Verborragia sem concessões

January 28, 2009

A PROFISSÃO DO FUTURO

Filed under: comportamento - Carlos @ 3:09 am

No mundo moderno, conforto é sinônimo de isolamento. O que um carro oferece de comodidade? Ar-condicionado, para que as janelas fiquem fechadas, oferecendo a sensação de que o mundo ao redor do carro é à parte. Não há interação como o vento, a poluição, o barulho das ruas, o flanelinha vendendo amendoim, uma buzida desavisada.

Os melhores sons para os carros são os que vem com mp3. Nada de rádio, de conexão com as paradas, de informação sobre o trânsito. Numa bolha, o ar condicionado e os seus mp3, uma seleção feita por você - só você.

Os melhores celulares são aqueles que te entregam a mágica de resolver tudo sem precisar passar perto de ninguém. O contato é feito por telefone, de longe, sem um aperto de mão, um toque. Só um abraço falado e vamos pro próximo. Isso quando não é um Att escrito.

Se eu fosse indicar alguma profissão para o meu filho, em primeiro lugar seria jogador de futebol. Em segundo lugar, modelo. Isso não morre nunca, o futebol e o culto pela beleza. Em terceiro lugar, psiquiatra. Não tenho mais dúvidas que o psiquiatra, psicanalista, terapeuta ou o raio que o parta de definição com suas vertentes/posologias (sim, é ironia) é a profissão do futuro.

Os psiquiatras vão enriquecer. Nem o Bill Gates terá tão sucesso por causa da tecnologia. Aliás, parece que a Microsoft demitiu umas cabeças. O psiquiatra não vai mais ter agenda.

Culpem a tecnologia. Culpe a internet, cada vez mais rápida, logo logo três ponto zero, culpe os carros com ar condicionado protegidos do mundo real e de tudo que há de ruim e bom nele, culpe os celulares iphones com mil e uma funções, culpe o GPS, que vai terminar com o singelo ato de perguntar para um nativo uma localização.

Tanto isolamento é fruto de comodismo, de consumo e de medo. A interação social é cada vez mais complicada. É menos gentil, mais afobada. Mais ríspida, mais perene. Não há mais espaço para melhores amigos, a não ser que seja pelo msn.

Por isso que os psiquiatras vão enriquecer. Vão precisar deles quando estourar. Se bem que, do jeito que as coisas se desenvolvem, já vão inventar terapia por webcam.

September 10, 2008

CUSPINDO NA CERTA

Filed under: comportamento - Carlos @ 3:47 am

Eu ando escrevendo pouco porque meus textos estão uma merda. É sério. Já escrevi muita coisa boa, mas hoje eles não fazem nem cosquinha naquilo que eu colocava, aqui mesmo no blog.

Meu sarcasmo anda contido, e era meu forte. Minha adjetivação exagerada anda pequenina. Meus superlativos estão ponderados. Prefiro a esquiva à minha cara a tapa.

É o preço da maturidade, sem dúvidas. Mas eu acho que o que anda bloqueando a minha impetuosidade de outros tempos é o fato de eu entrar numa época em que cada vez mais é necessário minimizar os erros.

Quando a gente tem vinte e BEM poucos, dá pra errar que tem um backup, que tem uma segunda, uma terceira chance. A permissão para errar vai se esvaindo conforme o nosso crescimento. Agora, a gente só vai na certa. Na boa. Sem cair de cabeça em qualquer coisa que a gente possa duvidar. O preço pelo erro pode ser irreversível.

Confesso que aprendi muito com alguns pequenos e magistrais golpes que andei tomando por aí. A velha história da confiança é a mais pura verdade. Confiar é um ato de prova contínua. Quando há uma ruptura nisso, não tem mais volta. E é uma recíproca constante, eu certamente devo ter desapontado alguém.

