Verborragia sem concessões

October 1, 2007

TROPA DE ELITE

Filed under: cinema, brasil - Carlos @ 5:24 am

PARA QUEM QUISER LER ESTE TEXTO:

Ele foi escrito exatos dez minutos depois de ter visto “Tropa de Elite”. Muito do que está colocado abaixo se deve ao impacto que eu tive ao ver o filme. Nunca subi num morro de verdade. Nunca peguei numa arma. Nunca conheci um bandido. Nunca conheci um policial de elite. Conheço vários playboys de classe média do jeito que são descritos no texto. É o lado que eu posso analisar melhor.

Uma frescura minha, que talvez eu considere um princípio, é não baixar filmes no computador. Pelo menos não filmes para eu assistir pela primeira vez. Filme bom tem que ser visto no cinema. Ou a cópia original, bonitinha, em DVD original. A pirataria comercial é uma saída rápida e barata para quem quer adiantar a ordem natural das coisas. Foi o que me levou a assistir ao filme mais impressionante produzido no Brasil desde “Cidade de Deus”. Aliás, eu baixei o filme, não comprei.

Ainda com a cabeça fervendo e sem conseguir pegar no sono, apesar do horário avançado, vou tentar escrever sobre este filme. Começo por uma das cinco maiores atuações que eu vi no cinema brasileiro. Wagner Moura, que por sinal já havia dado um show no último capítulo de “Paraíso Tropical” (e na novela toda), faz do Capitão Nascimento uma interpretação memorável. Inacreditável, eu diria. A realidade com que ele conseguiu vestir o policial chega a dar medo. Um homem que acredita acima de tudo em seu trabalho. A lealdade com que conduz seus homens. A confiança numa justiça que ele crê como a mais correta, uma maneira brusca de acabar com aquilo que lhe foi ordenado. Um ser humano que tem dificuldades em acertar a própria casa e está perdendo sua mulher e seu filho recém nascido. Mas acima de tudo, um cara que acredita. Que coloca sua crença acima de qualquer oferta. E é esta confiança que leva os policiais do BOPE a selecionarem quem vai fazer parte desse esquadrão de elite. Que escolhe seus homens conforme suas regras, algumas beirando a tortura. Mas acima de tudo, preferindo a formação do caráter e a força do espírito. Mesmo que pra isso a dor seja necessária. Tráfico de drogas não é brincadeira. É guerra. E para a guerra, é preciso estômago. É preciso força. E para que a força seja obtida, há de se ter todo o sacrifício e sofrimento possíveis (sou cristão, definitivamente, tudo é uma repetição da crucificação de Cristo. e eu admiro).

Não concordo exatamente com os métodos de Nascimento, aquela coisa de “bandido bom é bandido morto”. Mas entendo perfeitamente um homem como ele pensar dessa maneira. Queiram ou não, droga hoje é vendida por bandido no Brasil. Quem quiser ficar doidão, vai comprar de marginal. É dinheiro reto, direto e vivo chegando na mão de gente que te mataria num piscar de olhos. Ou que roubaria teu carro, que tu levou 36 meses pra pagar, que tá com o seguro pendurado, só pra fugir da polícia e depois desmontar pra não deixar rastros. Que, numa emboscada, pegaria alguém da sua família como refém por horas, sem se preocupar se a pessoa é cardíaca, recém ganhou filho ou não consegue caminhar. É pra ele que você, quando compra um simples baseado, está dando dinheiro.

Esse lado do “playboy” usuário é o que mais me chamou atenção no filme. Até porque é o que eu mais convivi. Um grupo de estudantes, alguns deles completamente chapadões, ajudam uma ONG num morro do Rio. Um deles é bruxo do dono do morro, fazendo a ponte e levando o fumo pra dentro de uma universidade. É o “espírito social” da nossa linda burguesia de hoje. É lindo se envolver com alguma coisa, não? Que tal então começar pelo básico? Infelizmente para a maioria, a droga é ilegal no país. Mais que isso, é fabricada, negociada e transportada pra cima e pra baixo por gente que caiu nessa e aprendeu a fazer a própria lei. Na lei deles, matar é permitido. Matar playboy que dá dinheiro pra eles é prazer. E aí, o trabalho social, o posicionamento político, a caridade na vila, meu velho, vai pro espaço. Tua única preocupação é fumar um pra rir com teus parceiros, cheirar uma carreira pra enlouquecer a noite toda sem parar, tomar uma bala numa rave pra sair da casinha. Mal sabe você que é aí que começa a corrente. E você nem percebe.

