Verborragia sem concessões

February 12, 2008

O DIA EM QUE O GÊNIO CAIU

Um dos meus jogos preferidos de computador é o grande CHAMPIONSHIP MANAGER. Gosto da versão da temporada 2003/2004, antes que houvesse uma briga na corporação que desmembrou a franquia em CM e FOOTBALL MANAGER.

Neste jogo, você acumula as funções de técnico, vice de futebol e presidente de qualquer clube do mundo. Desde o RS Futebol até o Real Madrid. Começa com um certo dinheiro em caixa, recebe mais grana da bilheteria dos jogos, bônus com títulos, além do grande barato: poder dispensar, contratar e promover jogadores. Mexendo os pauzinhos no simulador, você pode, daqui a pouco, promover um garoto de 16 anos sem muita certeza de que ele será um craque. Ou dispensar um veterano de 36 anos, porque não está “rendendo mais”.

O poder virtual de ser o presidente de um clube de futebol, que nada mais é hoje em dia, do que uma grande empresa, mexe com o cara, que acaba se viciando nisso. Você faz o papel dos chamados MANAGERS. Lembro que ali por 2004 eu jogava todas as tardes esse jogo, por uns dois meses, até que meu time conquistasse o título mundial. E óbvio, contratando MUITOS jogadores e DIPENSANDO vários. Prazer danado esse. Coisa boa ter PODER, o sonho do ser humano. MANDAR. Melhor ainda quando se mexe com vidas. Decidir os planos, o futuro, agregar novidades, comprar, vender, descartar. Pessoas. No videogame eu gostava, um monte de gente gosta.

Os managers odeiam os gênios. Causam problemas demais. A obsessão dos managers é pela perfeição de suas próprias idéias aplicadas. Dispensar, contratar, trocar de posição, botar no banco, escalar. E depois o técnico dedica a vitória aos seus jogadores de função tática. Afinal, foi sua organização que venceu, com os seus aplicados comandados fazendo exatamente o que ele pediu. Os chamados cumpridores de função tática são aqueles que não comprometem, os que fazem direitinho suas funções sem reclamar, sem cometer atos de indisciplina, fazendo um feijão com arroz bem feitinho, com a receita do chefe e nenhuma pitadinha de sal a mais do que diz na receita. Enquanto isso, o “gênio” entrou na lista de dispensados, sai do clube e vai jogar em outro lugar. Mesmo que durante sete anos ele tenha resolvido as coisas dentro de campo.

Gênio é o considerado extra-classe. Aquele que acredita que alguma coisa não usual faz a diferença. Uma novidade, um momento de criatividade. Um pouco de filé pra juntar ao arroz com feijão. O problema é que os “gênios”, os “diferenciados” são complicados. Eles não seguem um padrão pré-estabelecido de conduta porque simplesmente acreditam que a sua própria conduta é a mais efetiva. E no final das contas, aqueles que indicam este padrão só querem enquadrar o cara. Entrar na linha. Mesmo sabendo que dentro de campo ele resolve, ele mete gol, ele faz a alegria da galera.

Com relação aos “gênios”, a gente nunca sabe o que pode acontecer. Em dia de inspiração, ele sozinho vale por todo um time. Em dia de repé, briga com todo o grupo e não desempenha bem seu papel em campo. Mas quando exigido, resolve. Em grandes momentos, cresce. Joga fora de posição. Joga em TODAS as posições. Joga BEM em todas as posições. Nunca quis ser um burocrata. Sempre amou o clube e já atuou machucado, só por amor à camiseta. Mas ele é rebelde, ele não assume, ele nunca se compromete. E ele não manda.

Os que mandam são os managers. Eles têm o poder e a curtição é mexer no time, trazendo cara nova, dispensando outros e regendo as leis internas a seu bel prazer. Enquadrando todo mundo e depois se olhando no espelho numa masturbação para as próprias decisões. Os managers contratam os fiéis escudeiros, que jamais vão contrariar uma decisão sequer. Cumprem direitinho a função e voltam pra casa ou continuam na empresa, produzindo mais e melhor e mais barato. Custo-benefício atendido. Mais grana no cofre do clube e no bolso do manager.

Os managers mandam com um falso ar democrático. Na verdade, democracia só serve para quem está no poder. No fundo, bem no fundinho, se trabalha ainda com o modelo da ditadura militar. Nomenclaturas, cargos, hierarquias, disciplina, enquadramento. Esconder a podridão e jogar versões oficiais como se fossem as definitivas. Os subversivos, os talentosos, os extra-classe, estes estarão sempre à mercê de uma porrada. O modelo militar é o ideal! Ordem e progresso. Ame-o ou deixe-o. Ou eles te deixarão.