É esse medo de errar que faz com que eu “trate melhor as pessoas”, por incrível que pareça. Brigar tem seu preço. Aliás, absolutamente tudo tem seu preço. Então, vamos fazer que nem os velhos fazem. Tratar com a chamada educação moderada todo mundo, ser gentil sem entrar na casa da pessoa. É mais fácil e mais superficial.

Acho que é por isso que meus textos andam sem graça. Tem tanta coisa importante pra se irritar, como o trânsito, as contas e o cansaço, que a gente perde a vontade de usar o sarcasmo como arma. É melhor usar a responsabilidade. Lá se vai um encanto, mas alguém venceu na vida sem os pés no chão?

É, os textos não são os melhores. Foi-se o tempo que a metralhadora verbal disparava contra todo mundo. Pra não ser pego, deixa ela atirar num alvo certeiro.

August 29, 2008

GAUDÉRIOS

Filed under: comportamento, música - Carlos @ 3:01 am

Não sou tradicionalista pelo fato de que nasci, cresci e esculpi minha personalidade sob o céu cinzento da Assis Brasil e o máximo de gauchês que eu sentia era o cheiro de churrasco no domingo, o ônibus SARANDI-GAÚCHO e o rastro de bosta de cavalo deixado pelas carroças que cortavam a imponente avenida mais feia de Porto Alegre rumo aos pólos periféricos da GPA (principalmente Cachoeirinha, Gravataí e Alvorada).

Meu crescimento foi eminentemente urbano. Cercado de videogame, futebol na rua, movimento intenso de veículos e poluição. Nada campestre, nada gauchesco. Por isso, não tenho a ousadia de colocar aqui minhas opiniões a respeito de um movimento que eu tenho pouco conhecimento.

Entretanto, admiro o tradicionalismo e acho de extrema necessidade. A valorização das conquistas, dos hábitos e das tradições é sinal de reverência àqueles que construíram, seja do jeito que for, uma identidade específica para sua terra. E nisso, o Rio Grande do Sul é exemplo no país. Junto, talvez, com as tradições baianas e pernambucanas, com a fanfarronice carioca, que é uma delícia, e com as raízes sertanejas dos pantaneiros.

Depois que eu percebi que a música era mais do que três notas e que havia alguma coisa além das guitarras, me enfiei num pequeno guia para principiantes da música gaudéria. Para o meu espanto, me deparei com uma música riquíssima. Com influências diretas das mais belíssimas canções latinas, com letras espetaculares, há muita coisa boa a ser conferida na música gauchesca.

Claro que tem gente que fode tudo. Para deixar as coisas mais “ACESSÍVEIS”, um bando de gente que não sabe de nada misturou as coisas, botando até teclado de churrascaria e chamando num arrasta-pé forrozeiro mezzo brega que dá uma certa vergonha. Mas se formos no âmago, vale a pena descobrir mestres como Teixeirinha, Gildo de Freitas, Leonardo, Luiz Marenco, Mário Barbará e José Cláudio Machado. Gente que tem a manha, que lembram bardos, trovadores e blueseiros da melhor estirpe. Coisa fina.

Juro que dá vontade de pegar o carro e varar este Rio Grande. Até deu vontade de tomar chimarrão. Deve ser coisa do inverno, só pode.

August 17, 2008

O SURTO QUE IRRITA

Filed under: comportamento - Carlos @ 4:03 am

A internet me irrita. Me irrita profundamnte. É um monte de gente que simplesmente decidiu poupar a capacidade de raciocínio para se enfiar na frente de um computador pra fazer não sei o quê.

Eu gostava da internet no início. Hoje, eu só uso por pura necessidade. Na verdade, a internet tem basicamente duas funções, primordiais para o ser humano: masturbação e flerte. Sendo que a masturbação vem em primeiro lugar disparado.