Mas o pior mal está lá, no topo da cadeia. Você ainda acha que peixe grande vai neste país? Não, eu desisti. Eu nem protesto mais. Eu fico na minha, digo o famoso “eu já sabia” e no máximo voto em branco nas eleições (desde 2004 é assim, quando eu desacreditei no único partido que um dia eu pensei que fosse mudar alguma coisa, esse aí de todos os “trabalhadores” e “afins). Não me sinto revoltado pela absolvição de Renan Calheiros. “Eu já sabia”. Não protesto mais, portanto.

A virada da mesa, o início da condenação de Calheiros e outros se dá nos pequenos atos. Mas eu também já acho que quem entra pra política tá a fim do glamour da vida pública, da sensação imediata de poder que é a razão do ser humano se sentir alguma coisa importante nessa vida. Para ser importante, é preciso poder e ambição. Ao menos aqui. Por isso eu nunca seria político. Fora minha completa falta de aptidão para abrir concessões, pra fazer lobby, não tenho nehuma vocação sociológica prática pra levantar qualquer bandeira que seja. Eu não participo de nenhuma instituição de caridade. Eu não sou anti-nada nem pró-nada. É bom ser alienado, não considero isso um defeito. Alienado, justo e honesto. Bem simples assim. Bem cristão.

Acho que a mudança começa nos pequenos atos, mas eu realmente acho que a gente é muito estúpido e egoísta pra perceber isso. É mais fácil culpar a… a…. ah… ah SOCIEDADE, certo? “Descriminalização é o caminho”, “álcool e tabaco são promovidos por grandes indústrias e matam tanto quanto o tráfico”, “o governo financia e os usuários são os culpados”, “é um caso de saúde pública”… e por aí vão as desculpas de gente que adora condenar o lado social ERRADO do país (do mundo, melhor dizendo) ao invés de simplesmente fazer atos simples de bondade e justiça.

Talvez nesse sentido a força bruta do BOPE seja mais eficaz do que o altruísmo dos Direitos Humanos ou a sensibilidade do Greenpeace ou o engajamento dos sindicatos ou até mesmo a caridade das ONGs. Talvez esse texto seja de alguém impressionado com o que viu e esteja quase que revelando um manifesto “volta ditadura”, o que não é o caso. Acredito na democracia e nesse sistema que o mundo absorveu de uma forma menos selvagem do que qualquer outro que é o capitalismo. Não é o melhor, mas é o que temos para o momento. E acho que com humanidade é possível fazer um mundo melhor. Quanto mais as pessoas consigam dormir de consciência limpa, é sinal que os tempos estão melhorando.

Por isso, pela minha suposta alienação, pela falta de “manifestação social”, eu não vou pregar o discurso de “participe, exerça sua cidadania”. Jamais. Não peço um livro, uma árvore e um filho. Eu peço que usem a cabeça. A de cima, de preferência.

PS: a cópia vista não está à venda nem será emprestada. Vejam no cinema.

August 7, 2007

DURO DE MATAR 4.0

Filed under: cinema - Carlos @ 6:27 am

Ainda há salvação para o cinema de verdade. Enquanto um monte de gente torce o nariz para o que (eles) adoram chamar de BLOCKBUSTER (cinemão de Hollywood), eu vibro quando um filme desses e bem feito é lançado. O “blockbuster” é o chamado cinema de arrasar quarteirão. Os mais entendidos na hora já pretendem não assistir a este tipo de filme, falando as mazelas de ser comercial, etc. Ora, cinema é comercial sim senhor. Desde o início, com a grandiosidade de épicos, os milhões investidos para recuperação de filmaços de época. Ou alguém acha que Ben Hur e Lawrence da Arábia (dois dos maiores de todos os tempos) não buscaram eminentemente o lucro? E são bem feitos demais. Por isso eu elogio tanto Titanic. É um ótimo filme, que consegue emocionar de fato. Mas enfim, como eu vou discutir com quem ENTENDE?

Ao contrário da maioria, não acho que Duro de Matar 4.0 tenha sido uma tentativa caça-níquel do Bruce Willis se fazer na pele de John McClane mais uma vez. Ele não precisa disso. Mas acho que a série precisava deste quarto filme. Sou fã de filmes de ação e há muito tempo não tinha um policial de ação quanto este. O detetive de NY agora tem que parar uma reação em cadeia que destrói com transporte, energia e comunicações nos EUA. O velho de guerra John McClane se une a um jovem hacker para evitar o efeito cascata.

