Verborragia sem concessões

July 26, 2008

ESSÊNCIA

Filed under: amor(?), literatura - Carlos @ 3:46 am

Sabe que eu não sei se eu ainda sei andar de bicicleta. Não sei se eu sei, isso aí. Eu sabia, andava bem, tive todas as bicicletas, sabia o que era um CUBO. Sabe? Sei. Mas hoje, se eu subo numa bicicleta, eu consigo andar sem colocar as mãos no guidão ou guidom? Ou empinar uma bike aro 14 (é isso?). Sei lá, talvez eu não suba nem numa montain bike. Tive duas, caloi e monark. Não sei.

O fato é que andar de bicicleta não faz falta nenhuma. Dá uma coceirinha, de ver uns caras em forma pedalando na Redenção, com capacete, liberando endorfina e fazendo o dia ficar mais leve. Mas não é uma prioridade. Gostava de andar de bicicleta, mas dos grandes esportes que eu pratiquei, confesso que aquela bolinha semanal me traz mais lembranças boas. Definitivamente, nunca fui um adepto ferrenho da bicicleta.

Fora que certas coisas esbarram no simples declínio físico. É lógico e óbvio. Não sou mais jovem. Fisicamente, aos 29 anos o que temos é uma curva descendente. Dizem que a vida começa aos 40, tem gente começando aos 50. No astral até pode ser. Agora, vai apostar uma corrida com alguém de 18 pra tu ver se consegue. É, fisicamente passou.

Eu não sei se sei andar de bicicleta. Mas eu sei que eu sei escrever. E de tanto saber escrever, eu sei que é um dom que eu sempre saberei que tenho. Sabendo.

É a tal da essência. As contas aumentaram, o tempo diminuiu. Vieram alguns quilos, outras responsabilidades. Mais responsabilidades. Mais compromisso. Só compromisso. E com toda essa carga de coisas preenchendo o dia, desisti de escrever. Tá, vai, umas notas sobre futebol. Mas este espaço, que servia como uma sessão de descarrego, de terapia, de desabafo, eu larguei. Mesmo sabendo fazer, achei 2 mil razões pra abandonar.

E só achei uma pra voltar: meu texto. Mesmo que eu tenha pouquíssimos leitores, que meu papo egoísta não acrescente nada pra ninguém, que eu reclame mais do que elogie, que a vida oferece trocentas coisas mais interessantes que um espaço chamado “METRALHADORA VERBAL”, eu gosto do meu texto. E senti saudades do processo de fabricar este meu texto. É essência. Não sai de mim. Nunca vai sair. Ainda que eu não receba um tostão por isso aqui, tenho uma sensação de que eu sei fazer bem essa joça. E mais do que fazer bem, esse troço me faz bem. E sabotar toda essa essência, apesar de ter tentado (e muito!), é uma atrocidade que eu não posso fazer comigo.

Eu não tenho mais pernas para pedalar como antigamente. Mas ainda tenho tesão por escrever. Sempre será um dom. Essência.

É, ao que parece, meus amigos, estou de volta.

January 14, 2008

THE OLD IN AND OUT

Filed under: amor(?) - Carlos @ 3:10 pm

Uma vez eu li no orkut de alguma amiga minha a expressão “THE OLD IN AND OUT”. O velho vai-e-vem. Tava colocado como “esportes” e eu acho que poderia muito bem estar no orkut de todo mundo como “atividade”. Se resumirmos friamente a essência humana, a gente se baseia num “in and out” eterno. A reprodução dos homens é, a grosso modo, um grande vai e vem de movimento.

É assim com os relacionamentos. Eles acabam. E outros voltam. Um círculo que só se encerra quando acontece uma das três opções: a) morte; b) traição; c) não gostar mais da pessoa. No meu caso, já terminei por não gostar mais, já traí, já terminaram por não gostar mais, já traíram. Só não morri nem morreram, ainda bem. Acho que das três opções, a (a) é a mais grave e que realmente deve haver sofrimento. Talvez a única que cesse o vai e vem da história. Não gostar mais é um sinal de que nem a outra pessoa (a que supostamente gosta) gostava tanto quanto no início, na época de reciprocidade. Já traição induz a pessoa a um sentimento de raiva. E como eu falei, a raiva motiva. E nos outros dois casos, o IN AND OUT se torna fundamental. Seja por vingança (na traição) ou por simples e pura movimentação no mercado (opção “C”). Resumindo, A FILA ANDA.

É assim com um trabalho. É demitido. Morre? Não, fica triste, sofre, fica com raiva, se endivida, bota na justiça, queima o filme no mercado, mas levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima meu irmão. Outro emprego e a roda gira. A roda nunca pára. Talvez isso faça com que a gente enlouqueça um pouco. Porque os cães ladram mas a caravana não pára. O nosso mundo, mundo particular, que é e deve ser o centro de tudo (aliás, pra esclarecer, sim, MEU umbigo é o centro do mundo, assim deveria ser o seu, sabia?), às vezes fica tão pequeno nesse oceano de possibilidades e probabilidades que é infinito.

E é assim no blog. Eu notei diante de um senso de percepção que pessoas apaixonadas tendem a tratar pior as outras quando estão nesse estado. Ou nem aparecer. Alguns leitores habituais deixaram de ler o blog porque estão apaixonados. Pessoas que não aparecima no msn há uns longos meses voltam após se desiludir e procurar na internet a salvação para um estado de carência. Elas admitem. Fiquei longe do msn porque estava namorando. Claro, a listinha online com pegadas antigas, ex-paixões e possíveis candidatos é uma tentação incrível para quem está com alguém. Então, a saída é realmente se afastar. Com o blog, a mesma coisa. Os meus leitores são em geral meus amigos ou pessoas que estão SOLTEIRAS. Os casados (e bem casados) não lêem blogs. Por sinal, não lêem nada.

Mas aí, acaba. E eles voltam pro msn, pro blog, pro mercado. Só acho um pouco medíocre um sofrimento desenfreado por alguém que não te quer. Este sofrimento é parte do IN AND OUT, põe na cabeça. Amanhã, o mesmo msn que serve de lágrimas é o que vai servir de sorriso. O mesmo msn que serviu pra conhecer aquela pessoa INTERESSANTE vai servir pra conhecer o teu próximo namorado. É um joguinho, assim, meio sinistro, idiota. Bate e volta. A banca paga e recebe.