A punheta cibernética se dá das mais diversas formas. Talvez a mais corriqueira seja a punheta habitual. É estudo, os sites mais pesquisados no mundo são os sites de putaria. Putaria visual via internet é a glória para qualquer pervertido - ou curioso. É confortável, de certo modo segura (bem mais segura do que qualquer trepadinha de final e semana), relativamente barata e extremamente imaginativa. Qualquer fetiche que deixaria um cidadão com a consciência pesada feito um touro é realizado com dois cliques, num exercício de possibilidades que num mundo real ele jamais acharia (afinal, é difícil um pervertido se revelar).

As outras formas de masturbação virtual são mais doentias e bem menos prazerosas. Principalmente quando alguns se revelam viciados no bagulho. É doença, não é legal, sabe. Aliás, qualquer manifestação de orgulho às avessas me irrita.

E não é que dia desses descobri que tem gente que SURTA (sim, o termo é esse, SURTA) quando fica offline. É, quando dá alguma pane, quando falta luz, quando, sei lá, a tia quer usar o computador, a pessoa SURTA (o termo é esse).

Hmm, deixa eu ver por aqui… Uma colega da minha mãe descobriu que a filha está com leucemia. Um amigo meu foi demitido e recém estava para se casar, sendo que agora vai ter que esperar, pois falta dinheiro. Colegas meus trabalham 15 horas por dia para poder chegar a uma grana legal no final do mês. Cada vez menos nossos amigos têm avós e cada vez mais nossos amigos são pais. Os impostos aumentam. Uma empresa tem uma carga tributária enorme, e isso conta quando é uma micro-empresa, que só quer prestar seviços. Ou melhor, só quer manter uma forma para receber a grana. Esse tempo tá uma merda. Esse trânsito tá uma merda. Essa gente tá uma merda.

Mas eu não vi ninguém surtando. Agora, esse bando de nerd e feio, que passa o tempo todo na internet pra suprir a frustração de uma vida pessoal absolutamente medícore, que possuem uma incapacidade de ter qualquer tipo de carisma nas relações sociais, que não conseguem encarar de frente uma vida real. É, mas eles surtam quando ficam offline. SURTAM.

Eu surto, mas não por isso. E quando eu surto, eu também não fujo, não vou para fora do país. Quando eu surto, eu volto depois, percebendo que o termo SURTAR deve ser preservado para ser utilizado num momento bem mais “surtável”. E quando há algum “surto”, depois eu me dou conta que é ridículo. Que é uma merda, as contas, a carga horária, as dores, a falta de grana, o mau humor. Mas que tudo isso passa, que tem uns colos tão bons pra gente deitar a cabeça e acalmar, por mais que fiquem magoados com a gente. Que gostar, amar, ser feliz, compensa estes eventuais surtos ridículos que acontecem.

Agora, se for pra surtar, que seja por algo que mereça. Por ficar offline? Difícil entender. A não ser que esse pessoal seja pervertido virtual. Aí até vale. Se bem que é compreensível né… deve ser difícil pra essa gente comer alguém na vida real.

July 28, 2008

DE VOLTA AOS 80

Filed under: comportamento, brasil - Carlos @ 4:02 am

Os anos 80 foram a década da ressaca. Com a Guerra Fria em decadência, com a paz e o amor fora de moda, com a sexualidade em geral banalizada, veio a porrada na mente daqueles que mudaram o mundo. Tudo tem seu preço. A década de 80 tratou de afundar de vez qualquer idéia de mudança. Aquele garoto que queria mudar o mundo passou a assistir a tudo em cima do muro. E a culpa não foi dele. Ao invés do descompromisso, do amor entre os seres, o mundo entrou em um individualismo doentio, a necessidade de consumir, consumir tudo, da explosão dos eletrodomésticos, à disseminação da televisão em doses perigosas, do ímpeto americanóide da Wall Street, das doses largas de uísque e cocaína executivos, do orgulho em afrouxar a gravata no final do dia sabendo que fez tudo pela carreira e nada pela vida. Década desgraçada, em tudo. As pessoas eram mais feias, a moda era patética, a música foi uma merda, as relações se deterioraram. Tudo o que eles lutavam contra a ditadura chegava numa esfera piorada.