Usando a intuição que lhe persegue desde o primeiro da série (de 1988), McClane, claro, destrói eles todos. Mas pra que isso aconteça, todos os ingredientes do que tem de melhor no gênero: perseguições espetaculares, bandidos inacreditáveis, lutas frenéticas, um helicóptero destruído por um carro e um caça que persegue na rua um caminhão gigante.

Ainda bem que esse tipo de filme está de volta! Depois de decepções impressionantes (Guerra dos Mundos, Missão Impossível 3, Código da Vinci), um filmaço. Tão bom quanto todos os outros da série, quando o detetive salva, em ordem, um prédio, um aeroporto e Nova York. Agora ele salva a costa leste americana. Espetáculo visual e de emoção.

Não vou aqui listar as analogias com o 11/9 porque não vêm ao caso. Mas desde o primeiro Piratas do Caribe não me divertia tanto vendo um filme no cinema. Agora falta só lançarem um Máquina Mortífera 5 pra completar a festa.

July 11, 2007

OS 50 MAIORES FILMES DA DÉCADA DE 2000

Filed under: cinema - Carlos @ 6:05 am

A lista é minha. Pessoal. Sem embasamento científico. Puro gosto. Aproveite.

1- BRILHO ETERNO DE UMA MENTE SEM LEMBRANÇAS (Eternal Sunshine of the spotless mind, 2004)

2- AMNÉSIA (Memento, 2000)

3- HORA DE VOLTAR (Garden State, 2004)

4- PEIXE GRANDE E SUAS HISTÓRIAS MARAVILHOSAS (Big Fish, 2003)

5- O ÚLTIMO BEIJO (L’Ultimo Baccio, 2001)

6- A LULA E A BALEIA (The Squid and the whale, 2005)

7- CIDADE DE DEUS (2002)

8- KILL BILL: VOL. 1 (2004)

9- KILL BILL: VOL. 2 (2005)

10- ENCONTROS E DESENCONTROS (Lost In Translation, 2003)

11- ANTES DO PÔR DO SOL (Before Sunset, 2004)

12- TUDO ACONTECE EM ELIZABETHTOWN (Elizabethtown, 2005)

13- DOGVILLE (Dogville, 2003)

14- CIDADE DOS SONHOS (Mullholand Drive, 2001)

15- WAKING LIFE (2001)

16- ALTA FIDELIDADE (High Fidelity, 2001)

17- O CÉU DE SUELY (2006)

18- SIDEWAYS - ENTRE UMAS E OUTRAS (Sideways, 2004)

19- O TIGRE E O DRAGÃO (Hidden Tiger, Crouchin Dragon, 2001)

20- AMORES BRUTOS (Amores Perros, 2000)

21- DONNIE DARKO (2001)

22- PEQUENA MISS SUNSHINE (Little Miss Sunshine, 2006)

23- PIRATAS DO CARIBE: A MALDIÇÃO DO PÉROLA NEGRA (Pirates of the Caribbean: The Curse of the Black Pearl, 2003)

24- MENINA DE OURO (Million Dollar Baby, 2004)

25- OLDBOY (2004)

26- EDIFÍCIO MASTER (2002)

27- ESCOLA DO ROCK (School of Rock, 2003)

28- VANILLA SKY (Vanilla Sky, 2001)

29- O HOMEM QUE COPIAVA (2003)

30- MUNDO CÃO (Ghost World, 2001)

31- OS INFILITRADOS (The Departed, 2006)

32- SIMPLESMENTE AMOR (Love Actually, 2003)

33- ADAPTAÇÃO (Adaptation, 2002)

34- E SUA MÃE TAMBÉM ( Y Tu Mamá También, 2001)

35- STORYTELLING (2001)

36- ZODÍACO (Zodiac) (2007)

37- O PLANO PERFEITO (Inside Man, 2006)

38- SIN CITY (2005)

39- JOGOS MORTAIS (Saw, 2005)

40- O LABIRINTO DO FAUNO (El Laberinto del Fauno, 2006)

41- OS INCRÍVEIS (The Incredibles, 2004)

42- CRASH (2005)

43- SOBRE MENINOS E LOBOS (Mystic River, 2003)

44- O INVASOR (2001)

45- DIÁRIO DE UMA PAIXÃO (The Notebook, 2004)

46- CINEMA, ASPIRINAS E URUBUS (2006)

47- TRAFFIC (2000)

48- ANTI HERÓI AMERICANO (American Splendor, 2003)

49- HERÓI (Hero, 2002)

50- OS EXCÊNTRICOS TENENBAUMS (The Royal Tenenbaums, 2001)

Sentiu a falta de “Closer”, “O Fabuloso Destino de Amelié Poulain”, “Uma Mente Brilhante” e “Réquiem para um Sonho”? Hmm… eu não. Foram filmes que são, na minha opinião, superestimados. Na MINHA opinião.