Por isso eu já não me preocupo tanto com algumas relações que foram cortadas. Em 2001, por exemplo, eu briguei com a minha melhor amiga, coisa feia. Um ano depois eu falava novamente com ela. Hoje ela é mais amiga da minha mãe do que minha. Em 2003, eu escrevi um e-mail devastando uma namorada que acabou comigo. Hoje eu encontro e converso com ela, torcendo por ela e me orgulhando do que ela conquistou. Em 2002, uma namorada praticamente queria minha morte. Hoje, ela casada, me liga no dia do meu aniversário.

Aliás, acho engraçado aquelas pessoas que tentam se matar com MELHORAL INFANTIL (história verídica) depois de uma “perda”. Quem quer se matar, em primeiro lugar, tem problemas. Quem quer se matar porque uma pessoa MUITO querida morreu tem problemas. Quem quer se matar porque um namorado se foi se foi é débil mental. Quem quer se matar porque um casinho gente boa, colega de trabalho, terminou um namoro é porque é uma ABERRAÇÃO DA NATUREZA. Por sinal, uma coisa que o ser humano sabe BEM como se faz é MATAR ou MORRER. É barbada. A história mostra isso. Então, quem quis REALMENTE fazer isso é encontrado em algum “Rest in peace” por aí. O resto quis aparecer.

Ontem eu fui censurado por causa de um post que eu queria escrever. A censura mais baixa é aquela que te joga na cara que a tua opinião vai “machucar” ou “magoar”. Essa é a chantagem mais barata. E desleal. Hoje, eu devo perder uma das minhas únicas cinco leitoras assíduas. Ela começou a namorar. Em início de namoro, ninguém lê blog. Eu não leio blog. Tanto faz a minha opinião quando existem milhões de estrelinhas e pássaros e rosinhas pairando no ar, alimentando a brisa do verão com um céu cor de rosa, pra deixar na história aquele calor de 2008 em que nos encontramos, nos amamos e nem lembrar que dois anos depois sofremos tanto, isso daqui a dez anos. Porque foi e voltou. In/Out. Vai. Vem. É da vida.

É por isso que eu não me preocupo mais tanto com isso. Me preocupo com coisas sérias, como o dinheiro das minhas férias, não correr na estrada, a saúde da minha família estar em dia com as contas, com o corpo e com a mente. E gasto meu tempo me ocupando em ter raiva de coisas MEDÍOCRES, como o gosto musical dos outros. Agora, eu não vou perder minha disposição sofrendo, chorando, bradando, tendo raiva, me irritando com dor de corno e dor de cotovelo. Chifre e cotovelo são partes do meu corpo que não machucam mais.

October 19, 2007

EXÉRCITO DE UM HOMEM SÓ

Filed under: amor(?) - Carlos @ 5:48 am

Quando jovens, não conseguimos dimensionar o tamanho das perdas. Perdi meu avô quando eu tinha 15 anos e pra mim aquilo foi a coisa mais grave de todos os tempos. Logo ele, que me ensinou a amar o futebol, a ler, a me virar, a ter esse prazer desperocupado de que a vida é apenas uma passagem e a gente nem deve levar tão a sério isso aqui. Foi a primeira.

Depois vieram outras. Na maioria, gente que acaba de distanciando de ti pra seguir seu rumo próprio, dando aquela sensação de que na vida adulta somos todos independentes. Ninguém é dono de ninguém. E ninguém precisa tanto de ninguém assim como a gente pensa. Quem sabe isso muda quando eu for pai. É, vai mudar quando eu for pai e tiver uma coisa muito maior do que eu pra depender de mim.

Estou perdendo minha maior parceira. Ela vai embora, vai pra longe. Minha confidente, minha irmã, a melhor companheira de trabalho que eu já tive, meu braço direito. Tá indo pra uma melhor, contando com toda minha torcida, sabendo que é o melhor pra ela nesse momento. É o que vai deixá-la feliz, por mais que eu vá morrer de saudade. E já estou morrendo. Desde já.

A ficha caiu hoje. Confesso que sem ela, as coisas aqui vão ser bem mais sem graça. Bem mais chatas. O que era um saco vai piorar. Como me disseram hoje, eu vou virar “o exército de um homem só”. Sabe, já estou me acostumando com essa sina. De ser um multi-tudo.

Nossa vida fica bem mais pobre em talento, alegria, humanidade, honestidade, lealdade. Sorte da cidade maravilhosa, que ganha uma pessoa com a cara dela. Abre bem os braços com o Cristo, loira má. Ele tá te esperando sem saber direito tudo o que tu significa. Deixa que eu edito. Deixa que eu seguro as pontas por aqui. Ninguém te substitui. Ninguém.

Que bom que tu foi ser feliz. Eu te amo, do fundo do meu coração. E isso TODO MUNDO que me conhece sabe.

PS: Quem sabe o nome da pessoa citada no post, favor não colocar em comentários, senão será deletado. Obrigado.

October 17, 2007

MELA CUECA

Filed under: comportamento, amor(?) - Carlos @ 5:48 am

Acho que todo mundo deveria ter um pequeno momento de mela-cueca pelo menos uma vez por semana. É quase um manifesto pra dizer que a mela-cueca é necessária como um exercício físico, uma visita ao sol, uma ida ao cinema ou uma saída com os amigos. É um momento pra deixar tua alma e teu coração conversarem numa boa, só os dois, sozinhos, e deixar que o resto do corpo vá nessa breguice fundamental.

Eu não menti quando eu escrevi que assisti a SEIS comédias românticas na seqüência depois de uma fossa estupenda em 2003. Recém havia saído de um relacionamento de um ano. Quem me conhece em relacionamentos, sabe como eu sou. Eu não poupo esforços para ver uma pessoa que eu gosto feliz. É porque eu estou feliz, me sinto feliz. Tinha sido também a primeira vez, de fato, que alguém havia “terminado” comigo quando eu achava que estava no auge da relação. Hoje eu admiro esta pessoa e sei que ela teve todos os motivos do mundo pra não continuar comigo. O jogo é assim, ninguém é obrigado a absolutamente nada, é fato. Não teve falta de respeito, só um final de namoro comum, como o que você já teve algumas vezes.

