este dossiê.

1) REGRAS
1.1 - Pessoa de 25 anos, sem problemas de saúde, com 1,80 de altura e peso ideal.
1.2- Inicia-se o consumo a partir da noite, ou seja: todas as refeições do dia foram realizadas, sem excesso e sem carências.
1.3- Estado físico ideal: sem cansaço, sem compromissos e com a mente absolutamente liberada de qualquer preocupação.
1.4- Sem pressa: aqui o que vale é quantidade, sem que se determine um tempo hábil para isso.
1.5- Costume: a pessoa já bebe há pelo menos 10 anos socialmente, e com um hábito de beber uma vez por semana.
1.6- Passado: esta pessoa já tomou pelo menos 20 porres grotescos, o que faz dela um exemplo típico exemplar para a experiência.
1.7- Situação em que será bebida a cerveja: não é numa festa(onde movimentos e gasto de calorias maiores). É num bar, sentado.
1.8- Não há interesse algum em beber a cerveja(como por exemplo, uma pessoa na qual você está interessado). Aqui, a concentração é na bebida, única e exclusivamente.
1.9- Dinheiro não é problema. É um experimento e vamos fingir que é por conta da casa.
1.10- Tomaremos como padrão a POLAR. Porque é mais popular, não é maravilhosa nem péssima.
1.11- As doses são de 350 ml(uma lata, uma long neck ou meia garrafa).
1.12- Para o experimento, recomendamos que um parceiro teu das antigas te acompanhe. Que a cobaia seja divertida. Mas atenção: deve ser um PARCEIRO, no qual você confia, para conversar, arranjar distração durante o consumo. Não pode ser mulher, não pode ser alguém que não beba. Isso desvia o caráter experimental.
1.13- Sem petiscos durante a bebedeira. Sem outros líquidos. Nem água. Só cerveja. Cigarro pode. Nenhuma outra droga.
1.14- Banheiro à disposição sempre. Perto, de preferência.
1.15- Escolha qualquer bar, desde que seja movimentado.

2) PRIMEIRA CERVEJA
Neste caso, a primeira impressão é sempre a que fica. Estando legal de saúde e tendo feito refeições decentes, sem exageros, o primeiro gole dita o que será a noite de mamação. Se ele vier com o “gostinho de quero mais”, é bucha: tu vai ficar mamado. O primeiro gole é o boi da boiada. Passando por ele como ele deve ser, ou seja, tenro, macio, cremoso, saboroso e provocante, a boiada passa sem problemas(até certo ponto). A primeira cerveja nunca te deixa mamado, deixa apenas com vontade. E ninguém toma UMA cerveja apenas, correto?

3) A SEGUNDA CERVEJA
É o termômetro do primeiro brilho. Após a ingestão da segunda cerveja, você poderá dirigir corretamente, ainda articula frases com precisão, mas um leve desvio nos lábios começará a aparecer. Ainda longe da euforia, apenas uma descontração gostosa.

4) A TERCEIRA CERVEJA
Tem como importância manter o estado da segunda, com um leve atenuante. Ela não é decisiva nas alterações mentais. É a ceva da transição: do “quero mais” para o “brilho perfeito”. Ainda não é hora de ir no banheiro e estamos plenamente convictos de nossos pensamentos.

5) A QUARTA CERVEJA
De acordo com os experimentos, esta é a dose mais importante. Com ela, vem o chamado “brilho”. Ela também vai te proporcionar a primeira ida ao banheiro. A partir daí, o fato mais importante: todas tuas convicções serão mudadas. Elas passam a se transformar, tua credibilidade começa a morrer e, com um orgulho extremo, olhe para o espelho do banheiro e diga: “TÔ MAMADO”. Aí, se ri de qualquer bobagem e se pensa em realizar confissões que jamais poderíamos enquanto sóbrios. Se fôssemos entregar um troféu para “A CEVA DA MAMAÇÃO”, certamente iria para a quarta.

6) A QUINTA CERVEJA
Entramos aí no brilho profundo. A quinta cerveja é a transição para a seguinte, que não é ainda a que vai acabar. No entanto, com a bebedeira se tornando costumeira, ela já não desce tão rápido assim. Começam idéias mirabolantes, pensamentos utópicos e risadas ridículas. Uma ida ao banheiro. Uma olhada no espelho. A pessoa começa a falar com ela mesma.

7) A SEXTA CERVEJA
Brilho intenso. Você já poderia cantar alto músicas do Bon Jovi, dançar pagode com estranhos e abraçar um conhecido dando-lhe um beijo no rosto que nada seria mal interpretado. É decisiva, pois é a linha tênue do brilho para o fiasco. Duas idas ao banheiro. O garçom é teu bruxo. Convicção? Já era. Mas importante: você ainda sabe de tudo o que está fazendo. Toda essa lembrança, a da sexta cerveja, não apagará. Ainda é pouco para se ter ressaca no dia seguinte. Importante: a partir daí, mantenha-se longe de um telefone celular. Ligações sempre acontecem neste período e elas nem sempre terão uma boa receptividade(principalmente por quem é sóbrio).