Sentiu falta de “Chicago”, “As Horas”, “Moulin Rouge”e “Gladiador”? Também não tornaram-se inesquecíveis.

Gosto de dizer que sou leigo em cinema. Acho que não entendo tudo isso, portanto aqui não está um especialista. Só um fã. E um fã consumidor bem regular de cinema.

Mas listas são para discussão, certo? E a maioria não vai concordar. Depois eu faço sobre assuntos onde eu circulo melhor, tipo música, pornochanchada e futebol. Essas coisas, com mais propriedade. Aqui, é coisa de fã mesmo.

April 24, 2007

COISAS DO NORTE

Filed under: cinema, brasil - Carlos @ 3:09 am

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Hermila Guedes vai ser a maior atriz brasileira nos próximos anos. Depois de assistir a “Cinema, Aspirinas e Urubus” e ainda com o referencial do melhor filme brasileiro da década, “O Céu de Suely”, não tenho mais dúvidas.

E o pior é que ela tem algo que me chama atenção. Acho que é o sorriso. Não é esse sorriso posado de atrizes globais gostosas que saem na Caras e em eventos como o show da Maria Rita no Credicard Hall ou em situações casuais no Leblon. É diferente.

Ela é pernambucana e tem 26 anos. Fez a Elis Regina no especial da Globo no início desse ano. E pelo que li dela, parece ser daquelas pessoas que tu tem vontade de sentar, olhar e tomar uma cerveja.

Só espero que o fato dela estar escalada para a próxima novela das oito não interrompa uma carreira promissora.

Ah, e é legitimamente brasileira. Como a gente vive num meio onde a linha de pensamento é achar o Big Brother uma merda, cultivar uma admiração incrível por qualquer bosta em sotaque britânico, achar qualquer bandinha meia boca a mais foda de todos os tempos e achar mundos e fundos pra sair daqui, levanto a bandeira do meu nacionalismo exacerbado para admirar novos talentos que surgem no MEU (e, acredite, no TEU) país.

Contraria um pouco a tese do post abaixo, onde eu digo que o modelo de mulher brasileira é feio. Mas estou aqui reverenciando o talento dela. E isso, meu amigo, brasileiro tem de sobra.

April 4, 2007

O TEXTO QUE EU QUERIA TER ESCRITO

Filed under: cinema - Carlos @ 5:49 pm

Vou reproduzir abaixo a melhor resenha de um filme que eu já li na internet. Primeiro, porque o filme tratado é absolutamente fenomenal. Segundo, porque eu sou fã de Andréa Ormond, pra mim a maior autoridade em cinema brasileiro da atualidade. E terceiro, porque o texto é espetacular. Fantástico, representa tudo o que penso sobre este filme.

O filme em questão é Giselle. Certamente vocês não vão assistir a esta obra-prima. Cinema brasileiro das antigas não é algo muito saboroso à primeira vista. Sem contar o preconceito, que enche salas de cinema com bobagens água-com-açúcar, filmes de ação patéticos ou maneirismos cinematográficos metidos a filme cabeça. Se alguém quiser assistir, consulte a programação do Canal Brasil, que volta e meia ele aparece no 66.

Mas prepare-se quando for assistir. É preciso estar com todos os órgãos vitais do corpo humano em perfeito estado de saúde. Giselle não é pra qualquer um. Aí vai a transcrição do melhor texto sobre o mais inacreditável filme brasileiro de todos os tempos. E o texto que eu gostaria de ter escrito, admitindo desde já que não teria talento para tal façanha. Boa leitura com Andréa Ormond.