No entanto, eu sofri pra caralho. Não sofreria, talvez, se fosse hoje. Ao invés de naturalmente seguir o meu curso de afundamento no poço de maneira desenfreada bebendo com amigos, pagando alguma mulher, ligando pra antigos casos, caindo na balada, preferi jogar todos os vírus da fossa dentro do meu corpo, na veia, sem anestesia. Pra ver se os anticorpos fariam efeito. Taquei SEIS comédias românticas em um dia de folga, sozinho em Porto Alegre e emendei uma na seqüência da outra. Telefone desligado. Telefone de casa silencioso. Computador fora da tomada. Mundo bem longe. Eu, uma televisão e filmes românticos, uma mela-cueca em doses cavalares, pra ver se eu seria capaz de assimilar uma série semelhante a uma seqüência de cruzados do Mike Tyson (entre 1985 e 1989) no meio da minha fuça. Era isso que eu queria. A doença estava ali? Pois então joga mais pra dentro de mim pra que acabe tudo de uma vez por todas.

Não lembro de todos os filmes, mas sou capaz de rememorar cada detalhe daquela noite em março de 2003. Sábado pra domingo. À tarde, um calor infernal após um empate do Inter com o Juventude em 3 a 3, quando Nilmar fazia sua estréia como titular do colorado. Cheguei às 20h e fui pra frente da TV. A maratona só parou às oito da manhã do dia seguinte. Eu era persistente na época, ainda mais quando se tratava de filmes. Chorei, na época em que eu chorava. Gritei, bradei, sofri, ensaiei umas ligações, mas eu permaneci ali, forte, resistente. Um massacre que vinha em formas coloridas, bonitinhas, cheio de finais felizes, uma reação que eu precisava ter para que um tipo de casca formasse numa ferida que eu tinha no momento.

A diferença é que eu não estou mais em 2003. Nesse meio tempo, minha vida deu voltas. Hoje, por exemplo, debati profundamente um projeto de lei que quer aumentar o tempo de contribuição previdenciária para os 40 anos. Fiz já as contas de quando eu vou me aposentar. Pela lei atual, aos 56 anos. Contas pra se aposentar e o que dá pra fazer depois de aposentado, vejam só. Fiz as contas da prestação de um carro. Senti de fato que as responsabilidades se multiplicam depois que a gente se forma, que tem gente mais nova que tu e esta gente precisa de orientação. E esta orientação vem de ti. Ao invés de ser guiado, já há situações em que tu deve ser o condutor. Ainda inexperiente pra uma série de coisas, mas certamente com alguma cancha pra dizer pra quem tem alguns anos a menos que tu que a estrada é complicada, parceiro. A trajetória é recheada de bons e maus momentos. Que a gente cai, mas a queda é só uma parte disso, ela passa, você se levanta e segue o baile, porque a banda nunca vai parar de tocar. Um exercício de infinitude temporária, que não nos dá mais aquele tempo dos nossos 18 anos em que a gente parava tudo por um longo período pra observar que rumo a gente tá tomando. Fora que, naquela época, a gente nem pensava em observar esse rumo.

Cria-se uma casca, uma proteção natural que faz com que as porradas que chegam não nos derrubam tanto assim. Por outro lado, há toda uma vida pra se criar, fazer valer minha passagem pra alguma coisa. Uma confusão que não te deixa em paz. A não ser que tu saia dessa esfera onde tu tá metido e olhe por cima, uma espécie de satélite espiritual que te localize no planeta e enxergue os diversos caminhos pra seguir em frente. E isso dá medo.

Tenho medo de virar workaholic. Algo que eu lutava em não ser pode acontecer e eu nem perceber. Mas acho que tem um antídoto pra isso. Sair e observar, a lá Ferris Bueller, parar e dar uma olhada no mundo porque senão ele passa rápido demais sem que tu se dê conta. Ou então, permitir-se ser mela-cueca por um dia.

Como eu fiz em março de 2003. Ali, eu achava que tinha motivos. Oras, tem motivo pra ser mela-cueca? Mela-cueca é só de vez em quando uma permissão para observar como o amor pode existir no meio da papelada de contas. É não ter vergonha de cantar “Always” do Bon Jovi em voz alta, acompanhando com o violão. É fazer videoclipe na beira da praia com alguém que você gosta. É gravar um CD com músicas preferidas pra alguém. É brincar com os nomes dos filhos no futuro. É, quem sabe, chorar.

A minha casca é grossa. Virei casca grossa. Mas hoje eu resolvi ver novamente um filme chamado “Um Amor Para Recordar” (A Walk to Remember), um dos SEIS de amor que eu vi em 2003. Foi o meu momento mela-cueca, pra que eu durma bem e tente acordar com essa casca um pouco menos grossa amanhã. Abrir o coração e ainda lutar contra essa praga workaholic que toma conta da gente diariamente.

No final das contas, dinheiro se consegue. O difícil é ser duro sem perder a ternura. Acho que nessa história, os mela-cuecas são bem mais felizes que os workaholic.

October 14, 2007

FRAÇÃO

Filed under: amor(?) - Carlos @ 7:23 am

Homens falam sobre mulher, futebol e cerveja, nessa ordem. Mas talvez homens deveriam falar mais sobre amor. A conotação de viadagem pra esse assunto nos afasta do debate, nos colocando da superficialidade de tratar o assunto com desdém e apenas nos referir às mulheres do jeito que elas acham que a gente fala delas. Mas não é bem assim.

Um dos meus melhores amigos chorou assistindo “Doce Novembro”, aquele, com a Charlize Theron e o Keanu Reeves. Eu vi o filme numa fossa do caralho em 2003, o famoso dia das SEIS comédias românticas em seqüência após o término de um namoro. Outro amigo meu chegou a um detalhe que me obriga a dizer que a percepção masculina sobre as “coisas relacionadas a paixão/amor” é bem mais aguçada do que uma simples incursão no mundo da putaria. Afinal, mulher é bem mais que isso. E mais complexa, interessante e profunda.

Certa vez, chegamos à conclusão sobre o assunto. O melhor momento da vida de um homem dura exatamente a distância percorrida da casa da mulher até a tua casa, após uma noite que a gente julga perfeita. Às vezes é uma eternidade deliciosa, uma meia hora curtida em cada acorde da música que toca naquele momento, um sublime e singelo detalhe que fica na tua memória pra sempre. Em alguns momentos, essa eternidade dura somente uns dez minutos, prolongados com um gosto único determinando um caminho mais longo, uma velocidade mais lenta, só porque a gente sabe que essa eternidade acaba no simples instante em que a vida real te manda dormir.