Cansei de jogar o Championship Manager. Uma vez eu dispensei um cara do meu time e ele desandou a marcar gol pelo adversário. Me arrependi tanto que desisti do jogo. Ele era do time dos “gênios”. Ele nunca cumpriu bem a função tática. Tá na seleção brasileira.

October 28, 2007

FUTEBOL. SÓ ISSO, FUTEBOL.

Filed under: futebol - Carlos @ 12:53 am

Dei uma volta na quadra hoje. Foi minha única saída desde quarta-feira, quando descobri estar com rubéola. Uma semana em casa, mas não agüentei. Foi só uma volta, num sábado à tarde, que eu nunca tenho livre. É impressionante a atmosfera de um sábado à tarde, mas provavelmente ninguém dá o valor necessário. Só quando eles não fazem mais parte da tua rotina.

Na rua de trás, uns piás batiam uma bola, ali na calçada. Observei um pouco e fiquei com aquela inveja de ter 12 anos pra poder fazer o que realmente a gente tem vontade. Jogar bola na calçada, no meio da rua, sem compromisso. Suar muito, correr, rir. Um era o Pato, o outro era o Tuta (?). Um encarava o outro, driblava, um guri fazia falta. Tinha um goleiro. Era o velho esquema um contra um, quem fizer gol entra. Ou quem fizer três, o outro vai pro gol. Não era “três dentro-três fora”. Juro que eu queria espantar a rubéola pro alto, pegar a bola e sair limpando a piazada, já chamar um velho pra fazer as vezes de zagueiro, botar um suador no corpo e brincar que eu era, sei lá, o EDMUNDO (SESSÃO FLASHBACK: minha maior atuação como jogador foi numa partida em Curitiba, futebol de campo, eu usava por baixo a camisa número 7 do Palmeiras/Parmalat, utilizada por Edmundo na época. Meu, joguei muito naquele dia, incorporei o animal, numa posição que nem era a minha, a de segundo atacante. Vale lembrar que no campo, eu atuava como lateral-direito: forte no apoio porém FRAQUÍSSIMO NA MARCAÇÃO)

Futebol é mais do que uma questão de vida ou morte, uma vez alguém escreveu. Eu concordo. A atitude de um homem em campo é que define o caráter dele. E a atitude de um homem ao se apaixonar por uma partida de futebol também diz muito. Quando comecei a trabalhar NO MEIO, passei a encarar a “paixão” de uma maneira “profissional”. O futebol virou trabalho. Quando estou de férias (ou enjaulado) tudo se transforma. Zapeei rapidamente e até consegui assistir a um pouco de MOGI MIRIM x MARÍLIA, na Rede Vida, pela Copa FPF. Jogo de bosta, mas era uma partida de futebol, com todas as alternativas e até um desejo de quem sabe estar no Estádio Papa João Paulo II em Mogi-Mirim. Coisa de quem não é muito certo. Ou coisa de quem é apaixonado por isso.

O fato é que depois de tudo isso, eu volto à minha infância. Aos jogos sexta-feira no recreio da Escola do Salvador, no ginásio de cimento, quinze minutos peleados que a gente torcia para que fossem vinte ou trinta. Ou aquelas manhãs ali na COHAB, que nem era na COHAB, um campo de terra violento onde a gente jogava apenas pra se divertir. Ou a tarde num estádio, torcendo, bebendo cerveja e passando o domingo todo envolvido em ir num jogo. Eram dois ônibus pra ir e dois pra voltar na época, mas tudo feito com um prazer espetacular.

Pra mim, brincadeira de guri é jogar bola. Feliz é quem pode fazer isso por diversão, volta e meia. Feliz é quem pode se apaixonar pelo futebol, sempre agregando novos ídolos, novas manias e novas felicidades. Essa é a terapia do homem de verdade: jogar bola. Talvez esse seja um desejo enorme na minha vida quando eu tiver um filho. Ensiná-lo a jogar futebol. Ensiná-lo a se apaixonar pelo futebol, como eu sou apaixonado. A entender de futebol, a consumir futebol, a participar de qualquer evento que envolva o futebol.

Eu juro que no dia em que ele estiver assistindo a MOGI-MIRIM x MARÍLIA, eu até faço companhia. Aí eu vou saber que pelo menos nesse aspecto, eu vou ter acertado.

June 28, 2007

MINHA COPA INESQUECÍVEL

Filed under: futebol, saudosismo - Carlos @ 3:02 am

Talvez não seja a sua, mas a minha Copa do Mundo de futebol inesquecível não terminou com vitória brasileira. Pelo contrário, fechou com aquele vexame em Saint-Dennis, quando o Brasil de Ronaldo tomou três da França do Zidane.