Giselle, por Andrea Ormond

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Se “Cassi Jones” supostamente inaugurou o gênero da pornochanchada no Brasil, pode-se dizer que foi necessária quase uma década até que o estilo alcançasse seu apogeu e criasse a obra máxima. Tal como os russos precisaram de dez séculos de história para ver surgir um Dostoievisky, um Tolstoi – a grande década que a pornochanchada atravessou nos anos 70 culminou em 1980, com o lançamento em centenas de cinemas no Brasil e no mundo de “Giselle”.

“Giselle” é um filme impressionante, em todos os sentidos. Merece um livro para estudá-lo, por suas múltiplas e ricas leituras. Cinema trash, panfleto libertário, carnaval do absurdo. Não há rótulo possível para a obra e quem consegue rotulá-la, é porque não a compreende em sua totalidade. Vou optar pela via mais difícil de entendimento, que é a análise psicanalítica dos personagens. Colocar “Giselle” no divã talvez seja uma alternativa viável para seu tom de Pirandello.

Uma produção da Vidya Produções (mais uma), direção de Victor di Mello, produzido e estrelado por ele, nosso homem nos anos 70, Carlo Mossy. A seleção da trilha sonora inacreditável também é de Mossy, com sucessos dos anos 60 interpretados por uma orquestra que lembra a famigerada “101 Strings”. Co-estrelando Maria Lúcia Dahl, Ricardo Faria, Nildo Parente e Alba Valéria; esta última é a personagem título e leitmotiv da trama.

Giselle é filha de Luchinni (Nildo Parente) e tem Haydeé (Dahl) de madrasta. Quando volta da Europa para o sítio do pai, encontra na madrasta não uma mãe, mas uma amante insaciável. Haydeé é apresentada como uma destas mulheres com TPN (Transtorno de Personalidade Narcísica), que encontra na jovem enteada seu refúgio para uma relação voraz, que amorteça sua frustração por estar envelhecendo. Giselle não se nega a ser o espelho de Haydeé; é uma quase adolescente amoral, que por trás de sua extrema felicidade e ingenuidade esconde um comportamento parasitário e perverso.

Notem que não haveria Giselle sem o pai, Luchinni. É ele que a sustenta, que a mantém em seu mundo hedonista. Haydeé, a esposa, também o parasita, e Luchinni é passivo a tudo porque também esconde um segredo. Enquanto Haydeé e Giselle transam no quarto ao lado, Luchinni trata a todos com bondade, tolerância e aspecto cordato. Antes de Haydeé, no entanto, Giselle também estava envolvida sexualmente com o capataz do sítio, Ângelo (Mossy). Com o planejamento das duas, Ângelo é trazido da “senzala” para dentro da casa grande, e os três formam um daqueles trisais típicos de quem vê a vida com bons olhos.

Ângelo esconde, por trás da sua aparência de capataz fiel, uma personalidade bombástica, pronta a explodir. É bissexual, libertário, ama Giselle e Haydeé como se daquilo dependesse sua vida (e dependia). Quando o filho de Haydeé, Serginho (Ricardo Faria) chega do Rio, o teatro se completa. Ângelo domina a tudo e a todos com sua masculinidade insinuante e decreta aos discípulos embevecidos uma ditadura falocêntrica.

Em suma, Ângelo transa com Serginho, Haydeé e Giselle. Os três o adoram e ele responde esta adoração com proteção. Quando marginais tentam bater em Serginho, uma briga tem início e Ângelo quase morre para defender o amigo. No fim das contas os quatro são estuprados pelos marginais, em uma das cenas mais absurdas e grotescas do cinema mundial.

Por outro lado, Giselle é uma daquelas personalidades que tem o poder de transformar com seus atos a vida das outras pessoas. A madrasta Haydeé é quase sua escrava. Serginho tem uma relação simbiótica com ela, com quem compartilha seus desejos. Ângelo, por sua vez, respeita Giselle como uma igual e os dois transitam por todos os universos, cientes de seu domínio sobre os outros.

O que chama muita atenção no filme, mais do que um enredo tão rocambolesco quanto envolvente, é a pretensão libertária que involuntariamente adquire aos poucos, mesmo que por trás de um alerta conservador nas primeiras cenas (respirem fundo): “Assim como na antiga civilização romana, como em Sodoma e Gomorra, todas as vezes que uma sociedade está em decadência, a principal característica, é a falta de valores morais, a promiscuidade sexual, o desamor, as frustrações, e os desencontros. Os dias que hoje estamos vivendo, não diferem muito daqueles que antecederam a destruição daquelas sociedades”.