É a perfeição: tu e uma memória recente que ainda treme tuas pernas, acelera teu coração, dispara tua adrenalina e liberta todaa euforia contida por um tempo enorme de mesmice e cotidiano que te obrigam. A vida é pagar contas, mas eu pago todas elas se for pra ter instantes como este novamente. Um simples deslocamento em que tu faz previsões de como agir pra frente, tomado por uma insegurança deliciosa; cercado por memórias de dez minutos atrás que tu queria que naquele momento fossem eternas, duradouras; detalhes como uma roupa, um cheiro, um raio de sol, um sorriso. Sim, sorrisos. É uma música, uma lista, uma piada. Um beijo. Um não-beijo. Uma descoberta. A simplicidade.

É essa fração de tempo dentro da tua existência que vai fazer com que toda a porrada que a vida te traz valha a pena. É uma plenitude absolutamente inexplicável. Talvez seja até orgânico e um dia a ciência explique toda a profusão de substâncias que teu cérebro manda pro teu corpo naquele momento. Acho até que a ciência explica, não quis pesquisar sobre isso. Prefiro ficar nessa idéia lúdica e quase infantil de que minutos sozinho após um encanto súbito vão pagar todas as horas de vida real que te pega e te detona aos poucos.

Depois isso até pode virar ilusão, frustração, decepção. Mas naquele momento, naquele trajeto, naquele deslocamento, naqueles poucos minutos, nada disso passa pela cabeça. É pleno. É, finalmente, voltar a sentir. Sentir. Isso aí.

May 8, 2007

28

Filed under: amor(?) - Carlos @ 6:25 am

Vou fazer 28 agora, em maio. Acho que com a aproximação dos 30 anos, a linearidade da tua vida só é quebrada se houver uma ruptura brusca, tão intensa quanto às primeiras descobertas sexuais, como a primeira namorada, a primeira vez que tu pegou um ônibus sozinho, a primeira viagem de avião, o primeiro emprego, a formatura, passar no vestibular.

Aos 28, eu já tenho uma amostra considerável das experiências mais usuais da vida. Já houve paixões arrebatadoras, início e fim de relacionamentos, euforia, sensação de acomodação e expectativa por ascensão profissional, decepções na mesma área, uma certa desistência de sonhos impossíveis e a convicção de outros sonhos, bem mais realizáveis. Já sei que um pardal multa mesmo quem passa de 80 km/h na estrada, que cerveja em excesso causa ressaca, que uma semana de atrasos dá demissão, que o teu talento não é de forma alguma sabotado, que tua carreira é o teu talento, e é nisso que tu deve investir. Já tenho a idéia de quem são nossos amigos, que muitos nos decepcionaram e que a gente já decepcionou muitos. E que a vida é uma rotina às vezes nostálgica, um vai-e-vem de acordar, exercer alguma atividade que te cause bem estar físico ou financeiro, um eterno rodar pela cidade até chegar ao local onde vai gastar um pouco de algum atributo do teu corpo em troca de uma recompensa que chega dia 5. E que à noite, uns amigos podem beber comigo, ou então a gente vai no cinema ver Homem Aranha 3. Senão, me toco num inferninho, num exercício bárbaro de solidão cosmopolita, arranjando uns quinze conhecidos na noite dançando coisas que eu tenho em casa. Fingindo estar dançando.

É isso que eu sei aos 28. Uma constante e eterna busca por uma diversão completamente abstrata, tão seca e dura quanto a ressaca do dia seguinte, e uma sensação ilusória de diversão instantânea. E efêmera, porque morre, na maioria das vezes, nem penetra na memória, apagada como nos cinco segundos que tu demorou pra dormir completamente cansado pelas incontáveis horas de rotina natural de trabalho, contas e trânsito. Ou cerveja, música ruim e lugar apertado.

Não chorava há algum tempo quando vi um pai com uma menina de uns 7 anos no Borubon Country segunda feira à tarde. Tentei adivinhar a vida do cara. Separado, estava com a criança no seu dia de guarda. Ou então, simplesmente pegou a guria depois do colégio dela e deu um tempo no shopping, entrando na Livraria Cervo para comprar alguma coisa, depois de comer um doce numa cafeteria. E depois, iria pra casa, encontrar a esposa e o irmão mais novo. Sentariam à beira da televisão, talvez a guria fosse pra internet, ele faria algumas ligações combinando o dia seguinte, ela pra amigas, jantariam, tomariam banho, fariam as crianças dormir, depois de uma bronca, evitando de ficar até tarde na internet. E dormiriam, juntos, na cama de casal. O relógio desperta às sete, tomam um banho, se barbeia, ela se ajeita um pouco mais, pega o carro, acorda as crianças e cada um toma seu rumo, em parte um rumo que eu sei, o de estudante primário. Em outra parte, um rumo completamente desconhecido pra mim. O de pai de família trabalhador, que deve ser diferente do meu. Enquanto eu combino campeonatos de videogame, eles apresentam a seriedade necessária digna de um pai de família, contando as horas para chegar em casa e ver os filhos crescendo. Passando um domingo levando na casa de amigos para dormir fora, indo ao parque, a algum restaurante lotado da cidade ou planejando um feriado fora de casa. Ou até mesmo ficando em casa, ensinando coisas bacanas, aquelas coisas que a gente fazia quando era criança e que só tem a vontade de repassar, de seguir em frente, como se não fosse mais possível da gente fazer, mas precisasse de um herdeiro, um filho.

Isso eu não sei aos 28. E pela primeira vez em público, despindo a carranca pseudo-bagaceira-chinelona que cerca a minha aura pra quem me vê de fora, eu tenho essa vontade. Como naquele filme brasileiro tão bonito que eu vi na noite anterior, “tão difícil, mas tão bom. é sempre tão bom, mas é sempre tão difícil”.

Queria dar adeus definitivo a essa adolescência tardia. Eu sou fanático por videogames, por ouvir bandas adolescentes e compreender o universo mágico que cerca esse bando de gente que ainda tem pelo menos no mínimo dez anos de estrada pra acumular o que eu tenho e cair na real, que noventa por cento dos sonhos vão sendo até inconscientemente esquecidos com o passar dos tempos.

