Verborragia sem concessões

March 10, 2008

DERIVADOS E PRIMITIVOS

Filed under: comportamento, música - Carlos @ 4:59 am

Sou partidário da teoria de que se virou mania, se caiu no gosto popular, geralmente é porque é bom. Depois, quando banaliza, o mercado geralmente escraviza o modismo, tornando o que é bom produto de massa. Aí vira produção em série, um saco. É onde reside o grande problema.

O filme “Closer - Perto Demais” é um exemplo clássico dessa regra. Extremamente bem feito, com ótimo roteiro e interpretações brilhantes, virou o filme de cabeceira da minha geração ali por 2005. Aí todo mundo pagou o maior pau pro Damien Rice e sua “Blower’s Daughter”. Ótima música. Versões terríveis. Mas de indies de boutique a patricinhas sem muito critério, passando por pagodeiros e surfistas, todos gostaram. A moda causada por um filme, mas que impede certamente essas pessoas pesquisarem mais sobre o cara e perceber que as influências dele, quase em sua totalidade, são de artistas que eles nunca ouviram falar. Mas a moda era gostar de Damien Rice. Ou desta música, somente. Até a SIMONE gostou. Gostou tanto que gravou. E o Seu Jorge, aquele da “Burguesinha”, o cara do suíngue maneiro, se juntou à Ana Carolina e tacou uma versão. O Seu Jorge é fera, mas o negócio dele é samba-rock. Não uma música como “Blower’s Daughter”. Seria como ele gravar “High and Dry” do Radiohead, em versão suingada.

Aposto um real como a próxima música-moda-fetiche será “Falling Slowly”, de uma banda irlandesa chamada The Frames, interpetada e escrita por Glen Hansard e Marketa Irglova. Esta canção ganhou o Oscar há duas semanas e me chamou atenção. É absolutamente fantástica. Belíssima. Obra. O filme é “Once” e será o filme-moda-fetiche dos indies assim que estrear no Brasil. Se passa na Irlanda e aí foge da característica blockbuster-popcorn-americana que os indies tanto odeiam. Ponto pro filme. Duvido que gostariam tanto de “Closer” se fosse em MIAMI por exemplo. Miami não vai ser moda tão cedo.

Espero que não façam versões dessa música, que nenhum DJ desses faça um remix esperto e que ninguém se identifique com a narrativa e harmonia belíssima dos vocais e cordas da música. Mas acho que isso vai acabar acontecendo. É muito boa, ganhou Oscar e o filme deve ser bacana. Uma love story com musiquinha esperta se passando na Irlanda? É, vai ACONTECER, definitivamente. Vai acontecer porque é bom, como Closer. E porque a música é melhor ainda. E sendo bem sincero, olha, melhor do que muita coisa que eu ouvi nesta década.

Escrevi no outro blog sobre o tecnobrega. O conceito tecnobrega e forró brega é excepcional. Criativo, brasileiro, genuíno. Está virando moda. Quando chegar aqui em Porto Alegre, a CAPITAL MUNDIAL DO SAMBA-ROCK, a cidade com uma rua dedicada a um único estilo, vai estourar. Na primeira metade da década, festinhas de forró universitário bombavam. O tecnobrega e o forróbrega vai arrebentar, tenho certeza. Vai massificar. Vai invadir uma cidade completamente desacostumada com esse tipo de coisa, uma cidade que não cria muita coisa em termos musicais (excetuando o rock gaúcho anos 80), que mais copia e deseja intensamente em ser a República dos Excluídos e com Complexo de Inferioridade, apoiando-se na suposta qualidade de vida superior e no suposto “frio europeu”, mesmo que no verão a cidade seja uma versão parecida do inferno. Vai foder com toda a proposta do movimento tecnobrega, a pirataria, os ídolos, as caravanas.

A grande banda de 2008 no Brasil será Aviões do Forró. Fizeram uma versão de “Umbrella”, da Rihanna, que dói o esôfago de tão ruim, tão picareta e tão genial. Tem uma nova chamada “Chupa que é de uva” que é um primor. Vai tomar o lugar das bagaceirices saudáveis dos anos 90, por exemplo, como Tiririca e É o Tchan. O Brasil precisa disso. Desse lado suburbano que o Chacrinha ensinou a fazer e que depois de sua morte houve uma lacuna que foi preenchida por estes vigários musicais do bem.

O problema é que para cada gênio que bola um Tchan e um Aviões do Forró vem vinte mil palhaços com derivados que só se sustentam em quem criou a idéia. Ou alguém para “aparar as arestas da vagabundagem”, lapidar uma espécie de contracultura do contrabandismo musical, pasteurizar e faturar dinheiro. E aí todo mundo cai nessa história.