Este blábláblá meio “O Homem do Sapato Branco” (lembram disso?) é esquecido ao longo da história, demonstrando a obviedade de que o texto moralista foi plantado ali apenas para agradar aos velhinhos censores. Victor di Mello, Mossy e todos que atuaram, na verdade simpatizavam era com a liberdade sexual e no seu estilo pitoresco, trabalharam em uma ode a ela.

A trilha-sonora repete insistentemente “San Francisco”, o hino hippie da geração flower-power. É necessário que se escreva um “Afinal, quem faz os filmes” brasileiro, parodiando a obra clássica de Peter Bogdanovich, para que entendamos melhor o que se passava pela cabeça dos intrépidos cineastas brasileiros e suas inspirações duvidosas. À primeira vista, fica a pergunta: “San Francisco” durante longas cenas foi uma maneira “sutil” de evocar outra época recente, mais libertária? E por que quando Mossy e Giselle estão em plenos trabalhos na cachoeira, escutamos ao fundo o clássico dos Beatles, “Let it be”?

Acentuando o aspecto libertário, temos além das cenas de bacanal, outras em que o consumo de maconha é farto. Giselle, Ângelo e Serginho em certo momento partem para o fight com Zózimo Bulbul, o negro-fetiche das mulheres e dos homens brasileiros dos anos 70. Bulbul se deixa chicotear pelos três, pede mais, Mossy fumando um baseado entra em êxtase e em seu complexo de onipotência dá uma surra em todos. “Bate machão, bate!” – Serginho pede, e a gente se pergunta por que é a Conspiração Filmes, não a Vidya, quem manda no cinema brasileiro hoje em dia.

O filme termina com a separação, a dissolução daquele arranjo sexual fabuloso. Haydeé, a narcísica, abandona o marido e vira traficante de drogas. Serginho dá vazão ao seu homossexualismo e vira uma vedete carnavalesca. Ângelo e Giselle se entregam à realização plena de suas personalidades, mas Ângelo parece ter apanhado uma doença sexual, em uma cena final duvidosa.

Resta Luchinni, que abandonado por todos e pego em flagrante de pedofilia (sim, até isso conseguiram encaixar, ele lê uma revistinha com o título de “O amiguinho do Rei”), assume sua condição de provedor dos parasitas e sustenta a felicidade (?) de todos. Se me contassem que “Giselle” existe, eu duvidaria. Mas foi filmado no Rio de Janeiro em meados de 1979. E, segundo os responsáveis, vendido para quase trinta países. Há muito mais a ser dito, e tal como uma manchete do Notícias Populares, ninguém perde por esperar.

March 13, 2007

O CÉU DE SUELY - TRILHA SONORA

Filed under: cinema, música - Carlos @ 4:53 pm

Ainda preciso escrever um pouco mais sobre este filme emocionante. Filmes brasileiros especialmente me comovem. Foi assim com “O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias”. No caso, uma identificação esplêndida com uma paixão de criança que supera e pula todas as adversidades: o futebol. O fanatismo pela seleção brasileira em uma Copa do Mundo, as primeiras descobertas, andar de bicicleta, colar figurinha em álbum. A lindeza de uma fase única e inesquecível.

Em “O Céu de Suely”, o que me tocou foi o sonho da menina de 21 anos dividida entre a angústia de criar um filho sem dinheiro e o sonho de ganhar o mundo.

Sobre a trilha sonora do filme, eu escrevo no outro blog.

O CÉU DE SUELY

Filed under: comportamento, cinema, brasil - Carlos @ 5:21 am

É tão bom quando a gente vê um filme genuinamente brasileiro. Ultimamente, ficamos mal acostumados com os chamados blockbusters nacionais, estes filmes patrocinados pela Globo Filmes que deram esta estética um tanto globalizada para o nosso cinema. “O Céu de Suely” nos remete ao “CINEMA NOVO DA RETOMADA”, um rótulo que nos remete ao velho Cinema Novo: a opção por mostrar a brasilidade na tela, longos planos fechados, fotografia estourada, valorização de paisagens, simplicidade nos diálogos e temáticas locais.

