Verborragia sem concessões

August 29, 2008

GAUDÉRIOS

Filed under: comportamento, música - Carlos @ 3:01 am

Não sou tradicionalista pelo fato de que nasci, cresci e esculpi minha personalidade sob o céu cinzento da Assis Brasil e o máximo de gauchês que eu sentia era o cheiro de churrasco no domingo, o ônibus SARANDI-GAÚCHO e o rastro de bosta de cavalo deixado pelas carroças que cortavam a imponente avenida mais feia de Porto Alegre rumo aos pólos periféricos da GPA (principalmente Cachoeirinha, Gravataí e Alvorada).

Meu crescimento foi eminentemente urbano. Cercado de videogame, futebol na rua, movimento intenso de veículos e poluição. Nada campestre, nada gauchesco. Por isso, não tenho a ousadia de colocar aqui minhas opiniões a respeito de um movimento que eu tenho pouco conhecimento.

Entretanto, admiro o tradicionalismo e acho de extrema necessidade. A valorização das conquistas, dos hábitos e das tradições é sinal de reverência àqueles que construíram, seja do jeito que for, uma identidade específica para sua terra. E nisso, o Rio Grande do Sul é exemplo no país. Junto, talvez, com as tradições baianas e pernambucanas, com a fanfarronice carioca, que é uma delícia, e com as raízes sertanejas dos pantaneiros.

Depois que eu percebi que a música era mais do que três notas e que havia alguma coisa além das guitarras, me enfiei num pequeno guia para principiantes da música gaudéria. Para o meu espanto, me deparei com uma música riquíssima. Com influências diretas das mais belíssimas canções latinas, com letras espetaculares, há muita coisa boa a ser conferida na música gauchesca.

Claro que tem gente que fode tudo. Para deixar as coisas mais “ACESSÍVEIS”, um bando de gente que não sabe de nada misturou as coisas, botando até teclado de churrascaria e chamando num arrasta-pé forrozeiro mezzo brega que dá uma certa vergonha. Mas se formos no âmago, vale a pena descobrir mestres como Teixeirinha, Gildo de Freitas, Leonardo, Luiz Marenco, Mário Barbará e José Cláudio Machado. Gente que tem a manha, que lembram bardos, trovadores e blueseiros da melhor estirpe. Coisa fina.

Juro que dá vontade de pegar o carro e varar este Rio Grande. Até deu vontade de tomar chimarrão. Deve ser coisa do inverno, só pode.

August 17, 2008

O SURTO QUE IRRITA

Filed under: comportamento - Carlos @ 4:03 am

A internet me irrita. Me irrita profundamnte. É um monte de gente que simplesmente decidiu poupar a capacidade de raciocínio para se enfiar na frente de um computador pra fazer não sei o quê.

Eu gostava da internet no início. Hoje, eu só uso por pura necessidade. Na verdade, a internet tem basicamente duas funções, primordiais para o ser humano: masturbação e flerte. Sendo que a masturbação vem em primeiro lugar disparado.

A punheta cibernética se dá das mais diversas formas. Talvez a mais corriqueira seja a punheta habitual. É estudo, os sites mais pesquisados no mundo são os sites de putaria. Putaria visual via internet é a glória para qualquer pervertido - ou curioso. É confortável, de certo modo segura (bem mais segura do que qualquer trepadinha de final e semana), relativamente barata e extremamente imaginativa. Qualquer fetiche que deixaria um cidadão com a consciência pesada feito um touro é realizado com dois cliques, num exercício de possibilidades que num mundo real ele jamais acharia (afinal, é difícil um pervertido se revelar).

As outras formas de masturbação virtual são mais doentias e bem menos prazerosas. Principalmente quando alguns se revelam viciados no bagulho. É doença, não é legal, sabe. Aliás, qualquer manifestação de orgulho às avessas me irrita.

E não é que dia desses descobri que tem gente que SURTA (sim, o termo é esse, SURTA) quando fica offline. É, quando dá alguma pane, quando falta luz, quando, sei lá, a tia quer usar o computador, a pessoa SURTA (o termo é esse).

