OS RATOS
Quando eu era pequeno, nunca funcionou. Mas eu gostava dos desenhos do papa-léguas com o coiote e aquelas armadilhas fantásticas da ACME, coisas mirabolantes que eu sempre tentei fazer em casa mas nunca deu certo. A mais clássica, utilizada em vários desenhos, e sem tanta engenhoca assim, é aquela em que a gente coloca uma caixa de sapatos, numa posição de 45 graus, sustentada por um pedaço de pau, amarrado a uma corda. Embaixo da caixa, um pedaço de queijo para atiçar o rato. O bicho vai atrás do perfumado pedaço de queijo suíço. Quando ele está sobre a caixa, puxamos a corda e ele fica preso. Uma isca. Uma artimanha feita para pegar o rato no seu deslize, na sua falha. No seu ponto fraco.
As grandes armadilhas são aquelas onde a gente pega o rato nos pequenos detalhes. Tu tá o primeiro passo, quase um ato falho, mas proposital. Uma leve entregada, mas consciente, racional. É aí que o rato cai.
Com o passar do tempo, passei a utilizar esta artimanha na vida real. Como saber se o rato cai ou não na tua pista falsa? Imagine o rato como se fosse um grande círculo, um bolo redondo, fatiado em diferentes pedaços. Se você quer saber como pegar o rato, jamais entregue a ele a fatia recheada, o melhor pedaço, o mais gordo e saboroso. Num pequeno ato de distração, deixe aquele pedacinho mais humilde, aquele que você acha que ele nunca vai querer. É ali que o rato vai. Ele vai fustigar o bolo, mas jamais vai querer os melhores pedaços. Ratos não vão na boa. Ratos não têm olho gordo. Ratos querem te enganar e como enganar colocando o carro na frente dos bois? Então, o pedaço da sobra, aquele que ninguém quer, pode ter certeza que vai ser a melhor refeição para um rato.
É assim nas relações pessoais. Ainda dentro da minha crise de confiança, ando pegando uns ratos por aí bem nessa manha. Um pequeno passo em falso meu, proposital, é o suficiente para o rato achar que está tudo bem. E aí, eu entrego de bandeja o meu deslize, para que ele se delicie em cima da minha suposta distração. Pronto. Peguei o rato.
Se por um lado este exercício de paciência é necessário para diferenciar ratos de homens, por outro lado não consigo simplesmente rotular um rato sem que ele sofra na armadilha que ele caiu. Sou impaciente quanto a traições. Vem da minha dificuldade extrema em perdoar. Não perdôo mais.
É simples. Eu pedi um 2008 leve, de tolerar mais, de ser mais paciente, de ser mais tranqüilo. Acabei como o rato nessa história. Fui levemente induzido a acreditar que eu poderia violentar anos de impaciência, de incoerência e de intensidade em troca de uma calmaria que eu teimo em precisar. Fiquei calmo, abri as pregas e 2008 entrou como um foguete no meu rabo, justamente no meu deslize. Na minha apatia. Entrei na caixa de sapatos, mas não morri. Como seqüelas, a desconfiança. E se eu fui o rato, hoje é dia de caçar ratos. Eles estão aí. Muitos nem sabem, mas já caíram na minha armadilha. Como ratos se proliferam facilmente, o que eu ando fazendo com eles é o trivial: pego pelo rabo e jogo na lata de lixo. O problema é que eles cagam e andam. Ratos, geralmente, adoram uma lata de lixo.
É paranóia, talvez. Mas sempre quando eu fui frouxo, leve, solto, alguma merda aconteceu comigo. É meu ponto fraco. A raiva é um dom, lembra? Ser inquieto é meu escudo. O desapego é o meu calcanhar de aquiles. Gostam de dizer que tudo na vida é uma questão de manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranqüilo. O meu combustível é a mente fervilhando, a espinha torta de tanta tensão e o coração pulsando o tempo todo. E o pau duríssimo. Como diria Humberto Gessinger, é preciso fé cega e pé atrás. Sempre de olho.
Ah, a propósito: este post também é uma isca.
que amargura guri… vem ca da um abraco!
ó uma musiquinha pra ti:
y no quiero amores no correspondidos,
no quiero guerras,
no quiero amigos que no me quieran sin mis galones.
no me tires flores
ni falsas miradas de inexpresion,
que no dice nada del corazon que me las propones.
porque…voy caminando por la vida, sin pausa pero sin prisa,
procurando no hacer ruido vestío con una sonrisa.
sin complejos ni temores, canto rumbas de colores
y el llorar no me hace daño siempre y cuando tu no llores
nao sei pq tu faz questao de te afundar na merda de que tu saiu. paz e amor! mari
Comment by mariana — April 11, 2008 @ 9:21 am
Quando os gatos saem, os ratos tomam conta.
Comment by A NOIVA do CHUCK — April 11, 2008 @ 1:54 pm
Ai, muito complicado tudo isso… tadinhos dos ratinhos… hoje eu tava pensando no Gessinger, em escrever um post sobre uma das músicas dos Engenheiros… coincidência.
Comment by Vica — April 11, 2008 @ 4:13 pm
boa sorte na caça aos ratos.
Comment by Vanessa — April 13, 2008 @ 4:55 am
Oi amigo gaúcho. Como vc tá?
Ó, tô sem net, mudei de canto, mudei os planos, mudei o olhar rsrs Para além, alguns lances chatos acabaram me deixando fora de órbita.
Ei, saudade grande, grande, tá? Logo, logo entro no msn pra bater um papinho com vc, contar as minhas novidades e, talvez, saber das suas.
Ah! No dia que fiquei ‘on’ no cel, não fui insolente, JURO. Recebi altas msgns dos meus contatos reclamando de msgns que eu não enviei… Vai saber!
Beijo, beijo.
Comment by Sílvia (Acre) — April 14, 2008 @ 8:23 pm
Rááá! Pegadinha do Pelaipe!!!
:P
Comment by Tércio — April 15, 2008 @ 6:45 pm
Hj tava indo pro trabalho e ouvi Jeff Buckley, lembrei de vc! Abraço!
Comment by Fernanda — April 18, 2008 @ 11:23 am
É muito rato para uma vida só.
Comment by fale com ela — June 1, 2008 @ 8:54 pm