Verborragia sem concessões

April 11, 2008

OS RATOS

Filed under: comportamento - Carlos @ 5:32 am

Quando eu era pequeno, nunca funcionou. Mas eu gostava dos desenhos do papa-léguas com o coiote e aquelas armadilhas fantásticas da ACME, coisas mirabolantes que eu sempre tentei fazer em casa mas nunca deu certo. A mais clássica, utilizada em vários desenhos, e sem tanta engenhoca assim, é aquela em que a gente coloca uma caixa de sapatos, numa posição de 45 graus, sustentada por um pedaço de pau, amarrado a uma corda. Embaixo da caixa, um pedaço de queijo para atiçar o rato. O bicho vai atrás do perfumado pedaço de queijo suíço. Quando ele está sobre a caixa, puxamos a corda e ele fica preso. Uma isca. Uma artimanha feita para pegar o rato no seu deslize, na sua falha. No seu ponto fraco.

As grandes armadilhas são aquelas onde a gente pega o rato nos pequenos detalhes. Tu tá o primeiro passo, quase um ato falho, mas proposital. Uma leve entregada, mas consciente, racional. É aí que o rato cai.

Com o passar do tempo, passei a utilizar esta artimanha na vida real. Como saber se o rato cai ou não na tua pista falsa? Imagine o rato como se fosse um grande círculo, um bolo redondo, fatiado em diferentes pedaços. Se você quer saber como pegar o rato, jamais entregue a ele a fatia recheada, o melhor pedaço, o mais gordo e saboroso. Num pequeno ato de distração, deixe aquele pedacinho mais humilde, aquele que você acha que ele nunca vai querer. É ali que o rato vai. Ele vai fustigar o bolo, mas jamais vai querer os melhores pedaços. Ratos não vão na boa. Ratos não têm olho gordo. Ratos querem te enganar e como enganar colocando o carro na frente dos bois? Então, o pedaço da sobra, aquele que ninguém quer, pode ter certeza que vai ser a melhor refeição para um rato.

É assim nas relações pessoais. Ainda dentro da minha crise de confiança, ando pegando uns ratos por aí bem nessa manha. Um pequeno passo em falso meu, proposital, é o suficiente para o rato achar que está tudo bem. E aí, eu entrego de bandeja o meu deslize, para que ele se delicie em cima da minha suposta distração. Pronto. Peguei o rato.

Se por um lado este exercício de paciência é necessário para diferenciar ratos de homens, por outro lado não consigo simplesmente rotular um rato sem que ele sofra na armadilha que ele caiu. Sou impaciente quanto a traições. Vem da minha dificuldade extrema em perdoar. Não perdôo mais.

É simples. Eu pedi um 2008 leve, de tolerar mais, de ser mais paciente, de ser mais tranqüilo. Acabei como o rato nessa história. Fui levemente induzido a acreditar que eu poderia violentar anos de impaciência, de incoerência e de intensidade em troca de uma calmaria que eu teimo em precisar. Fiquei calmo, abri as pregas e 2008 entrou como um foguete no meu rabo, justamente no meu deslize. Na minha apatia. Entrei na caixa de sapatos, mas não morri. Como seqüelas, a desconfiança. E se eu fui o rato, hoje é dia de caçar ratos. Eles estão aí. Muitos nem sabem, mas já caíram na minha armadilha. Como ratos se proliferam facilmente, o que eu ando fazendo com eles é o trivial: pego pelo rabo e jogo na lata de lixo. O problema é que eles cagam e andam. Ratos, geralmente, adoram uma lata de lixo.

É paranóia, talvez. Mas sempre quando eu fui frouxo, leve, solto, alguma merda aconteceu comigo. É meu ponto fraco. A raiva é um dom, lembra? Ser inquieto é meu escudo. O desapego é o meu calcanhar de aquiles. Gostam de dizer que tudo na vida é uma questão de manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranqüilo. O meu combustível é a mente fervilhando, a espinha torta de tanta tensão e o coração pulsando o tempo todo. E o pau duríssimo. Como diria Humberto Gessinger, é preciso fé cega e pé atrás. Sempre de olho.

Ah, a propósito: este post também é uma isca.

April 4, 2008

SEDE NÃO É NADA. IMAGEM É TUDO.

Filed under: comportamento - Carlos @ 3:50 am

O que a gente faz quando não há NADA MAIS a fazer? Faz um blog.
E o que a gente escreve quando não há NADA MAIS pra escrever? Insiste.
E pra que a gente publica quando NINGUÉM MAIS lê? Não sei a resposta.

