Verborragia sem concessões

February 7, 2008

ME VENDE UM STATUS?

Filed under: comportamento - Carlos @ 5:37 pm

Como eles não me contam nada, eu vou pela boca dos outros. Um passarinho me contou que sua chefe CAGA com o latop no colo. E não é pra ficar falando no msn. Certamente, a jovem bem sucedida profissional por volta de 30 anos de idade pesquisa sites em diversas línguas, aprimorando seu conhecimento e se informando a respeito de tudo que acontece no Brasil e no mundo. Deve ter a Bloomberg como guia espiritual. E a patente como mais um “tempinho livre” para buscar MAIS informações. O mesmo passarinho me contou que a chefe a orienta para que leia DOIS jornais diários no trajeto do ônibus.

Um outro passarinho escreveu que um amigo simplesmente fez pouco caso da sua vontade. O passarinho estuda para um concurso público cujo salário é superior ao do amigo. No entanto, o amigo, ao invés de incentivar a iniciativa de alguém que quer apenas ganhar legal, preferiu colocar diversos empecilhos na história, buscando um que chega a ser risível. O “STATUS” ou uma “SUPOSTA VERGONHA” de alguém com diploma buscar concurso de nível médio.

Sou contra a vagabundagem e a exploração. Acho que a verdadeira maturidade é também conquistada através de independência financeira. Conheço gente de 30 anos que se pendura nas calças dos pais que bancam todo um empenho “social” na luta pela conquista de absolutamente NADA. Ou gente que faz “arte” e vive “em nome da arte”, claro, com uma graninha dos pais pra poder fazer a “ARTE” de uma forma “digital”, com um bom computador, de preferência. Pior são aqueles que contestam todo o tipo de grande empresa, os monopólios. E depois viajam pra superpotência Cuba pra tentar “entender o humanismo de Fidel”, quando todo mundo sabe que o melhor de tudo dessas viagens é pegar praia e comer latinas gostosas.

O trabalho, um vínculo, uma atividade, tudo devidamente remunerado é a melhor recompensa para um esforço combinado de talento que for desempenhado. As contas são implacáveis, bem como os objetos de desejo. Isso é igual para o pessoal que faz arte, para os comunistas pé rapados que querem ir pra Cuba ou para os livros do ativista social. O problema é quando o trabalho não é somente uma parte que compõe a vida do cidadão. O problema é quando a pessoa vira escrava do próprio trabalho. E tem o agravante. Quando a pessoa acha que tem status e faz questão de usá-lo para diminuir as expectativas dos outros.

Uma das coisas que eu refleti bastante nessas férias foi a respeito disso. Que vale a pena ser comum. Que vale a pena não ter o chamado status. E que vale a pena procurar um apartamento pra comprar. E que isso requer trabalho, dedicação e esforço. Que vale a pena passar as férias na Europa. E que isso exige paciência, sacrifício. E que tudo isso gera despesa. Que valeu a pena um carro novo mas que isso só chega através da remuneração justa pelos serviços que eu presto. E nunca através do status que eu venha adquirir. Nessa balança o que conta são as contas, com o perdão do trocadilho. Que o famoso “você sabe com quem está falando?” não serve de nada. E que tudo é um equilíbrio, de trabalho, de ascensão, de cuidado com as pessoas que você gosta, de diversão, lazer e prazer. E que toda dependência é estúpida. Ou no mínimo doentia. Seja ela de substância química, dependência por alguém ou a famosa dependência de quem você eventualmente tenha se tornado. Que ser dependente químico, seguidor de seita religiosa, morrer por amor ou workaholic dá no mesmo. Não é sadio. No final, não sobra nada disso, só você, meio sozinho, esquecendo-se que em volta há bilhões de pessoas que você perdeu a chance de ter conhecido e vivido coisas reais, coisas trocadas por uma bitolação inexplicável. Fora que todos são muito chatos.

É a mesma opção de vida tomada pelos sustentados pela família. Obsessão por trabalho, exploração dos outros. Mas tem o status. Claro, o status. Aquilo que só tu acha que tem e que na hora de encher o tanque de gasolina o frentista não vai nem querer saber o teu grau de status. Na hora, a diferença de alguém com status e de alguém sem status pode ser só na hora de tomar um cafezinho por conta da casa. A nota de 50 reais pra abastecer é a mesma. E os dois vão ter que desembolsar.

Eu não tenho laptop. Eu queria ter um laptop. Mas jamais cagaria com um laptop no meu colo. Ainda mais para “me informar”. Pra essas horas, sagradas, únicas, pessoais, sinceramente, eu até prefiro um gibi do Zé Carioca, se possível providenciar.