Depois de uns sete anos eu voltei a assistir a um jogo da seleção brasileira em casa, sem estar trabalhando. Vale lembrar que eu fui, por exemplo, plantão em todos os jogos do Brasil na Era Dunga (exceto este, contra o México). Nos últimos dois mundiais, eu trabalhei incessantemente (2002 e 2006), ao passo que também jamais vou deixar de lembrar aquelas coberturas inesquecíveis de seleção brasileira. Principalmente a de 2002, com 45 dias virando a madrugada, com minha vida transformada no fuso horário japonês, mas vivendo no Brasil. É claro, eu também volto a 1994, quando o Brasil foi tetra e eu quebrei a parede do meu apartamento com uma voadora, na comemoração.

Mas 98 tem alguns aspectos singulares. Foi a minha primeira e única Copa do Mundo acompanhada em idade “adulta”, com uma certa “independência” e sem encargos de ser um “profissional da área”. Ainda não trabalhava em 98. Estudava apenas, somente no turno da manhã, o que me deixava o resto do dia livre simplesmente para esquecer do mundo e assistir aos jogos. Em 2002, eu assisti a TODOS os jogos da Copa. TODOS, não só do Brasil. Mas eu também trabalhei em TODOS. Em 98, eu vi vários, mas deixei de acompanhar alguns.

Talvez a lembrança desta Copa seja bem mais particular do que o Mundial em si. Durante Espanha x Nigéria, pela primeira vez eu conectei meu PC à internet, com conexão discada do provedor hotnet. Em Brasil x Dinamarca, eu, com carteira recém tirada, atrasado para a partida, peguei uma “carona” na ambulância do Hospital Cristo Redentor para poder me livrar do trânsito. Em Holanda x Argentina, de tardezinha, deixei a sacada do meu prédio aberta com uma bola à disposição só pra chutar enquanto o jogo estava no intervalo. Em França x Paraguai, eu me atrasei para uma festa que eu tinha só para ver a decisão do jogo. Em Brasil x Marrocos, eu recebi uma ligação.

Principalmente, quem sabe a Copa de 98 seja um pequeno rasgo no tempo. Como em 1993, quando eu cresci repentinamente, em 1998, eu passava a ser de fato mais adolescente do que eu era, aproximando uma vida aparentemente sem limites de uma inexperiência gritante. Um marco da liberdade que se tem aos 19 anos, de ter a sensação de que algo importante pode acontecer e você também pode fazer parte disso.

Por isso que toda vez que vejo a seleção, eu lembro da Copa de 98. Rito de passagem, grito de felicidade. Uma linha dividindo o que eu era e o que eu passei a ser a partir daquele ano. Ninguém vai entender nada, mas um pouquinho dessa minha personalidade passou por aqueles gramados franceses. E o pior é que eu nem lembro direito dos gols do Brasil.

December 19, 2006

DISPARADA COLORADA

Filed under: música, futebol - Carlos @ 2:03 am

De longe foi a melhor cobertura que participei em seis anos como profissional de rádio. Acho que de quinta a domingo dormi apenas umas doze horas, mas cada uma dessas horas valeu a pena. Sou absolutamente louco por grandes eventos e, no maior evento vivido por mim enquanto profissional, fiz questão de participar de cada detalhe.

Na minha opinião, o ponto alto foi a versão de “Disparada”, de Geraldo Vandré e Theo de Barros, música imortalizada pelo mestre Jair Rodrigues em 1966, que ganhou roupagem colorada na voz de Neto Fagundes.

Em 1999, o Inter enfrentaria a Ponte Preta pra tentar fugir do rebaixamento à segunda divisão. Na Lancheria do Parque, Zé Victor Castiel escreveu uma letra, adaptada de “Disparada” e entregou para o Neto Fagundes interpretar. Ficou linda.

No meio da semana, meu colega Lucianinho e eu tivemos esta idéia. Vamos chamar o Neto, alterar a letra, fazer uma montagem e colocar esta versão no ar. Se transformou em “Disparada Colorada”. Já tá no emule, e no clicrbs. A letra está no blog do Gaúcha Hoje. Ficou uma pérola.

Valeu tudo e, claro, parabéns ao Inter. Eu vivo na cidade do melhor time de futebol do mundo.

December 13, 2006

TUDO É PROFISSIONAL, CLARO

Filed under: futebol - Carlos @ 2:41 am

Eu assinei um contrato em linhas invisíveis com o blog ou qualquer publicação aberta que me impede de divulgar o time que eu torço. Não posso. Não devo. É melhor não.

Queria dizer a todos, no entanto, que são meia noite e meia do dia 13 de dezembro de 2006 e que em oito horas o Inter entra em campo contra o Al Ahly do Egito pelo Mundial de Clubes. Neste momento, estou me dirigindo ao trabalho para uma cobertura de doze horas. Para mim, é uma honra poder trabalhar neste momento tão glorioso para o futebol gaúcho.