Eu não conheço as pessoas que comentam no meu blog, por incrível que pareça. As que mais comentam, eu nunca vi. Falo com elas por msn e tal, são legais, eu tento ser gentil, dou uma dica musical volta e meia, bato um papo esperto, outros toques sobre vida pessoal, faço questão de atualizá-las a respeito da minha vida, enfim, sou bacana. Adoto esta política de boa vizinhança com quem me prestigia. No blog do futebol, por exemplo, resolvi aceitar a maioria dos comentários. Até os que me xingam. Só deletei aqueles que me ameaçam com um pouco mais de força. É uma característica minha.

No entanto, as pessoas que me conhecem não estão lá muito interessadas em saber como eu estou. Ou pior, não estão interessadas em saber o que eu penso, nas minhas idéias, nos meus pontos de vista.

Confesso que ando com uma grave crise de confiança. Depois que eu fui DEMITIDO eu passei a ficar espiado com todo mundo. Justamente porque eu sou legal. É, legal. Eu nunca fui chamado de mau caráter, nunca tive dívidas, eu devolvo o que me emprestam, eu tento, dentro do possível, ajudar todo mundo que pede alguma coisa. E por isso, as pessoas acabam se preocupando e querendo saber como eu estou. Mas ultimamente nem isso tem acontecido.

No episódio DEMISSÃO, me decepcionei com várias pessoas. Quando tá tudo legal, eu faço uma graça do caralho quando tenho umas quatro cevas na moringa. Quando tem uma festinha, a galera se diverte à beça quando eu começo a ficar mamado. E eu nunca tinha caído. Eu caí e a reação de MUITAS pessoas que eu conheço foi simplesmente a chamada FORÇA MORAL PARA ACARICIAR A CONSCIÊNCIA. Do tipo, se eu disser pra ele que “VAI EM FRENTE, TU É BOM PRA CARALHO” já vai ter sido um incentivo à altura pra eu dormir bem sem “perder um amigo”. É mais ou menos como dar parabéns no aniversário, uma forma branda de boa educação sem muito esforço. E eu deixo bem claro que algumas pessoas me ajudaram nisso tudo. Umas que eu nem esperava. Pra não generalizar, claro.

As pessoas que eu conheço não lêem o meu blog. Ninguém está muito interessado em saber o que eu penso. Mas acho que é um reflexo da vida adulta contemporânea. A nossa geração cresceu num hiato de idéias, de identidade, de valores, num vazio de tanta coisa que simplesmente não se interessa. Somos a geração do desinteresse.

Quer um exemplo? Se houvesse mobilização e engajamento, com tudo que o presidente Lula fez, ele poderia ter saído do poder. Como uma geração acima da minha fez com Collor. Mas até eu virei alienado. Vide o post abaixo. Estou desacreditado e desinteressado com a política. E com qualquer tipo de prestação de solidariedade global, pra ser bem sincero. Um dia coloco pra vocês minha posição sobre as ONGs.

Mas ó, não se choquem não. Vocês também são alienados. Hoje em dia, não precisa ser informado pra se sentir informado. Basta ler as manchetes. Sem aprofundamento. E quem é informado, na maioria das vezes é pra aparecer que é informado. Mais ou menos quando volta e meia algum babaca entra aqui dizendo que meus textos são sem fundamento/embasamento/informação. Pura imagem. É como o cidadão que nunca viu um filme do Godard mas usa um óculos com armação grossa dentro do Guion e todo mundo acha que ele entende de cinema francês. Ou como aquela mina que trai o marido, conta com orgulho pras amigas, mas lava sua alma rezando ao acordar e antes de dormir. A IMAGEM é o que fica. Como descartar alguém pela postura da pessoa, pelo jeito com que ela reage às coisas, nunca pelo conteúdo e importância dela no contexto. Foi assim, não? Faltou postura, faltou imagem. Foda-se o conteúdo.

É por isso que ninguém que me conhece bem lê meu blog. Porque ninguém está interessado em saber o que eu penso. Talvez sobre futebol e um pouco sobre música. Mas minhas idéias, estas não valem rigorosamente nada. Tudo bem, eu sei que eu sou uma boa companhia pra tomar uma cerveja ou que eu divirto a galera quando lembro a escalação do time do Atlético Mineiro de 1977. Esta é a minha imagem. E imagem é tudo. Conteúdo? Melhor deixar só uma manchete porque ninguém tem tempo pra se aprofundar. Ou se interessar.

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