Eu não vou ser músico, não vou tocar para uma multidão, não vou ser produtor musical, talvez seja famoso, merecidamente pelo meu talento verdadeiro e bruto, que é minha profissão, sendo que não era um sonho meu. O meu sonho, hoje, ao ver aquele pai no shopping, era ter um pouquinho dele naquele momento. Talvez ele pense o mesmo que eu, que queria um dia sair até tarde com os parceiros sem dar satisfação pra ninguém e recolher um pouco das economias gastas em colégio, roupas, alimento para, sei lá, fazer uma viagem de moto pelos Andes, ou participar de um torneio de golfe.

Os nossos sonhos são o fruto da nossa insatisfação atual. É uma barbada falar sobre os países que a gente conheceu ou sobre a festa da noite anterior ou sobre a vitória do nosso time. Difícil é admitir essa frustração. De que a França não vai sair do mapa, de que a noite sempre vai existir e de que nosso time vai umas vezes ganhar e outras perder. A gente sabe disso. Aos 28, eu sei disso.

O que eu não sei é a sensação de ter algo maior para me dedicar. Algo que supere todos estes valores, para alguns sonhos, para muitos a realização de uma vida perfeita, porém completamente egoísta. Acho que estou preparado para esse algo maior, tão grande, tão inacreditável que seria a única ruptura que eu considero válida pra quebrar um amontoado de “já sei como funciona” da minha vida. Talvez aí eu consiga voltar a me emocionar de verdade com alguma coisa que eu tenha feito de fato e com orgulho.

October 27, 2006

NÃO PERCA A 60B. MAS PODE OLHAR PARA O CÉU.

Filed under: amor(?), cinema, alegria - Carlos @ 5:39 am

Eu não olho pro céu em Porto Alegre. Eu pego o carro, trabalho e volto. Saio de noite, com amigos. Mas às vezes, só às vezes, eu saio a pé. Eu desço a Protásio e vou até a Redenção. Aí eu olho pro céu, pra todos aqueles desenhos de nuvens que a gente enxerga quando é criança. E, de certa forma, eu renasço. Eu me fortaleço, abro um sorriso no rosto e vejo três jovens tocando violão sentados e tomando chimarrão. Um cachorro bonito e duas senhoras caminhando. Um guri de 9 anos tentando imitar o Ronaldinho Gaúcho. Dois namorados andando de pedalinho. Ou dois executivos engravatados também parando, só um pouquinho, para tomar um chope, enquanto descarregam suas pastas em cima da mesa. É quando meu sorriso fica maior ainda e eu aumento o volume do meu ipod e coloco numa música que vai me lembrar aquilo para o resto da vida. E eu olho para o céu e tudo volta a fazer sentido.

Os tempos são difíceis, eu sei. Mas aí eu pego o carro e vejo o Rio. Ou eu caminho no centro de Porto Alegre, até o Guaíba, e me sento numa mesa que eu nunca sentei antes. Deito no meio da Praça da Matriz, desço o viaduto da Borges e chego até o Rio. Conto histórias. Ouço uma música. Vejo as pessoas caminhando, tomo uma água. O sol bate no rosto, anunciando que é tão simples ser agradável ou feliz. E se amanhã for difícil, a gente inventa, ah, a gente inventa.

Pego o carro e vou pra praia sozinho. Vejo aquele bar em Capão da Canoa. Vejo aquele vendedor de quinquilharias, no mesmo lugar, com a barraquinha do lado daquele mesmo crepe que eu comi uma vez. Vejo minha casa em Atlântida Sul, o centro comercial, algumas casas que eu freqüentei, uns lugares onde bebi, umas pessoas que eu conhecia. Chego no mar, olho para o céu. O mar tá revolto, e o vento te enche de areia. A areia não suja, te deixa vivo, absolutamente seguro de que ali é o teu lugar.

De vez em quando eu tenho saudades. Aí eu pego uma foto ou lembro de uma data. Ou escuto uma música e sei exatamente onde eu estava quando aquela música estava tocando. Lembro do que aconteceu e eu fico bem mais uma vez. Eu escuto aquela música e, de alguma forma, bate um conforto imenso que me acolhe maravilhosamente. Eu fico bem. Não eufórico, nem melancólico. Apenas bem. Só com a lembrança. E aí, repentinamente, a memória de um sonho bom, de um dia perfeito, de uma música espetacular, de uma história contada, tudo isso, vira um outro momento. Pronto. E mais uma vez olho para o céu.

Às vezes os dias são cansativos. Aí eu saio, pego o carro, uma cerveja e basta. Eu, minha música, uns goles e uma noite onde cada personagem que está nela vai ter uma trajetória completamente diferente da tua. Olhando na rua, aquele cara pode conhecer a mulher da vida dele. Aquela menina vai beijar alguém que nunca será dela. Os namorados vão brigar. Os pedintes vão continuar pedindo. A guria vai tomar um trago inesquecível. Aquele sujeito vai vivenciar o melhor aniversário da vida dele. Eles estão se casando. É o primeiro encontro deles. Ou talvez esta noite, para muitos, seja mais uma noite, não mais do que uma data que nunca será lembrada. Mas eu lembro das minhas noites, das minhas datas, e depois de um dia ruim, eu volto a olhar para o céu e eu noto a lua. E estrelas. Ou até nuvens. Mas eu fico bem, mais uma vez.

Dizem que eu faço minha vida parecer um filme. É a mais pura verdade. Esta é a minha bengala. Não preciso de terapia. Pra mim, basta uns litros de gasolina, uns cigarros, um pouco de movimento, talvez uma cerveja e uma paisagem. Tudo fica bem. A vida é muito curta, às vezes é preciso parar e dar uma olhada no que tá rolando. Um auto-encontro. Eu, eu mesmo, um sol, com planetas independentes girando ao meu redor e fazendo coisas independente de mim.

É como na viagem de Elizabethtown. Ele, a música e as lembranças. E bons lugares. Bastou para ele, sozinho, ter os melhores minutos de sua vida. Mesmo que lá fora, nos planetas, as coisas não estavam tão bem assim. É como um retorno pra casa, como em Garden State. Vendo tudo de um pedestal, de um ponto máximo, como espectador de vidas que fizeram parte de seu crescimento. Mas, mais do que nada, voltando-se para si, somente ele, mais ninguém. É como um road movie, sem sair muito do lugar. Sair fora, voar, sentir-se livre e nesse momento, imaginar tudo o que de real aconteceu. E se sentir real, mesmo parecendo solitário. Uma auto-análise que te coloca em diversas estradas, para você seguir o rumo que desejar. Uma é a certa. Do not miss the 60B.