Hmm, deixa eu ver por aqui… Uma colega da minha mãe descobriu que a filha está com leucemia. Um amigo meu foi demitido e recém estava para se casar, sendo que agora vai ter que esperar, pois falta dinheiro. Colegas meus trabalham 15 horas por dia para poder chegar a uma grana legal no final do mês. Cada vez menos nossos amigos têm avós e cada vez mais nossos amigos são pais. Os impostos aumentam. Uma empresa tem uma carga tributária enorme, e isso conta quando é uma micro-empresa, que só quer prestar seviços. Ou melhor, só quer manter uma forma para receber a grana. Esse tempo tá uma merda. Esse trânsito tá uma merda. Essa gente tá uma merda.

Mas eu não vi ninguém surtando. Agora, esse bando de nerd e feio, que passa o tempo todo na internet pra suprir a frustração de uma vida pessoal absolutamente medícore, que possuem uma incapacidade de ter qualquer tipo de carisma nas relações sociais, que não conseguem encarar de frente uma vida real. É, mas eles surtam quando ficam offline. SURTAM.

Eu surto, mas não por isso. E quando eu surto, eu também não fujo, não vou para fora do país. Quando eu surto, eu volto depois, percebendo que o termo SURTAR deve ser preservado para ser utilizado num momento bem mais “surtável”. E quando há algum “surto”, depois eu me dou conta que é ridículo. Que é uma merda, as contas, a carga horária, as dores, a falta de grana, o mau humor. Mas que tudo isso passa, que tem uns colos tão bons pra gente deitar a cabeça e acalmar, por mais que fiquem magoados com a gente. Que gostar, amar, ser feliz, compensa estes eventuais surtos ridículos que acontecem.

Agora, se for pra surtar, que seja por algo que mereça. Por ficar offline? Difícil entender. A não ser que esse pessoal seja pervertido virtual. Aí até vale. Se bem que é compreensível né… deve ser difícil pra essa gente comer alguém na vida real.

August 14, 2008

PLANTÃO SEM IR AO AR

Filed under: jornalismo, saudosismo - Carlos @ 8:48 am

Quando eu resolvi fazer jornalismo, eu queria escrever. Jamais me via como um jornalista do rádio. Para mim, o rádio ainda era um mercado exclusivo para aqueles vozeirões absurdos, com anos de treinamento, até chegar ao microfone. Também não queria fazer televisão. Confesso que quando entrei na faculdade, ainda nos anos noventa, repórter televisivo para mim tinha que ser um pouco artista. Tem gente que confunde o cara que aparece na TV com um ator da Globo. Aposto que o Caco Barcelos dá mais autógrafo que o Márcio Kieling. E ele, em tese, tem a mesma profissão que eu, guardando as devidas proporções. É óbvio que ele tem muito mais talento que eu.

Eu ouvia esses caras há muito tempo. Hoje, eu brigo com eles, tomo cerveja com eles, e até mando em alguns. Jamais pensei que seria assim. E jamais pensei que eu teria este dom de empresário/empreendedor/gestor. Mas eu comecei a juntar as peças e acho que minha trajetória não poderia ser outra a não ser esta.

Dias desses olhei pastas antigas. Campeonato Brasileiro de 1993. Ninguém sabe, mas eu anotava tudo sobre os jogos. Com listas dos melhores. Por puro prazer pessoal. Aos 13 anos, eu já era plantão esportivo sem ir ao ar. E pasmem: meu método de organização não mudou em nada desde então. É a mesma coisa, as estatísticas, a organização funcional, as anotações. E tudo isso numa era em que não havia internet. Descobri que inconscientemente atuo profissionalmente numa metodologia empregada quando era ainda amador.

E de repente, eu senti que minha profissão foi definida aos 13 anos. Aquilo que eu fazia como hobby seria meu ganha-pão quinze anos depois. O engraçado é que aquela brincadeira nunca chegou a ser cogitada como profissão. Na minha cabeça, seria um repórter musical, alguma coisa do tipo. Eu nem sei se eu seria bom nisso porque eu jamais tentei, de fato.

É engraçado como as coisas acontecem quando a gente nem percebe. E como os sonhos, as brincadeiras, as diversões, te dão uma base para direcionar tua trajetória. Engraçado mesmo.

Ah, eu volto a ter vida social dia 24/08. Até lá, esse horário.

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