No Brasil, por exemplo, essa ressaca foi evidente. Começou ainda com o resquício da putaria da disco, infernizada pela popularidade das boates, do pó e da Dancing Days. Ensaiou uma esperança morta, com as Diretas (que foi a maior derrota política nacional), com a ousadia das telenovelas e com a eleição de Tancredo Neves. Há de se ter um mártir, não? Tancredo morre, o país vai à falência, se fazem planos econômicos e se elege um santo milagroso que é a cara dos anos 80: Collor.

Eu só não apago esta década porque considero que ela exerce o mesmo fascínio dos anos 60. Há toda uma riqueza de desgraças que encanta e assusta. Assusta porque eu não quero voltar aos anos 80. E temo que isso, em breve, possa acontecer. E o pior: com uma revolução em nome do nada. Há um paralelo estranho entre os tempos que vivemos e os anos 80. O individualismo se manifesta nas horas exageradas que, virtualmente, compramos, desejamos, nos comunicamos, nos informamos. Um “free love” se estabelece numa nítida relação de liberade excessiva com que os jovens crescem hoje. O esclarecimento nos permitiu diminuir as fronteiras entre os tabus. Há um “ninguém é de ninguém” que é uma tentação para qualquer pessoa em formação. Há também uma facilidade nas pessoas acharem que são muito mais do que elas realmente são.

Se há alguns anos isso era necessário para quebrar uma caretice, hoje mais parece uma simples banalização. O importante é se divertir, custe o que custar.

Sou favorável ao equilíbrio. “Disciplina é liberdade”, dizia o cara lá nos anos 80. Vinte anos depois, onde está a tal disciplina? Acho que voltamos a viver como há vinte anos atrás.

April 11, 2008

OS RATOS

Filed under: comportamento - Carlos @ 5:32 am

Quando eu era pequeno, nunca funcionou. Mas eu gostava dos desenhos do papa-léguas com o coiote e aquelas armadilhas fantásticas da ACME, coisas mirabolantes que eu sempre tentei fazer em casa mas nunca deu certo. A mais clássica, utilizada em vários desenhos, e sem tanta engenhoca assim, é aquela em que a gente coloca uma caixa de sapatos, numa posição de 45 graus, sustentada por um pedaço de pau, amarrado a uma corda. Embaixo da caixa, um pedaço de queijo para atiçar o rato. O bicho vai atrás do perfumado pedaço de queijo suíço. Quando ele está sobre a caixa, puxamos a corda e ele fica preso. Uma isca. Uma artimanha feita para pegar o rato no seu deslize, na sua falha. No seu ponto fraco.

As grandes armadilhas são aquelas onde a gente pega o rato nos pequenos detalhes. Tu tá o primeiro passo, quase um ato falho, mas proposital. Uma leve entregada, mas consciente, racional. É aí que o rato cai.

Com o passar do tempo, passei a utilizar esta artimanha na vida real. Como saber se o rato cai ou não na tua pista falsa? Imagine o rato como se fosse um grande círculo, um bolo redondo, fatiado em diferentes pedaços. Se você quer saber como pegar o rato, jamais entregue a ele a fatia recheada, o melhor pedaço, o mais gordo e saboroso. Num pequeno ato de distração, deixe aquele pedacinho mais humilde, aquele que você acha que ele nunca vai querer. É ali que o rato vai. Ele vai fustigar o bolo, mas jamais vai querer os melhores pedaços. Ratos não vão na boa. Ratos não têm olho gordo. Ratos querem te enganar e como enganar colocando o carro na frente dos bois? Então, o pedaço da sobra, aquele que ninguém quer, pode ter certeza que vai ser a melhor refeição para um rato.