Eu acho que o verdadeiro amor próprio se encontra quando estamos sozinhos. Descobri que eu me suporto muito bem. Eu gosto de mim, de todas as minhas neuras, das minhas manias e do que eu sou. Do meu conhecimento e das minhas lembranças. Do meu folclore, como quer que definam, do meu jeito às vezes insuportável e das minhas críticas a todos. Aprendi isso olhando para o céu. Aprendi isso lembrando das coisas. Aprendi isso sozinho. Aprendi me encontrando, nesses caminhos, ouvindo esses discos, conversado com essas pessoas.

Amanhã é outro dia, tem tanta coisa pra fazer. Mas os dias acabam, têm só 24 horas. E se não for pedir demais, mate-me em dezembro, porque semana que vem eu tenho compromisso. Marquei um encontro. Não é com os Beastie Boys, nem com meus amigos. Marquei um encontro comigo. Por um tempo, comigo.

Simples assim. Este é o medidor da felicidade. Se você se pegar, na rua, do nada, olhando para o céu, acredite meu amigo: você é feliz. É pouco, não? Uma grana, uma bonita vista e um punhado de lembranças, que até fazem você acreditar naquele velho compositor baiano que dizia que tudo é divino, tudo é maravilhoso. Talvez seja. Talvez seja assim mesmo. Como nos filmes. Não é quando eu recebo multa, quando o computador estraga, quando o SERASA me descobre, quando eu não fecho a pauta, quando sou cobrado, quando falta dinheiro, quando eu brigo com amigos, quando eu durmo pouco, quando o cabelo precisa ser cortado, as unhas aparadas, quando chove, tem trânsito, tem assalto, quando eu espirro. Mas nesses momentos todos, em todos, todos eles, é um filme.

Esse é o meu filme. Uma série de acontecimentos curtos ao longo de uma vida absolutamente normal. E, acreditem, eu gosto desse filme. E eu faço ele do meu jeito. Um grande filme, com inúmeros coadjuvantes, alguns atores secundários e outros principais.

Mas a estrela máxima, nesse filme, sou eu. Desta vez, olhando para o céu. E me lembrando de tudo, tudinho. E abrindo um sorrisão, aquele, de orelha a orelha, com os olhos brilhando e anunciando, pra mim mesmo, que eu tô é bem demais.

O texto acima tem referências a diversos filmes e músicas que, de alguma forma, fizeram e fazem sentido pra mim.

Trilha do post:
Ryan Adams - Come pick me up
Belchior - Apenas um rapaz latino americano
The Shins - New slang
Imogen Heap - Hide and seek
Wilco - Sunken treasure
Jeff Buckley - Lover, you should’ve come over
Snow Patrol - Chocolate
Weezer - Island in the sun
Elton John - Tiny Dancer
Lisa Loeb and Nine Stories - Stay
Cary Brothers - Ride
Damien Rice - The Blower’s Daughter
Aimee Mann - Today’s the day
U2 - Stay (Far away, so close)
Pulp - Like a Friend
Smashing Pumpkins - Thirty Tree
Neil Young - Keep On Rockin In the Free World

September 26, 2006

ROMANTISMO DE ARAQUE

Filed under: comportamento, amor(?) - Carlos @ 5:05 am

O Richard Linklater é um dos meus diretores preferidos. Claro, muito se deve ao fato dele ter concebido Antes do Amanhecer/Por do Sol, o baluarte do romantismo moderno do cinema.

Junto com “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças”, eles representam a síntese da vida moderna aplicada ao romance. Tudo morre, quem sabe numa noite. Se dá um até logo, um valeu e uma promessa que nunca vem. Ou então, se dura, o melhor pra varrer a decepção pra debaixo do tapete é apagar da memória tudo de uma vez.

“Brilho Eterno…” é também uma amostra do que realmente mata um relacionamento. São os pequenos detalhes. Quando o Joel Barish vai apagar Clementine, ele grava na fita coisas relativas aos hábitos dela. Não reclama de falta de solidariedade, de ausência, de negligência ou de infidelidade. Ele fala sobre o modo dela comer, do suéter dela, da troca de cor de cabelo, do palavreado, da carência de cultura apurada. São todos os pequenos detalhes que ele foi conhecendo ao longo do relacionamento. Foi tudo gota a gota, que encheu o copo, entornou tudo e vazou. Pá, esse é o ponto que eu queria chegar.

É uma faca de dois gumes. A noite perfeita só existe quando não se conhece a pessoa? Ou dá pra repetir uma série de noites perfeitas, eternamente? Será? O fato é que o que realmente destrói qualquer relacionamento no século XXI são os detalhes. Nenhum ser humano consegue uma convivência freqüente com alguém sem que os pequenos defeitos sejam tolerados. Vivemos na era da tolerância zero, e esta se estende ao nível afetivo. Eu tenho a convicção que, daqui a uns 50 anos, as pessoas não vão mais comemorar bodas. Bodas serão como bondes, coisa de antigamente. Que a gente vai achar lindo quando nossos avós celebravam 50 anos de casado, mas que vira peça de museu. Deixa no passado, mas não leva pra casa. E quem conseguir esta façanha, será tachado para sempre como retrógado, infeliz, ultrapassado. Um peixe fora d’água, alguém que não tenha vivido as experiências que hoje nós valorizamos.

É, a pós modernidade está aí. Ao contrário do que o Belchior dizia, nossos ídolos não são mais os mesmos. Nossos pais, avós, bisavós não são nossos espelhos. Nossos espelhos, minha gente, são os malditos filmes de romance e os vídeos do youtube. Nosso espelho é o Joel Barish tentando apagar da memória e lutando pra que algum resquício de AMOR permaneça, passando por cima dos maus hábitos do parceiro. Ou o Jesse e a Celine e sua inacreditável história de uma noite só e que ficaria um saco caso eles permanecessem juntos.

Estamos fadados ao ROMANTISMO DE ARAQUE. O que é bonito na tela dos cinemas mas que na vida real não suporta “aquele maldito tom de voz que ele faz e me irrita”. Nos anos da tolerância-zero, tudo irrita. Boca cheia, bebedeira, modos, uma roupa feia, um tênis furado, um cabelo mal cortado, uma amizade indesejada.

