Verborragia sem concessões

July 28, 2008

DE VOLTA AOS 80

Filed under: comportamento, brasil - Carlos @ 4:02 am

Os anos 80 foram a década da ressaca. Com a Guerra Fria em decadência, com a paz e o amor fora de moda, com a sexualidade em geral banalizada, veio a porrada na mente daqueles que mudaram o mundo. Tudo tem seu preço. A década de 80 tratou de afundar de vez qualquer idéia de mudança. Aquele garoto que queria mudar o mundo passou a assistir a tudo em cima do muro. E a culpa não foi dele. Ao invés do descompromisso, do amor entre os seres, o mundo entrou em um individualismo doentio, a necessidade de consumir, consumir tudo, da explosão dos eletrodomésticos, à disseminação da televisão em doses perigosas, do ímpeto americanóide da Wall Street, das doses largas de uísque e cocaína executivos, do orgulho em afrouxar a gravata no final do dia sabendo que fez tudo pela carreira e nada pela vida. Década desgraçada, em tudo. As pessoas eram mais feias, a moda era patética, a música foi uma merda, as relações se deterioraram. Tudo o que eles lutavam contra a ditadura chegava numa esfera piorada.

No Brasil, por exemplo, essa ressaca foi evidente. Começou ainda com o resquício da putaria da disco, infernizada pela popularidade das boates, do pó e da Dancing Days. Ensaiou uma esperança morta, com as Diretas (que foi a maior derrota política nacional), com a ousadia das telenovelas e com a eleição de Tancredo Neves. Há de se ter um mártir, não? Tancredo morre, o país vai à falência, se fazem planos econômicos e se elege um santo milagroso que é a cara dos anos 80: Collor.

Eu só não apago esta década porque considero que ela exerce o mesmo fascínio dos anos 60. Há toda uma riqueza de desgraças que encanta e assusta. Assusta porque eu não quero voltar aos anos 80. E temo que isso, em breve, possa acontecer. E o pior: com uma revolução em nome do nada. Há um paralelo estranho entre os tempos que vivemos e os anos 80. O individualismo se manifesta nas horas exageradas que, virtualmente, compramos, desejamos, nos comunicamos, nos informamos. Um “free love” se estabelece numa nítida relação de liberade excessiva com que os jovens crescem hoje. O esclarecimento nos permitiu diminuir as fronteiras entre os tabus. Há um “ninguém é de ninguém” que é uma tentação para qualquer pessoa em formação. Há também uma facilidade nas pessoas acharem que são muito mais do que elas realmente são.

Se há alguns anos isso era necessário para quebrar uma caretice, hoje mais parece uma simples banalização. O importante é se divertir, custe o que custar.

Sou favorável ao equilíbrio. “Disciplina é liberdade”, dizia o cara lá nos anos 80. Vinte anos depois, onde está a tal disciplina? Acho que voltamos a viver como há vinte anos atrás.

July 26, 2008

A GRANA, A FAMA, O QUINTAL E O RELÓGIO

Filed under: saudosismo - Carlos @ 4:13 am

Dizem que quanto mais velho a gente fica, mais a gente se apega em qualquer coisa que não seja o que a gente pensava antes.

Cheguei a pensar que um dia eu pudesse viver de renda. Hoje a minha renda norteia a minha vida de uma maneira que não era exatamente aquela que eu imaginava.

Cheguei a pensar que um dia eu seria famoso. Hoje, sei que fama não bota gasolina no posto.

Cheguei a pensar que aqueles amigos seriam meus amigos pra sempre, que quando eu tivesse 30 anos, eu estaria com eles, as esposas, os filhos, num quintal esplendoroso, fazendo churrasco ao ar livre e tomando cerveja num domingo de tarde. Bom, eu já não falo com nenhum destes amigos. Alguns deles estão solteiros. Nenhum tem quintal. E eu também não tive por muito tempo domingos à tarde.

Cheguei a pensar que eu ganharia aquele relógio de dez anos de serviços prestados. Hoje, eu até posso contratar alguém pra prestar serviços pra mim. E meu relógio eu comprei.

É, acho que eu esqueci de planejar as reviravoltas desse mundo. As minhas e as deles.

Entendo certamente que todas estes desvios de percurso são naturais. Toda aquela magia, aquela ilusão sonhadora da renda, da fama, do quintal e do relógio, esbarram em obstáculos bem mais fortes, que a gente com 15 anos, nem pensa. Para ter renda, é preciso negociar. Para ter fama, é preciso puxar (o saco ou o tapete). Para ter um quintal, é preciso fugir. Para ganhar o relógio, é preciso apanhar. Eu não negocio, não puxo nem fumo, moro em apartamento e resolvi revidar. É, fiquei sem grana, sem fama, sem quintal e sem relógio.