8) A SÉTIMA CERVEJA
Entramos aí em outra fase de transição: do mamado para o bêbado. É mais uma cerveja que te mantém com brilho, mas um passo pequeno para cometer cagadas históricas.

9) A OITAVA CERVEJA
Parabéns, você está bêbado! Você pode até achar que não, mas lhe dou todos os sintomas para provar que isso é verdade. Não pára de rir? Fala sem parar? Consegue ficar sério, comprimindo os lábios, sem evitar que uma gargalhada exploda? Já pensa em fazer cagada? Faria cagada? Isso aí, compadre, tá bêbado. Claro, você ainda consegue andar em linha reta, mas já canta Bon Jovi alto demais. É a fase da parceria geral: o garçom já é teu IRMÃO, as pessoas do bar são teus amigos e o brilho está passando para se tornar algo perigoso. Dá pra dirigir, mas não pra fazer longa viagem. Umas quatro idas ao banheiro.

10) A NONA CERVEJA
É quando você se dá conta de que precisa se fazer algo além de ficar ali bebendo com teu amigo. Você está completamente mamado e o brilho já passou. É outra ceva de transição: já foi o brilho, já veio a euforia, agora vem a depressão. Depois dessa.

11) A DÉCIMA CERVEJA
Depois da quarta, é a mais importante. Cientificamente, chamamos ela de “A CEVA QUE MATA”. É esta aí que vai te derrubar. O gosto já não passa a ser tão bom assim. Ela já desce lentamente, como se o organismo pedisse alguma outra coisa pra balancear. Você se torna o bêbado chato, enrola a língua, vê tudo embaçado e não consegue mais formular teorias. As cagadas prometidas só serão realizadas se tu realmente conseguir se levantar do bar. A vontade já não é tanta. Mas a insistência do experimento ainda te mantém vivo.

12) A DÉCIMA PRIMEIRA CERVEJA
Pura insistência. Já não vale mais a pena. Porque passou toda a parte boa e agora vem lamentações. Sobre passado, sobre o que você não fez, sobre aquela mulher que está longe. Depressão graúda iniciando. Língua torpe.

13) A DÉCIMA SEGUNDA CERVEJA
Ou você arranja uma coisa pra fazer ou está se encaminhando para a falência total de sanidade. Ainda há uns 10% de movimento e articulação. Já está morto, a ressaca já é inevitável e o gosto já tá uma merda. Todos já são teus amigos e agora tu não quer nem olhar mais pra cara deles. Pensa na tua cama e ela parece aconchegante. Resumindo: você não agüenta mais beber, de forma alguma. Ah, e nem adianta tentar se recuperar na noite: já era.

14) A DÉCIMA TERCEIRA CERVEJA
Nestas condições apresentadas, raramente o cidadão chega à décima terceira cerveja(estabelecendo 350 ml por dose). Mas se chegar, passa pelo penúltimo estágio: de deprimido a digno de pena.

15) A DÉCIMA QUARTA CERVEJA
Não dirija. Não fale com estranhos. Não conte segredos a ninguém. Aliás, você mal consegue falar. Só está ali, olhando ao teu redor, esperando que uma alma caridosa te diga: PARE! Se encontrar conhecidos, pelo amor de deus, finja que não os conheça. A memória fica extremamente comprometida e não há qualquer movimento que denote coordenação motora.

16) A DÉCIMA QUINTA CERVEJA
Você está chegando a SEIS LITROS de cerveja no organismo. É um estado que desperta atenção e gravidade. Já é o se acabar por se acabar. Por favor, desista. Este é o estado em que seus amigos começam a pensar em te carregar. O vômito já é uma realidade, ou ao menos a ânsia.

17) A DÉCIMA SEXTA CERVEJA
Você já vomitou três vezes, não consegue mais caminhar sem ajuda, impossível dirigir, e só há um movimento possível nesta hora: pegar a cabeça, jogar sobre a mesa, tapar com os braços, mentalizar para não enjoar, e apagar.

18) A DÉCIMA SÉTIMA CERVEJA
Nas condições expostas acima, de acordo com peso, idade e situação, não é verificado que alguém consiga beber DEZESSETE CERVEJAS. Mas, se houver, chama a ambulância que tu tá indo pro coma.

19) A DÉCIMA OITAVA CERVEJA
Coma.