É assim nas relações pessoais. Ainda dentro da minha crise de confiança, ando pegando uns ratos por aí bem nessa manha. Um pequeno passo em falso meu, proposital, é o suficiente para o rato achar que está tudo bem. E aí, eu entrego de bandeja o meu deslize, para que ele se delicie em cima da minha suposta distração. Pronto. Peguei o rato.

Se por um lado este exercício de paciência é necessário para diferenciar ratos de homens, por outro lado não consigo simplesmente rotular um rato sem que ele sofra na armadilha que ele caiu. Sou impaciente quanto a traições. Vem da minha dificuldade extrema em perdoar. Não perdôo mais.

É simples. Eu pedi um 2008 leve, de tolerar mais, de ser mais paciente, de ser mais tranqüilo. Acabei como o rato nessa história. Fui levemente induzido a acreditar que eu poderia violentar anos de impaciência, de incoerência e de intensidade em troca de uma calmaria que eu teimo em precisar. Fiquei calmo, abri as pregas e 2008 entrou como um foguete no meu rabo, justamente no meu deslize. Na minha apatia. Entrei na caixa de sapatos, mas não morri. Como seqüelas, a desconfiança. E se eu fui o rato, hoje é dia de caçar ratos. Eles estão aí. Muitos nem sabem, mas já caíram na minha armadilha. Como ratos se proliferam facilmente, o que eu ando fazendo com eles é o trivial: pego pelo rabo e jogo na lata de lixo. O problema é que eles cagam e andam. Ratos, geralmente, adoram uma lata de lixo.

É paranóia, talvez. Mas sempre quando eu fui frouxo, leve, solto, alguma merda aconteceu comigo. É meu ponto fraco. A raiva é um dom, lembra? Ser inquieto é meu escudo. O desapego é o meu calcanhar de aquiles. Gostam de dizer que tudo na vida é uma questão de manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranqüilo. O meu combustível é a mente fervilhando, a espinha torta de tanta tensão e o coração pulsando o tempo todo. E o pau duríssimo. Como diria Humberto Gessinger, é preciso fé cega e pé atrás. Sempre de olho.

Ah, a propósito: este post também é uma isca.

April 4, 2008

SEDE NÃO É NADA. IMAGEM É TUDO.

Filed under: comportamento - Carlos @ 3:50 am

O que a gente faz quando não há NADA MAIS a fazer? Faz um blog.
E o que a gente escreve quando não há NADA MAIS pra escrever? Insiste.
E pra que a gente publica quando NINGUÉM MAIS lê? Não sei a resposta.

Eu não conheço as pessoas que comentam no meu blog, por incrível que pareça. As que mais comentam, eu nunca vi. Falo com elas por msn e tal, são legais, eu tento ser gentil, dou uma dica musical volta e meia, bato um papo esperto, outros toques sobre vida pessoal, faço questão de atualizá-las a respeito da minha vida, enfim, sou bacana. Adoto esta política de boa vizinhança com quem me prestigia. No blog do futebol, por exemplo, resolvi aceitar a maioria dos comentários. Até os que me xingam. Só deletei aqueles que me ameaçam com um pouco mais de força. É uma característica minha.

No entanto, as pessoas que me conhecem não estão lá muito interessadas em saber como eu estou. Ou pior, não estão interessadas em saber o que eu penso, nas minhas idéias, nos meus pontos de vista.

Confesso que ando com uma grave crise de confiança. Depois que eu fui DEMITIDO eu passei a ficar espiado com todo mundo. Justamente porque eu sou legal. É, legal. Eu nunca fui chamado de mau caráter, nunca tive dívidas, eu devolvo o que me emprestam, eu tento, dentro do possível, ajudar todo mundo que pede alguma coisa. E por isso, as pessoas acabam se preocupando e querendo saber como eu estou. Mas ultimamente nem isso tem acontecido.