Além da alegria em ver este tipo de cinema brasileiro, que particularmente me agrada muito e já foi objeto de estudo acadêmico por mim, é com um grande prazer que eu recebo o cenário colocado no filme. A cidade de Iguatú fica no meio do sertão cearense. Em 2003, na minha tour nordestina, a linha de ônibus que liga Fortaleza a Jericoacoara parou num local chamado Morrinhos, que fica no sertão. A cena é a mesma, idêntica. Crianças na rua, de pés descalços, pequenas casas velhas de alvenaria, com uma calçada minúscula, uma rua estreita de paralelepípedo, uma eterna meia luz nos postes e um calor seco insuportável contrastando com um céu estrelado e límpido. Lindeza pura.

Hermila (Hermila Guedes, a atriz que fez Elis Regina no especial do verão da Globo, por sinal excepcional atriz) é uma jovem de 21 anos com um filho de dois. Depois de um período “fugida” em São Paulo, retorna para Iguatú (CE). Seu marido não volta para revê-la e ali está ela, com o filho, na casa da avó, numa cidade pequena do interior do nordeste.

O espírito de inadequação toma conta da garota, que pretende sair dali a qualquer custo. É quando ela decide rifar o próprio corpo. Comprando um bilhete por 15 reais, o cidadão concorre a uma noite com ela. Tudo para juntar 400 reais e vir para… PORTO ALEGRE (o lugar mais longe possível).

É impossível não traçar um paralelo com o que acontece hoje em dia com a classe média porto alegrense. O realismo empregado no filme assusta e por um momento, aquela guria pobre, que sonha apenas em ir “para o lugar mais longe possível” me leva ao que tantas pessoas do meu meio pretendem fazer. Parece que ninguém quer pertencer ao lugar onde está.

Por um lado, esta ambição jovem é saudável. Mas por outro, eu fico pensando se não é tão bom também criar raízes e obter uma estabilidade.

Eu já critiquei muito essa vontade obsessiva que os porto alegrenses de classe média têm em simplesmente querer sair daqui. Não bato nesta tecla, até porque eu mesmo fui tomado por esta sensação de inadequação. O que me assusta é que cada vez mais o jovem está mais ambicioso e inadaptado. Não sei de quem é a culpa. Mas isso pode gerar daqui a algum tempo uma falta de limites absurda, quando valores como família, amizades estabelecidas e vínculos afetivos podem ir por água abaixo simplesmente porque a gente sempre vai querer mais e mais e mais.

É aquela história: mais vale ficar em Londres ilegal limpando chão do que casar em Porto Alegre e constituir família. Ou mais vale para Hermila (ou Suely) vir pra (opaa, respira) PORTO ALEGRE no escuro, sem nada na mão, trabalhando provavelmente de faxineira ou prostituta, do que permanecer em Iguatú, com sua família, namorar aquele cara que sempre gostou dela e construir um futuro simples, sem luxo, mas com dignidade, amor, amigos verdadeiros.

O céu de Suely era Porto Alegre. O céu do pessoal é a Europa, pelo jeito. O céu é o limite mesmo? Ou você sempre vai querer mais? Aliás, o que é este MAIS que você tanto quer? É a pergunta que fica, tanto para Hermila quanto para quem está lendo isso aqui.

LABIRINTO DO FAUNO

Filed under: cinema - Carlos @ 2:35 am

Confesso um total desleixo com o cinema neste início de ano. Não vi vários filmes dos que concorreram ao Oscar. Entre eles, a indicação geral da nação “O Labirinto do Fauno”.

Algumas pessoas que eu conheço indicaram o filme mexicano como o melhor do ano. E eu entendo as razões. Provavelmente, “O Labirinto do Fauno” seja o filme mais belo que eu já vi. Pelo menos no aspecto visual, nunca vi tamanho encantamento com os planos, cores e imagens colocados na tela.

Além disso, é o filme mais triste que eu vi nos últimos tempos. A sensação de quem vê o filme é de uma melancolia permanente, que só cessa quando tem alguma outra coisa que a interrompa. A mistura de fábula com barbárie, a pureza de quem acredita na fantasia misturada com a crueldade de quem defende um ideal, a falta de sensibilidade de quem cresceu alternando com a imaginação de quem sabe o que está acontecendo, mas tem fé de que possa haver um mundo onde ela era princesa, habitado por fadas, com labirintos e portas que se abrem com giz.

O personagem do fauno, a criatura com dedos nas mãos, os insetos nojentos, um sapo gigante, todas criaturas fantásticas e horripilantes são bem menos monstruosos do que um simples ser humano, que comete as piores atrocidades simplesmente porque acredita. É a contradição da crença. De todas as crenças. A crença do capitão no novo governo e em se tornar à altura do que foi seu pai, dos rebeldes que ainda acham possível a revolução, da mãe que só quer um futuro melhor para os filhos e a crença da menina (ótima atriz), que consegue enxergar uma saída única num maravilhoso mundo de fantasia e ilusão.