20) CONCLUSÃO
Seis long necks nesta situação é um número ideal. Numa festa, esse índice aumenta, pela variação de ambientes e de possibilidades. Se for ocasião especial, também muda a história.
Eu duvido que alguém consiga desmentir estes índices. Aceito cobaias. Eu já fui. Várias vezes(mesmo sem pensar que poderia ser um experimento).
Obrigado.

ME VENDE UM STATUS?

Filed under: comportamento - Carlos @ 5:37 pm

Como eles não me contam nada, eu vou pela boca dos outros. Um passarinho me contou que sua chefe CAGA com o latop no colo. E não é pra ficar falando no msn. Certamente, a jovem bem sucedida profissional por volta de 30 anos de idade pesquisa sites em diversas línguas, aprimorando seu conhecimento e se informando a respeito de tudo que acontece no Brasil e no mundo. Deve ter a Bloomberg como guia espiritual. E a patente como mais um “tempinho livre” para buscar MAIS informações. O mesmo passarinho me contou que a chefe a orienta para que leia DOIS jornais diários no trajeto do ônibus.

Um outro passarinho escreveu que um amigo simplesmente fez pouco caso da sua vontade. O passarinho estuda para um concurso público cujo salário é superior ao do amigo. No entanto, o amigo, ao invés de incentivar a iniciativa de alguém que quer apenas ganhar legal, preferiu colocar diversos empecilhos na história, buscando um que chega a ser risível. O “STATUS” ou uma “SUPOSTA VERGONHA” de alguém com diploma buscar concurso de nível médio.

Sou contra a vagabundagem e a exploração. Acho que a verdadeira maturidade é também conquistada através de independência financeira. Conheço gente de 30 anos que se pendura nas calças dos pais que bancam todo um empenho “social” na luta pela conquista de absolutamente NADA. Ou gente que faz “arte” e vive “em nome da arte”, claro, com uma graninha dos pais pra poder fazer a “ARTE” de uma forma “digital”, com um bom computador, de preferência. Pior são aqueles que contestam todo o tipo de grande empresa, os monopólios. E depois viajam pra superpotência Cuba pra tentar “entender o humanismo de Fidel”, quando todo mundo sabe que o melhor de tudo dessas viagens é pegar praia e comer latinas gostosas.

O trabalho, um vínculo, uma atividade, tudo devidamente remunerado é a melhor recompensa para um esforço combinado de talento que for desempenhado. As contas são implacáveis, bem como os objetos de desejo. Isso é igual para o pessoal que faz arte, para os comunistas pé rapados que querem ir pra Cuba ou para os livros do ativista social. O problema é quando o trabalho não é somente uma parte que compõe a vida do cidadão. O problema é quando a pessoa vira escrava do próprio trabalho. E tem o agravante. Quando a pessoa acha que tem status e faz questão de usá-lo para diminuir as expectativas dos outros.

Uma das coisas que eu refleti bastante nessas férias foi a respeito disso. Que vale a pena ser comum. Que vale a pena não ter o chamado status. E que vale a pena procurar um apartamento pra comprar. E que isso requer trabalho, dedicação e esforço. Que vale a pena passar as férias na Europa. E que isso exige paciência, sacrifício. E que tudo isso gera despesa. Que valeu a pena um carro novo mas que isso só chega através da remuneração justa pelos serviços que eu presto. E nunca através do status que eu venha adquirir. Nessa balança o que conta são as contas, com o perdão do trocadilho. Que o famoso “você sabe com quem está falando?” não serve de nada. E que tudo é um equilíbrio, de trabalho, de ascensão, de cuidado com as pessoas que você gosta, de diversão, lazer e prazer. E que toda dependência é estúpida. Ou no mínimo doentia. Seja ela de substância química, dependência por alguém ou a famosa dependência de quem você eventualmente tenha se tornado. Que ser dependente químico, seguidor de seita religiosa, morrer por amor ou workaholic dá no mesmo. Não é sadio. No final, não sobra nada disso, só você, meio sozinho, esquecendo-se que em volta há bilhões de pessoas que você perdeu a chance de ter conhecido e vivido coisas reais, coisas trocadas por uma bitolação inexplicável. Fora que todos são muito chatos.

É a mesma opção de vida tomada pelos sustentados pela família. Obsessão por trabalho, exploração dos outros. Mas tem o status. Claro, o status. Aquilo que só tu acha que tem e que na hora de encher o tanque de gasolina o frentista não vai nem querer saber o teu grau de status. Na hora, a diferença de alguém com status e de alguém sem status pode ser só na hora de tomar um cafezinho por conta da casa. A nota de 50 reais pra abastecer é a mesma. E os dois vão ter que desembolsar.

Eu não tenho laptop. Eu queria ter um laptop. Mas jamais cagaria com um laptop no meu colo. Ainda mais para “me informar”. Pra essas horas, sagradas, únicas, pessoais, sinceramente, eu até prefiro um gibi do Zé Carioca, se possível providenciar.

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