No episódio DEMISSÃO, me decepcionei com várias pessoas. Quando tá tudo legal, eu faço uma graça do caralho quando tenho umas quatro cevas na moringa. Quando tem uma festinha, a galera se diverte à beça quando eu começo a ficar mamado. E eu nunca tinha caído. Eu caí e a reação de MUITAS pessoas que eu conheço foi simplesmente a chamada FORÇA MORAL PARA ACARICIAR A CONSCIÊNCIA. Do tipo, se eu disser pra ele que “VAI EM FRENTE, TU É BOM PRA CARALHO” já vai ter sido um incentivo à altura pra eu dormir bem sem “perder um amigo”. É mais ou menos como dar parabéns no aniversário, uma forma branda de boa educação sem muito esforço. E eu deixo bem claro que algumas pessoas me ajudaram nisso tudo. Umas que eu nem esperava. Pra não generalizar, claro.

As pessoas que eu conheço não lêem o meu blog. Ninguém está muito interessado em saber o que eu penso. Mas acho que é um reflexo da vida adulta contemporânea. A nossa geração cresceu num hiato de idéias, de identidade, de valores, num vazio de tanta coisa que simplesmente não se interessa. Somos a geração do desinteresse.

Quer um exemplo? Se houvesse mobilização e engajamento, com tudo que o presidente Lula fez, ele poderia ter saído do poder. Como uma geração acima da minha fez com Collor. Mas até eu virei alienado. Vide o post abaixo. Estou desacreditado e desinteressado com a política. E com qualquer tipo de prestação de solidariedade global, pra ser bem sincero. Um dia coloco pra vocês minha posição sobre as ONGs.

Mas ó, não se choquem não. Vocês também são alienados. Hoje em dia, não precisa ser informado pra se sentir informado. Basta ler as manchetes. Sem aprofundamento. E quem é informado, na maioria das vezes é pra aparecer que é informado. Mais ou menos quando volta e meia algum babaca entra aqui dizendo que meus textos são sem fundamento/embasamento/informação. Pura imagem. É como o cidadão que nunca viu um filme do Godard mas usa um óculos com armação grossa dentro do Guion e todo mundo acha que ele entende de cinema francês. Ou como aquela mina que trai o marido, conta com orgulho pras amigas, mas lava sua alma rezando ao acordar e antes de dormir. A IMAGEM é o que fica. Como descartar alguém pela postura da pessoa, pelo jeito com que ela reage às coisas, nunca pelo conteúdo e importância dela no contexto. Foi assim, não? Faltou postura, faltou imagem. Foda-se o conteúdo.

É por isso que ninguém que me conhece bem lê meu blog. Porque ninguém está interessado em saber o que eu penso. Talvez sobre futebol e um pouco sobre música. Mas minhas idéias, estas não valem rigorosamente nada. Tudo bem, eu sei que eu sou uma boa companhia pra tomar uma cerveja ou que eu divirto a galera quando lembro a escalação do time do Atlético Mineiro de 1977. Esta é a minha imagem. E imagem é tudo. Conteúdo? Melhor deixar só uma manchete porque ninguém tem tempo pra se aprofundar. Ou se interessar.

March 24, 2008

JUSTIFICANDO A AUSÊNCIA

Filed under: comportamento - Carlos @ 5:07 am

Trabalho. Única razão que justifica a minha ausência de posts.

Pra quem não sabe, comecei um blog no final sports sobre futebol. A nova casa me acolheu de uma forma impressionante. Ambiente de trabalho, oportunidades, horários melhores e finalmente uma condição que me agrada: a de poder produzir com motivação e ser recompensado e reconhecido por isso, coisa que não estava acontecendo. Há males que vêm para o bem. Estou realmente feliz com tudo que vem acontecendo na minha vida. Acho que me libertaram de um moedor de carne. E junto com isso, várias novidades incríveis. Trabalho e felicidade. Juntos.