É isso que deveríamos suportar. Quando a gente estabelece a lista ideal do nosso companheiro, nunca está “saber usar talheres” ou “pagar contas em dia”. Não. Divertido, engraçado, atraente, isso sim. Mas o divertido, engraçado e atraente pode usar uma roupa que você não gosta e isso vai te irritar profundamente. Só que, o seguinte: que mal tem se ELE gosta de usar a roupa? Que mal tem se ele fala de boca cheia? Se ele grita? Ou se ele é apático? Será que as qualidades inerentes à pessoa não superam estes pequenos lapsos de comportamento?

Infelizmente, não pensamos mais assim. E inacreditavelmente podamos a liberdade alheia de cometer mínimos desvios de etiqueta. Os relacionamentos seriam bem mais duradouros caso a cor de cabelo fosse só um acessório. Questão de compreensão. Ele fala alto, passa vergonha, mas não pode ser motivo para uma quebra de laços. Falta tolerância pra comemorar bodas. E vai seguir faltando.

No final das contas, somos todos românticos de araque. Achamos lindo nos filmes, mas se ele tá puxando minhas cobertas demais, eu vou mijar e quem sabe dar umas duas semanas de castigo sem dormir comigo. Todos somos. Somos a geração dos românticos das telas. Quando chega a vida real, os defeitos idiotas destroem tudo. E tá aí a solução mágica pro fim do teu namoro: ele acabou porque você não soube respeitar o fato dele ter excentricidades que não são compatíveis com as tuas. Irritação daqui e de acolá. Uma junção de fatos miúdos que formam uma bomba sem volta.

Eu acho que eu tenho razão. Afinal, eu não posso admitir que fumar, beber, falar alto, comer sem modos e usar roupas velhas sejam fatores determinantes para fim de uma relação. Esse aí ó, que faz tudo isso, é o mesmo que preenchia todas as suas condições quando você estava solteira, lembra? Em princípio, você até aceitava isso no pacote. Depois, não dá pra aceitar o fato dele gostar de OVELHA NA BRASA e de você ser vegetariana? Hmm, ruim né. Acaba logo e coloca isso na lista. Até perceber que o próximo ronca demais. E assim vai, vivendo vários “Antes do Amanhecer”, acumulando defeitos, largando fora e vendo as bodas parar num antiquário.

O azar dessa bosta de geração é que não tem a Lacuna Inc. pra apagar tudo isso.

May 14, 2006

FONTES FALAM POR MIM ou EU AINDA NÃO SOU UMA ILHA

Filed under: amor(?) - Carlos @ 7:11 am

Já que eu falei tanto do Salvador, vou falar aqui de uma colega que não vejo há mais de dez anos e que soltou a grande pérola do momento, que será transcrita logo mais.
A Camila foi minha colega no Salvador, no primeiro grau. Com a proximidade proporcionada por esta BOSTA VICIANTE chamada orkut, encontrei virtualmente a Camila. Conversamos por msn.
A Camila mora há 3 anos nos Estados Unidos e atualmente está residindo no Hawaii. A ilha, segundo ela, é pequena, dá pra se atravessar de carro tranqüilamente. Já adaptada à cultura da ilha, estávamos conversando sobre como um brasileiro enxerga seu país natal de longe.
Sobre os diversos problemas do Brasil, Camila soltou a seguinte pérola:

… um dos maiores problemas do Brasil, ao meu ver, nao eh politica, nao eh corrupcao ou nada disso… eh essa putaria que eh normal pra todo mundo

Veja bem, é um comentário feito por alguém que mora nos Estados Unidos, há algum tempo, e que não convive com o dia-a-dia normal de jovens brasileiros nos últimos anos. E este é o comentário dela. Ela, aos 26 anos, longe de casa, independente, não consegue entender a banalização da putaria entre a gente.

Eu pego pesado quando falo na palavra putaria. Na real, digamos que seja a banalização de relações que “não significam nada”, ou, conforme já falei, “a diversão a qualquer custo”. Ou, como me disseram, simplesmente o “rolou”.

A Priscila fez uma matéria para a ZH sobre “gírias de ficantes”, com garotos de 13, 14 e 15 anos. Me impressionei quando ela falou que é normal uma prática entre eles: o chamado DOUBLE ou TRIPLE. Assim: um cara que fica com uma menina pega a guria que tá ficando com o outro cara, e vice-versa. Entenderam? Pega três casais e relaciona todas as relações heterossexuais possíveis entre eles. Putaria juvenil. Have fun, contabiliza pra lista e vambóra.

A prática seria extremamente saudável, não fosse em alguns casos a presença de sentimento. Ainda não estamos em um estágio onde uma pessoa pode conseguir ter uma relação física com quinhentas sem que pelo menos com uma delas aconteça alguma forma de sentimento. É impossível.

Uma outra pessoa(e essa pediu para ter a identidade resguardada) disse que eu faço parte dos 5% dos homens que acreditam nas relações afetivas mais íntimas como sentimento na acepção da palavra. O resto acha absolutamente normal esse tipo de situação mais dantesca, essa explosão de diversão, em detrimento de coisas que, ao meu ver, são bem mais sinceras.

Os outros 95% são formados pelos que querem justificar o uso das próprias bolas. A necessidade de conquistar, levar e contabilizar é gritante. Vício pela conquista, pela satisfação intensa de saber que um troféu foi levantado graças ao talento(?) das táticas do flerte. Nada de sentimento, apenas uma incrível sensação de que o dever masculino foi cumprido com louvor. Palmas dos amigos, auto estima lá em cima e um olhar narcisista para o próprio pau, num momento Boogie Nights total. “Tu é foda, meu velho”. A supervalorização da raça masculina graças a uma alimentação de ego completa por parte de meninas que, se divertiram, mas, mais do que isso, injetaram orgulho pra misturar com a testosterona da galera, transformando gente, que tecnicamente SENTE, em colecionadores de calcinha.

Outra fonte, resguardada também, em afirmação pessoal: “Tem gente que faz qualquer coisa pra pegar uma boceta”. É, qualquer coisa vale nessa altura do campeonato. O sentimento é algo absolutamente descartável.

Antes de mais nada, gostaria de dizer que eu falo - e muito - em putaria. Meu trabalho de conclusão é sobre a Boca do Lixo, eu analiso “A Ilha dos Prazeres Proibidos”. Acho interessante o assunto. Eu brinco com um monte de gente a respeito desse tipo de assunto. Putaria, todo mundo se querendo, essas coisas. Mas acima de tudo, prezo pelo sentimento. O mesmo cara que fala sobre putaria é aquele que quer ver “10 Coisas que eu odeio em você” e achar um baita filme. Para alguns, patético. Para mim, autêntico.