8 Comments »

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  1. a pergunta permanece: o quanto a pessoa que paga o teu salário tem o direito de interferir na tua vida?

    Comment by oieeee — February 7, 2008 @ 8:38 pm

  2. Adorei esse teu post, tenho umas amigas sofrendo dessa síndrome de status e, sinceramente, me afastei delas, porque não dá pra agüentar. Eu também queria ter um laptop, mas não pra ir ao banheiro. Deprimente.

    Comment by Vica — February 7, 2008 @ 11:29 pm

  3. Realmente muito oportuno esse post, sr. Blogueiro. Hoje mesmo eu pensava sobre essas coisas que o mundo adulto tem. Tudo que eu queria era enganar a minha fome com um sanduba chinelo embaixo de uma arvore no Parcão, um dos únicos lugares que eu ainda tinha esperança de não ser incomodada ou que, no mínimo, pudesse comer em paz. Pois bem, a minha excursão pelo parque já começou tumultuada, em menos de dois minutos fui abordada para comprar uma rifa (de um bicho de pelúcia) e para dar um trocado pra outro pobre coitado que passava. É aí que surge o primeiro pensamento (sim, hj foi um dia cheio deles): “Cara, me deixa, me erra. Eu mereço comer esse sanduba em paz”. Mal chego a terminar essa fala comigo mesma quando o telefone toca. Obvio que é a chefa! Por isso ela me deu um celular: pra eu trabalhar pra ela 24h por dia pelo preço de 8h. Boba ela neh?! Isso que eu chamo de modo de trabalho chinês!! Ah, mas eu me esqueci de destilar mais um veneno: sabe por que a esfomeada aqui devorava um sanduíche natural? Pra recompor as orgias gastronômicas do carnaval e também para manter a forma. Não sei se vcs sabem, mas no mundo corporativo gordura é doença e ninguém vai querer contratar alguém doente! Então que venha aquele pão seco (sim, sem maionese) com alface e tomate (ARRRRGGHH). Mas voltando ao assunto: sabe o que a diaba queria? Me acusar de ter dito uma coisa que eu não disse! Parecia um papo de louco… mas eu já to acostumada com isso. Quando eu desliguei fiquei pensando numas coisas meio loucas, mas que casam com o tema desse post (ou não também…). O que adianta a pessoa ter faculdade, falar inglês, espanhol e francês, tentar entender aquelas merdas de 5s, six sigma e o raio que o parta. O que importa a maldita produtividade, a qualidade, a inteligência emocional, o oceano azul profundo, aprender com os cines (ou com as garças… mas isso não importa), quem mexeu no meu queijo (e na minha vida tb?). Enfim essas coisas que os americanos copiam da Ford e da Toyota (sim, alguém conhece alguma metodologia da qualidade que não tenha vindo de uma dessas fábricas?). Se a pessoa não pode almoçar? Se a pessoa não tem paz? Há um tempo atrás eu disse que um dos meus sonhos era ter 28 celulares e que todos tocassem… hoje eu mudei de idéia. Não quero nenhum. Quero sossego (eu e o Tim Maia…). Atenção mundo corporativo: me erra!!
    Bah desculpem ai os de sangue doce que tão lendo esse desabafo, mas a endorfina na cabeça me acalmou.

    Comment by oieeeee — February 8, 2008 @ 12:58 am

  4. Leio o teu blog no banheiro.

    Comment by Roberto — February 8, 2008 @ 10:28 am

  5. Eu não leio o teu blog.

    Te amo.

    Comment by Marina — February 12, 2008 @ 2:47 pm

  6. Também sou contra a vagabundagem e a exploração. (Ainda mais quando a pessoa finge que não se trata nem de vagabundagem, muito menos de exploração).

    Comment by fale com ela — February 13, 2008 @ 9:31 pm

  7. eu to vendendo os meus 15 minutos de fama.
    bjs, mari

    Comment by Mariana — February 18, 2008 @ 9:45 am

  8. Até porque a voz na latinha, o nome no jornal, no site, na calçada ou seja lá onde diabos for vem com um monte de coisas juntas: falsas amizades, sorrisos, tapinhas nas costas, falsidade, mentira…
    Eu concordo contigo Guimarães. Tá sobrando vagabundo, filho de papai, puta e pseudo revolucionário pra opinar e dizer o que tá certo e o que não tá. Tá sobrando gente pra exibir o status, e etica e a moral de cuecas…Status nao paga nenhuma das minhas contas..Definitivamente vale a pena ser comum..

    Comment by Tércio — February 21, 2008 @ 6:33 pm

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