E se eu quisesse tudo isso? Se eu quisesse a concretização daquele meu sonho de menino? E o meu sonho de pré-adolescente? E meu sonho de adolescente? E meu sonho adulto? Seria somente voltar a alguma data antes dos acontecimentos se dispersarem?

Aí entra o tal do Efeito Borboleta, cpmo naquele filme. Para cada mudança de rumo significativa, há uma data que marca este feito. O início aparente das coisas não é o começo de tudo. É só o lançamento do foguete. A decisão dele ter sido lançado vem muito antes.

Há uns dias, foi 13 de julho. No dia 13 de julho de 2007, ninguém imagina, mas foi quando tudo começou. E pior: não tive culpa. Mas aquele ato, aparentemente impensado, gerou uma série de conseqüências morais e (sim) profissionais. Eu tenho certeza absoluta que eu não estaria aqui se não fosse pelo dia 13 de julho. Nem aqueles dois estariam onde estão. Nem os outros que nem estavam ali. Minha vida mudou pela última vez no dia 13 de julho. E não no dia 11 de fevereiro, como a maioria pensa que foi.

Não tenho nenhuma vontade em voltar no tempo pra mudar o dia 13 de julho. A data tratou de romper com absolutamente tudo que me envolvia. Eu deixo a minha parte como está, até porque, mesmo sem tudo isso, sem a grana, sem a fama, sem o quintal e sem o relógio, a gente dá um jeito e encontra a felicidade em coisas que eu nem teria se não fosse o 13 de julho. Palavra.

Fora que eu já não tinha a grana, a fama e o quintal. Eu ainda poderia ter o relógio. Mas quer saber? O que eu comprei é muito melhor que o deles.

ESSÊNCIA

Filed under: amor(?), literatura - Carlos @ 3:46 am

Sabe que eu não sei se eu ainda sei andar de bicicleta. Não sei se eu sei, isso aí. Eu sabia, andava bem, tive todas as bicicletas, sabia o que era um CUBO. Sabe? Sei. Mas hoje, se eu subo numa bicicleta, eu consigo andar sem colocar as mãos no guidão ou guidom? Ou empinar uma bike aro 14 (é isso?). Sei lá, talvez eu não suba nem numa montain bike. Tive duas, caloi e monark. Não sei.

O fato é que andar de bicicleta não faz falta nenhuma. Dá uma coceirinha, de ver uns caras em forma pedalando na Redenção, com capacete, liberando endorfina e fazendo o dia ficar mais leve. Mas não é uma prioridade. Gostava de andar de bicicleta, mas dos grandes esportes que eu pratiquei, confesso que aquela bolinha semanal me traz mais lembranças boas. Definitivamente, nunca fui um adepto ferrenho da bicicleta.

Fora que certas coisas esbarram no simples declínio físico. É lógico e óbvio. Não sou mais jovem. Fisicamente, aos 29 anos o que temos é uma curva descendente. Dizem que a vida começa aos 40, tem gente começando aos 50. No astral até pode ser. Agora, vai apostar uma corrida com alguém de 18 pra tu ver se consegue. É, fisicamente passou.

Eu não sei se sei andar de bicicleta. Mas eu sei que eu sei escrever. E de tanto saber escrever, eu sei que é um dom que eu sempre saberei que tenho. Sabendo.

É a tal da essência. As contas aumentaram, o tempo diminuiu. Vieram alguns quilos, outras responsabilidades. Mais responsabilidades. Mais compromisso. Só compromisso. E com toda essa carga de coisas preenchendo o dia, desisti de escrever. Tá, vai, umas notas sobre futebol. Mas este espaço, que servia como uma sessão de descarrego, de terapia, de desabafo, eu larguei. Mesmo sabendo fazer, achei 2 mil razões pra abandonar.

E só achei uma pra voltar: meu texto. Mesmo que eu tenha pouquíssimos leitores, que meu papo egoísta não acrescente nada pra ninguém, que eu reclame mais do que elogie, que a vida oferece trocentas coisas mais interessantes que um espaço chamado “METRALHADORA VERBAL”, eu gosto do meu texto. E senti saudades do processo de fabricar este meu texto. É essência. Não sai de mim. Nunca vai sair. Ainda que eu não receba um tostão por isso aqui, tenho uma sensação de que eu sei fazer bem essa joça. E mais do que fazer bem, esse troço me faz bem. E sabotar toda essa essência, apesar de ter tentado (e muito!), é uma atrocidade que eu não posso fazer comigo.

Eu não tenho mais pernas para pedalar como antigamente. Mas ainda tenho tesão por escrever. Sempre será um dom. Essência.

É, ao que parece, meus amigos, estou de volta.

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