Um filme que perturba e que emociona. E, repito, com uma fotografia deslumbrante, uma direção de arte de encher os olhos e efeitos especiais de primeira.

January 4, 2007

RETROSPECTIVA 2006 - ATO FINAL - CINEMA

Filed under: cinema - Carlos @ 11:37 pm

Deixei o cinema por último admitindo uma defecção nesta área. Vi menos filmes do que deveria, principalmente no primeiro semestre, por causa de monografia e outras coisas.
Mas aí vai a minha lista dos 10 melhores filmes PRODUZIDOS em 2006. Nota: não vale filme feito em 2005, apenas os de 2006.

1- Os Infiltrados
Já falaram que é o Scorcese a qualquer custo querendo um Oscar, que ele não estava com a mão cheia. Pouco importa. “Os Infiltrados” é uma aula de cinema, conduzido por um dos cinco maiores diretores vivos. É o filme do ano.

2- Pequena Miss Sunshine
É o filme sentimental de 2006. Nada foi tão singelo e bonito quanto visto nesse filme. Filme com historinha? De redenção familiar? É, tudo isso. E absolutamente perfeito. Elenco afinado, momentos de riso com uma incrível vontade de chorar em certas cenas. Só perde pra Infiltrados sendo racional, porque no íntimo, bate qualquer coisa que eu vi.

3- O Ano em que meus pais saíram de férias
O melhor nacional desde “Cidade de Deus”. A história de um menino deixado por seus pais, que vão combater a ditadura com a guerrilha armada, na época da Copa de 70 traz, com brilhantismo, a dúvida entre a saudade paterna e a paixão pelo futebol. Quando Rivelino fez contra a Tchecoslováquia, admito, saíram lágrimas.

4- Volver
Demorou pra cair a ficha a respeito de Volver. Afinal, eu tenho alguns poréns a respeito de Almodóvar, admito. Mas ver a Penelope Cruz cantar daquele jeito, interpretar daquele jeito me fez repensar tudo e dizer que Volver é quase obra prima.

5- Vôo United 93
Um realismo impressionante com uma direção competentíssima. Vôo 93 é o filme merecedor de todas as honras que obteve. Cinema de verdade, filme de verdade.

6- O Plano Perfeito
Spike Lee fazendo entretenimento com Clive Owen atuando de forma magnífica sem mostrar o rosto. Se tivesse surgido antes de “Um Dia de Cão”, seria clássico. Roteiro impecável.

7- O Albergue
Melhor filme de terror ultraviolento da década. Não preciso dizer mais nada.

8- O Diabo Veste Prada
A melhor comédia do ano. E uma aula de como se faz comédia no cinema. Tá certo, a Meryl Streep contribuiu muito para o sucesso do filme, mas a história é muito boa.

9- Piratas do Caribe 2: o Baú da Morte
É bem pior que o primeiro. Mesmo. Agora, como o primeiro é o filme que mais me divertiu desde “De Volta Para o Futuro”, a continuação não pode ficar fora da lista. E a essência está ali.

10- Miami Vice
Pra compensar a péssima atuação do Colin Farrel, deixa que o melhor diretor de ação em atividade resolve. Michael Mann é o meu preferido há bastante tempo. O que ele faz com as imagens e as seqüências impressiona. Grande remake.

E O MEU OSCAR VAI PARA…
Filme: “Os Infiltrados”
Direção: Martin Scorcese, “Os Infiltrados”
Ator: Leonardo Dicaprio, “Os Infiltrados”
Atriz: Penelope Cruz, “Volver”
Ator coadjuvante: Mark Wahlberg, “Os Infiltrados”
Atriz coadjutante: Abigail Breslin, “Pequena Miss Sunshine”
Roteiro: “Pequena Miss Sunshine”
Filme nacional: “O ano em que nossos pais saíram de férias”

Pior filme do ano: “A Dália Negra”

November 14, 2006

NOTA DE CABEÇALHO (no caso)

Filed under: cinema - Carlos @ 4:15 am

Comentário a respeito de “O Ano em que meus pais saíram de férias”, de um crítico estrangeiro:

Masterpiece, maybe the best Brazilian movie since City of God

Concordo.

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