Em breve, voltaremos com as atividades. Na pauta, CLJ e encontros de igreja na juventude, Amy Winehouse e um texto sobre a VAIDADE HUMANA. Mas espera eu me ajeitar aqui antes.

PS: Quem de Três Passos me procurou no google pelo meu nome COMPLETO? Não conheço ninguém de Três Passos. Eu nem sei onde fica Três Passos.

March 10, 2008

DERIVADOS E PRIMITIVOS

Filed under: comportamento, música - Carlos @ 4:59 am

Sou partidário da teoria de que se virou mania, se caiu no gosto popular, geralmente é porque é bom. Depois, quando banaliza, o mercado geralmente escraviza o modismo, tornando o que é bom produto de massa. Aí vira produção em série, um saco. É onde reside o grande problema.

O filme “Closer - Perto Demais” é um exemplo clássico dessa regra. Extremamente bem feito, com ótimo roteiro e interpretações brilhantes, virou o filme de cabeceira da minha geração ali por 2005. Aí todo mundo pagou o maior pau pro Damien Rice e sua “Blower’s Daughter”. Ótima música. Versões terríveis. Mas de indies de boutique a patricinhas sem muito critério, passando por pagodeiros e surfistas, todos gostaram. A moda causada por um filme, mas que impede certamente essas pessoas pesquisarem mais sobre o cara e perceber que as influências dele, quase em sua totalidade, são de artistas que eles nunca ouviram falar. Mas a moda era gostar de Damien Rice. Ou desta música, somente. Até a SIMONE gostou. Gostou tanto que gravou. E o Seu Jorge, aquele da “Burguesinha”, o cara do suíngue maneiro, se juntou à Ana Carolina e tacou uma versão. O Seu Jorge é fera, mas o negócio dele é samba-rock. Não uma música como “Blower’s Daughter”. Seria como ele gravar “High and Dry” do Radiohead, em versão suingada.

Aposto um real como a próxima música-moda-fetiche será “Falling Slowly”, de uma banda irlandesa chamada The Frames, interpetada e escrita por Glen Hansard e Marketa Irglova. Esta canção ganhou o Oscar há duas semanas e me chamou atenção. É absolutamente fantástica. Belíssima. Obra. O filme é “Once” e será o filme-moda-fetiche dos indies assim que estrear no Brasil. Se passa na Irlanda e aí foge da característica blockbuster-popcorn-americana que os indies tanto odeiam. Ponto pro filme. Duvido que gostariam tanto de “Closer” se fosse em MIAMI por exemplo. Miami não vai ser moda tão cedo.

Espero que não façam versões dessa música, que nenhum DJ desses faça um remix esperto e que ninguém se identifique com a narrativa e harmonia belíssima dos vocais e cordas da música. Mas acho que isso vai acabar acontecendo. É muito boa, ganhou Oscar e o filme deve ser bacana. Uma love story com musiquinha esperta se passando na Irlanda? É, vai ACONTECER, definitivamente. Vai acontecer porque é bom, como Closer. E porque a música é melhor ainda. E sendo bem sincero, olha, melhor do que muita coisa que eu ouvi nesta década.

Escrevi no outro blog sobre o tecnobrega. O conceito tecnobrega e forró brega é excepcional. Criativo, brasileiro, genuíno. Está virando moda. Quando chegar aqui em Porto Alegre, a CAPITAL MUNDIAL DO SAMBA-ROCK, a cidade com uma rua dedicada a um único estilo, vai estourar. Na primeira metade da década, festinhas de forró universitário bombavam. O tecnobrega e o forróbrega vai arrebentar, tenho certeza. Vai massificar. Vai invadir uma cidade completamente desacostumada com esse tipo de coisa, uma cidade que não cria muita coisa em termos musicais (excetuando o rock gaúcho anos 80), que mais copia e deseja intensamente em ser a República dos Excluídos e com Complexo de Inferioridade, apoiando-se na suposta qualidade de vida superior e no suposto “frio europeu”, mesmo que no verão a cidade seja uma versão parecida do inferno. Vai foder com toda a proposta do movimento tecnobrega, a pirataria, os ídolos, as caravanas.

