VIDA É DA VIDA A RAZÃO
Foi quase uma década de convivência diária com escadas, portas, janelas, banheiros, carpetes, paredes, cadeiras e pisos. Eu sabia de cor como seria o sabor de cada alimento comprado. Pela luminosidade que entrava numa fresta da janela, poderia dizer que horas eram. Pela sombra que corria ao longo do corredor, tinha condição de adivinhar exatamente o horário. Mesmo trancafiado, tinha plena convicção de como estava a temperatura na rua só de olhar para o teto. Vivi praticamente todo o período dos meus vinte e poucos lá dentro, desfrutando da companhia das mais diversas pessoas. De todo o tipo.
Sabe, no fundo eu acho que as coisas sempre foram fáceis pra mim. Acho que é porque eu nunca passei pela sensação de queda. Nunca tinha caído, estatelado com meu beiço no chão. É a velha história das necessidades e possibilidades. Fazendo um balanço do que eu sou nestes 28 anos, chego à conclusão de que sempre fui estável. Mesmo colégio no primeiro grau, mesmos colegas no segundo grau. Passei de primeira no vestibular e nunca troquei de faculdade. Estágio, contratado no primeiro emprego. Quase uma década neste emprego e aí…boom. A porrada. A primeira. Até então minhas decepções eram poucas. E todas as decepções foram com pessoas. Nunca uma instituição havia me dispensado por opção. Só pessoas. E prefiro acreditar que foram pessoas que dispensaram minha colaboração.
Nutro ainda um profundo respeito por este grupo que me formou para o mundo. Guardarei para sempre mágoas das pessoas que, de certa forma, fazem parte das decisões deste grupo. Uma incompreensão crônica, que vai tomar conta de mim cada dia da minha vida, num revés irreparável que o destino traçou para mim. E é impossível não ter a nostalgia de que por um longo tempo da minha vida eu dediquei tempo, saúde, vontade e orgulho por ter feito tudo que eu fiz. Se houver algum arrependimento, é de ter confiado em gente que não deveria.
Depois da queda, a gente refaz todo um percurso que chega a machucar. A oportunidade, a ascensão, a confirmação, a contestação, a dúvida, o descarte. E por fim, a incompreensão e vinte e um mil questionamentos. Somos apenas um número de matrícula? Sou incompetente? Irresponsável? Instransigente? Inconstante? Desobediente? Inconseqüente? FOLCLÓRICO? Sou tudo isso? Eu errei? Eles erraram? Tem um culpado?
Engraçado como se cresce rapidinho. Em uma semana, parece que eu me tornei uns vinte anos mais sábio. E mais humilde também. E é com profundo orgulho que defenderei a camisa de onde estou agora. Porque é meu jeito. Vou teimar, teimar, teimar em não aceitar isso, não aceitar que eu sou só um número de matrícula que não existe mais. Por mais que tenham esfaqueado minha auto-estima. Por mais que, pela primeira vez na vida, eu tivesse que olhar para o espelho e pensar: “Eu sou ruim no que eu faço?”. Não há sensação pior no mundo do que duvidar da própria capacidade, do próprio potencial.
O que me conforta um pouco é que não vesti branco no final do ano e nem dei tapinha nas costas de chefe. E também não cantei que a vida é mentira, é verdade. Mas concordo com o lema. Vida também é uma cadeira vazia.
wow
notícia q ue me pegou desprevenida… não sabia, ando away do “nosso” meio há tempos. na real, cansei (mas isso é outra história). concordo ctgo que é horrível duvidar das nossas capacidades, destrói com a gente quando esfaqueiam nossa auto-estima. mas sei que tens qualidades como profissional, pessoa etc. às vezes um baque desses ajuda a crescer, a perder a ingenuidade. é difícil pra mim falar assim, mas é o que tenho visto no espelho de casa e em outros espelhos… boa sorte, ergue a cabeça e toca a vida pra frente.
bjão e sucesso
Comment by Vanessa — February 23, 2008 @ 3:06 pm
Fico feliz e fico triste ao mesmo tempo: ainda bem que só aos 28 anos tu passou por isso. Sei bem como é forte essa dor da dúvida sobre a incapacidade. É como se a música mudasse de repente e parecesse que tu não conhece o novo ritmo. Pela experiencia que eu tive (e que me magoou muito) e, se pudesse te proteger dessas coisas, jamais teria deixado tu sentir isso JAMAIS. Não sou boa em falar (ou escrever) coisas bonitas e originais… mas, sei que os velhos ditados que a “Vida continua” e que o “Mundo dá voltas” são os mais sábios. Tu sabe que te desejo muito sucesso e muitas realizações: a tua felicidade é a minha também!
Comment by oieeeee — February 23, 2008 @ 4:23 pm
Sei que é difícil não pensar isso, se tu és incompetente, se tu és ruim… mas isso é bobagem, tu sabe bem quem és, a capacidade que tens. Então, sacode a poeira e vai à luta. Boa sorte!
Comment by Vica — February 23, 2008 @ 5:48 pm
Pôxa Carlinhos, que chato!
Ó, tô na torcida pra que tudo se arranje logo.
Lembra de quando nos conhecemos? Eu tava nessa…
Tu é um baita profissional e vacila quem não reconhece isso.
Boas vibrações daqui.
Saudades, MUITAS!
Beijocas.
Comment by Sílvia (Acre) — March 3, 2008 @ 5:23 pm