Viro para o lado e observo, definindo: a gurizada quer se divertir e a gurizada tem medo de sentir. Sentir acarreta sofrimento, mas uma euforia absolutamente ímpar, pertencente tão e somente àqueles que conseguem visualizar o próprio sentimento e aplicá-lo com coração. Diversão é mais fácil e gera, na pior das hipóteses, um arrependimento que passa no terceiro mês e um auto-questionamento nem sempre respondido. Mais fácil, talvez até mais saudável. Mais junkie, menos soft. O hard te dá adrenalina e talvez desgosto. O soft te traz construção, maturidade, respeito e noção de consideração.

Só pra citar mais duas fontes: dois colegas de 50 e poucos anos discutindo sobre “a arte da putaria” versus “a intensidade da paixão”. Um deles admite que sempre optou pela putaria, já que, pagando, rola suruba, diversidade e novas experiências. O outro argumentou que nunca recorreu a uma prostituta e que em todas suas relações sofreu barbaridades, mas que viveu intensamente cada uma delas. Quero seguir o caminho do segundo. Quero chegar aos 50 anos e lembrar de cada data em que eu realmente senti. E também as que eu realmente sofri.

Até porque, se o que fica são lembranças, eu não conseguiria me lembrar das datas onde simplesmente a coisa “rolou”.

March 8, 2006

DIA DA MULHER

Filed under: relações sociais, amor(?) - Carlos @ 4:09 pm

Ao contrário do que muita gente pensa, não acho uma bobagem a comemoração de datas estipuladas em homenagem a determinados assuntos. Gosto do Natal. Mais ainda de celebrar o Ano Novo, que simbolicamente é o início de uma nova caminhada. Acho válido o Carnaval, a Páscoa, Independência, Proclamação da República, Finados. Feriados que quebram uma rotina, concedem uma respirada. Não sou aquele hipócrita que argumenta que feriados atrasam nossa economia em um dia, que o importante é a produção, o trabalho, etc. A reflexão também é necessária para nossa evolução, e às vezes ela pode se dar através de uma simples pausa. Como num feriado.
Além disso, valorizo as datas. Somos a soma dos nossos dias vividos. Portanto, se lembrarmos de datas exatas, ou anotarmos, saberemos que determinado dia foi especial. Faço isso. Se puxar 23 de dezembro de 1994, sei que teve Brasil x Iugoslávia no Estádio Olímpico. Que fui no jogo, e, apesar de não ter acontecido nada de extraordinário, foi um dia especial, pelas amizades, pela cor, pelo calor e pelos acontecimentos. A lembrança é minha, e não necessariamente as coisas aconteceram daquela maneira.

“Nunca se conta a história do jeito que aconteceu, mas sim do jeito que a gente se lembra” (Charles Dickens, Great Expectations)

Para mim, o dia teve a coloração azul. Mas poderia ser amarelo.
Não vou aqui ficar discutindo a respeito das supostas igualdades entre homens e mulheres. Como todos sabem, sou defensor de uma cultura que se estabelece há séculos, e que convenientemente me favorece. Homens, mulheres, crianças e idosos, pelas diferentes capacidades físicas, emocionais e estruturais, devem ter seus privilégios e suas restrições. Seres humanos são iguais, mas quando há uma diferença biológica, há sim de haver uma distinção entre eles. A separação de direitos, valores e comprometimentos não se dá pela cor, gosto ou classe social. Se dá pelas diferenças biológicas. Portanto, creio que as igualdades gerais são absolutamente utópicas.

Não gosto de copiar texto. Entretanto, há exatamente um ano, o Cardoso escreveu algo sobre as mulheres que representa exatamente o que eu penso a respeito delas.

Não tem nada na minha vida que seja mais importante que a MULHER.

E não falo com meu FALO quando disso falo: não é só da EROGINIA feminina que está contaminado meu interesse. A verdade é que há quem muito me estranhe quando digo que eu mais gosto é do PROBLEMA. Do AZUCRINO. Da DEMORA. Da DIFERENÇA. De tudo aquilo que eu não tenho.

Eu não sei nada sobre a mulher, mas eu gosto de pensar que estou aprendendo. Gosto de olhar pra ela. Observá-la. Fazer de conta que entendo o que estou LENDO nos sorrisos, no triste das sobrancelhas, no ângulo do queixo que me aponta, nos ruídos estranhos que emite quando quer e quando não quer dizer alguma coisa. Fico prestando atenção pra saber o que fazer no próximo movimento, mas, no próximo movimento tudo MUDOU, tudo é diferente, eu sou, novamente, ignorante.

Eu gosto de manha, de birra e pirraça. De esperar meia hora um trocar de vestido. De errar por quilômetros meu caminho. Gosto de cuidá-la doente, fechar os olhinhos insones, ouví-la roncar noite afora. Gosto de sentir cheiros e sabores causadores de rubores, conhecer os mais vexatórios pormenores, abraçá-la com medo ou com dores.

Gosto de comprar flores. Preparar pratos simples e delicados, grandiosos e complicados. Fazer massagens. Ouvir gemidos. Sabê-la alegre e sabê-la louca. Gosto do gosto da boca e do jeito que ela me vê e que me toca. Gosto de comprar pipoca e entradas pro cinema. De antecipar as preferências, fazer surpresas, limpar a casa, lavar a louça, botar a mesa. Gosto de ter dúvidas e de ter certezas.

Gosto dela.

Ela já não gosta mais de mim.

Mas eu gosto dela mesmo assim.

É isso que eu penso.
Dizem que eu sou machista. Dizem que eu sou homofóbico. Dizem que eu virei covarde. Dizem que eu fiquei amargo, ou azedo. Ou que eu me esqueci. Ou que eu não sei mais. Dizem que eu as considero inferiores.
Apesar da minha divergência com algumas mulheres, eu ainda sou romântico. Talvez a negligência destas qualidades e a necessidade de algumas delas em provar não sei o quê na base do custe-o-que-custar façam com que, às vezes, eu seja tão contrário a certas atitudes. Mas no final das contas, a essência feminina é insuperável.

Pois como disse o Cardoso, e nisso eu assino embaixo:

Não tem nada na minha vida que seja mais importante que a MULHER.

E acrescento: se um dia houve felicidade plena na vida de um homem, só foi por causa de um motivo.
E você sabe qual é. Mesmo fazendo a gente de bobo, vocês são demais.

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