Como todo mundo caiu com a “Blower’s Daughter”. Todo mundo adorou, mas ao invés de conhecer Elliot Smith, PJ Harvey e Radiohead, pra não dizer o trabalho completo do Damien Rice, preferiu ficar só com “A MÚSICA DO FILME”. E todo mundo vai cair com o oscarizado cara do The Frames, com essa música espetacular. E ao invés de saber sobre a banda e seus contemporâneos, vai se dar por satisfeito em ter essa música como a canção da cabeceira e se converter ao modismo.

É o problema da moda. Quando vira DA MASSA, ninguém mais se preocupa em saber as origens, as influências, como surgiu, porque aconteceu. Só bate e vai. Aliás, alguém sabe da origem dos emos, pra falar em MODA ATUAL? Ou quando existia o grunge, alguém citava Mother Love Bone? Mais ou menos como o guri gostar de NX Zero e não conhecer Ramones. Ou ouvir Ramones e não gostar. Ora, NX Zero não existiria não fossem os Ramones. Não fosse uma transformação de ritmos, estilos e tendências que têm sua origem lá nos anos 70, com o punk rock. Só querem saber dos derivados. Mas não vão atrás dos primitivos.

6 Comments »

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  1. É sempre uma delícia ‘te ler’…

    Quanto ao modismo na esfera musical, não aguento qdo isso acontece. Às vezes eu até curto a música, mas há um limite para tudo… Versões são sempre um perigo.

    Saudades das nossas conversas. Tô precisando!

    Beijos mil.

    Comment by Sílvia (Acre) — March 10, 2008 @ 6:55 pm

  2. hum… nao entendi nada, carlos! me parece muito contraditorio o texto… no final, as pessoas eh que sao o problema? (eh que sao????) vou ter que procurar no google e no youtube a metade das coisas que tu escreveu! eu acho que eu sou a unica leitora do blog que nao entende nada de filmes, musica, emos e indies. mas eu gosto de moda, massificacao, produtos made in china. a unica coisa que eu acho meio deprimente eh que em poa as coisas chegam depois, tipo, moderno com 10 anos de atraso, saca? tem orgulho de ser indie-emo e a gente quase em 2010. sei la! me da uma vergonhazinha… ou eh moderno moderno (que sabe de onde veio, pra saber pra onde vai - antes dos outros), ou se assume tiozao (que entra na moda quando ela ja ta acabando)! vou ter que ler o texto de novo! bjs, mari

    Comment by mariana — March 11, 2008 @ 10:57 am

  3. De bar em bar
    De mesa em mesa
    Bebendo cachaça,
    Tomando cerveja.

    Foi assim…
    Que eu te conheci.

    Olha que
    Foi no risca faca
    Que eu te conheci
    Dançando…
    Enchendo a cara
    Fazendo farra
    To nem ai…

    (by Avioes do Forró)

    Comment by oieeee — March 12, 2008 @ 4:29 pm

  4. essa ea melhor esplicasão que eu a chei na enternet voseis são otimos para espli car as coisas.Muito obrigado.

    Comment by victor — June 26, 2008 @ 9:13 pm

  5. mando bem..

    Comment by bruno — July 13, 2008 @ 10:47 pm

  6. Carlos, muito fantástica a sua análise. Infelizmente nem todos tem essa sua visibilidade, como dizer… antropofágica, sabe por que? Por que justamente as pessoas se afundam nos modismos (como vc bem explicou) e se apegam as derivações e se esquecem das conexões causais responsáveis pela consolidação dos movimentos, sejam eles musicais, artisticos em geral ou acadêmicos.
    Estou do seu lado. O tecnobrega é um movimento espontâneo e de uma criatividade tamanha ao ponto de “burlar” todos os conceitos de propriedade intelectual e direitos autorais historicamente construidos pela hegemonia das indústrias culturais.
    Só uma observação: os ditos intelectuais que criticam tanto a estética consumida pelo povão, tachando-a de modista etc, são tão mais ignorantes que esse mesmo povão que tanto eles consideram a excelência da alienação, uma vez que não se apercebem que no grupinho dos fodões das retóricas, essa derivação que vc bem averiguou, também acontece. Nunca vi tanto barbudo com ar de Los Hermanos tocando violão nos ares boêmios da vida. Um tempo atrás foram os seguidores ceguinhos do Raul Seixas. Tô sentindo o sufocar fetichizado agora do fã-clube do Teatro Mágico. Será que encontraremos agora palhaços pelas ruas??? kkkkkkk

    gostaria que lesse um artigo meu num jornal no qual sou colaborador que entitulei “Alternativos maria vai com as outras”
    www.cinformonline.com.br (procure por colunistas e me encontrará)

    parabéns pelo texto
    abraços

    Comment by Vina Torto — July 19, 2008 @ 11:51 pm

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