A grande banda de 2008 no Brasil será Aviões do Forró. Fizeram uma versão de “Umbrella”, da Rihanna, que dói o esôfago de tão ruim, tão picareta e tão genial. Tem uma nova chamada “Chupa que é de uva” que é um primor. Vai tomar o lugar das bagaceirices saudáveis dos anos 90, por exemplo, como Tiririca e É o Tchan. O Brasil precisa disso. Desse lado suburbano que o Chacrinha ensinou a fazer e que depois de sua morte houve uma lacuna que foi preenchida por estes vigários musicais do bem.

O problema é que para cada gênio que bola um Tchan e um Aviões do Forró vem vinte mil palhaços com derivados que só se sustentam em quem criou a idéia. Ou alguém para “aparar as arestas da vagabundagem”, lapidar uma espécie de contracultura do contrabandismo musical, pasteurizar e faturar dinheiro. E aí todo mundo cai nessa história.

Como todo mundo caiu com a “Blower’s Daughter”. Todo mundo adorou, mas ao invés de conhecer Elliot Smith, PJ Harvey e Radiohead, pra não dizer o trabalho completo do Damien Rice, preferiu ficar só com “A MÚSICA DO FILME”. E todo mundo vai cair com o oscarizado cara do The Frames, com essa música espetacular. E ao invés de saber sobre a banda e seus contemporâneos, vai se dar por satisfeito em ter essa música como a canção da cabeceira e se converter ao modismo.

É o problema da moda. Quando vira DA MASSA, ninguém mais se preocupa em saber as origens, as influências, como surgiu, porque aconteceu. Só bate e vai. Aliás, alguém sabe da origem dos emos, pra falar em MODA ATUAL? Ou quando existia o grunge, alguém citava Mother Love Bone? Mais ou menos como o guri gostar de NX Zero e não conhecer Ramones. Ou ouvir Ramones e não gostar. Ora, NX Zero não existiria não fossem os Ramones. Não fosse uma transformação de ritmos, estilos e tendências que têm sua origem lá nos anos 70, com o punk rock. Só querem saber dos derivados. Mas não vão atrás dos primitivos.

March 4, 2008

FELIZ ANO NOVO

Filed under: comportamento, jornalismo, alegria - Carlos @ 4:01 am

Prometi posts pra um monte de gente, mas por enquanto tá difícil de criar. Tanta novidade, tanta mudança e eu, ajeitando coisas daqui e dali, vislumbrando o melhor futuro possível.

Minha vida muda num ciclo de cinco em cinco anos. E os outros anos foram 1993, 1998 e 2003. Chegou 2008 e ela virou de cabeça pra baixo e vai virar mais ainda.

Feliz pra burro com a vida pessoal. Feliz pra burro com a nova vida profissional. Depois do coice, a queda. Depois da queda, a vontade. Depois da vontade, garra. E recompensa. E felicidade.

A vida segue e com rumos, projetos e perspectivas diferentes. Eu não prometi nada pra 2008. E nem tinha muita perspectiva, falando a verdade. As circunstâncias me ofereceram as perspectivas, os objetivos. Os desafios, as novidades. Pra isso, deve haver uma ruptura, por pior que ela seja.

Feliz ano novo, 2008. Começou hoje, dia 03 de março. Sempre começam em março os anos, é a verdade. Antes, é só uma prévia, um gostinho, um avant premiere. Agora, é pra valer.

Prometo posts mais criativos depois que passar esse momento de transição. Pelo menos a escrita se mantém. O meu ciclo de cinco em cinco anos não falha. E em 2008, até chegou cedo demais.

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