GAUDÉRIOS
Não sou tradicionalista pelo fato de que nasci, cresci e esculpi minha personalidade sob o céu cinzento da Assis Brasil e o máximo de gauchês que eu sentia era o cheiro de churrasco no domingo, o ônibus SARANDI-GAÚCHO e o rastro de bosta de cavalo deixado pelas carroças que cortavam a imponente avenida mais feia de Porto Alegre rumo aos pólos periféricos da GPA (principalmente Cachoeirinha, Gravataí e Alvorada).
Meu crescimento foi eminentemente urbano. Cercado de videogame, futebol na rua, movimento intenso de veículos e poluição. Nada campestre, nada gauchesco. Por isso, não tenho a ousadia de colocar aqui minhas opiniões a respeito de um movimento que eu tenho pouco conhecimento.
Entretanto, admiro o tradicionalismo e acho de extrema necessidade. A valorização das conquistas, dos hábitos e das tradições é sinal de reverência àqueles que construíram, seja do jeito que for, uma identidade específica para sua terra. E nisso, o Rio Grande do Sul é exemplo no país. Junto, talvez, com as tradições baianas e pernambucanas, com a fanfarronice carioca, que é uma delícia, e com as raízes sertanejas dos pantaneiros.
Depois que eu percebi que a música era mais do que três notas e que havia alguma coisa além das guitarras, me enfiei num pequeno guia para principiantes da música gaudéria. Para o meu espanto, me deparei com uma música riquíssima. Com influências diretas das mais belíssimas canções latinas, com letras espetaculares, há muita coisa boa a ser conferida na música gauchesca.
Claro que tem gente que fode tudo. Para deixar as coisas mais “ACESSÍVEIS”, um bando de gente que não sabe de nada misturou as coisas, botando até teclado de churrascaria e chamando num arrasta-pé forrozeiro mezzo brega que dá uma certa vergonha. Mas se formos no âmago, vale a pena descobrir mestres como Teixeirinha, Gildo de Freitas, Leonardo, Luiz Marenco, Mário Barbará e José Cláudio Machado. Gente que tem a manha, que lembram bardos, trovadores e blueseiros da melhor estirpe. Coisa fina.
Juro que dá vontade de pegar o carro e varar este Rio Grande. Até deu vontade de tomar chimarrão. Deve ser coisa do inverno, só pode.