Assim como na cobertura de duas Copas do Mundo, sinto um nervosismo especial. Fazer produção em grandes eventos vale cada minuto de jogos por Gauchão, de encheção de lingüiça, pautas ruins e ano cansativo. É um nervosismo profissional, claro. Com a certeza de que faremos o melhor para que o futebol gaúcho traga outra taça para nós.

Obrigado.

December 5, 2006

RETROSPECTIVA 2006. FUTEBOL (2)

Filed under: futebol - Carlos @ 5:28 am

A CBF entregou o prêmio aos melhores do Brasileirão 2006. Algumas gafes vergonhosas na festa que nem funcionou tão bem assim. A Taís Araújo, mesmo errando, acabou se saindo bem. Fiquei só pasmo com o Evandro Mesquita, que não conhecia o Lucas (sendo que é um jogador que se diferencia dos outros, fisicamente falando).

A seleção foi a seguinte: Rogério Ceni; Souza, Fabão, Fabiano Eller e Marcelo; Mineiro, Lucas, Zé Roberto (Bota) e Renato; Souza e Fernandão.

Eu mudaria algumas coisas. Vamos então à segunda parte da retrospectiva 2006, com os melhores do Campeonato Brasileiro e do futebol brasileiro em geral:
=-==-=-=
SELEÇÃO DO CAMPEONATO
Rogério Ceni (São Paulo); Ilsinho (São Paulo), Índio (Inter), Fabiano Eller (Inter) e Marcelo (Fluminense); Mineiro (São Paulo), Lucas (Grêmio), Cícero (Figueirense) e Renato (Flamengo); Fernandão (Inter) e Aloísio (São Paulo)

CRAQUE DO CAMPEONATO
1- Rogério Ceni
Foi artilheiro do time. Pegou tudo e mais um pouco. Comandou a equipe, e garanto que se não tivesse essa segurança o São Paulo não teria passeado.

2- Mineiro
Ninguém jogou mais que Mineiro. Rogério Ceni simboliza o título, mas Mineiro foi tudo o que se espera de um jogador moderno. É um faz-tudo, sendo, na minha opinião, merecedor do posto de titular da seleção brasileira no momento, formando dupla com Gilberto Silva.

3- Fernandão
É o maior jogador em atividade no futebol brasileiro. Nunca vi alguém jogar como Fernandão. Inteligente, artilheiro, bom caráter, líder. Também teria vaga na minha seleção.

4- Renato
O Flamengo foi o time de um jogador só: Renato. Sem ele, seria rebaixado, porque a companhia não é das melhores. Fez a diferença.

5- Lucas
Revelação do campeonato. O melhor segundo volante surgido no Brasil nos últimos tempos.

REVELAÇÃO

1- Lucas (Grêmio)
2- Marcelo (Fluminense)
3- Cícero (Figueirense)
4- Ilsinho (São Paulo)
5- Diego Cavalieri (Palmeiras)

ÁRBITRO
1- Leonardo Gaciba (RS)
2- Luís Antônio Silva Santos (RJ)
3- Carlos Simon (RS)
4- Luís Alberto Sardinha Bites (GO)
5- Alicio Pena Junior (MG)

TÉCNICO
1- Mano Menezes - Grêmio
2- Muricy Ramalho - São Paulo
3- Renato Gaúcho - Vasco
4- Caio Júnior - Paraná
5- Geninho - Goiás

Encerrada aqui a retrospectiva do futebol.

May 23, 2006

COZINHA DA COPA

Filed under: jornalismo, futebol - Carlos @ 6:02 pm

Tá no ar o blog da RBS sobre a Copa do Mundo, com contribuição da equipe que vai cobrir a Copa lá(Pedro Ernesto, Marco Antônio, Benfica, Boaz, Zé Alberto, Cyro, Caio, Ruy, Nando e Chicão - Rádio Gaúcha; David, Mário e Feltes-ZH; Ney Morrudo e Maurício Saraiva-RBS TV; Cacau Menezes e Roberto Alves-SC) e aqui(eu, Lucianinho e Henrique-Gaúcha; Mirella e Dani Peretti-ZH), com contribuição do pessoal do clicrbs.
Entrem lá e confiram o que tá pegando.
Esqueci alguém da equipe?

May 4, 2006

AI QUE VONTADE!!!!

Filed under: futebol - Carlos @ 5:36 pm

Esqueça qualquer data ou fato relevante da sua vida. O acontecimento mais importante da humanidade é, sem dúvida, a Copa do Mundo. Nada supera.

Desde 1990, eu acompanho todos os jogos do Brasil na Copa. E mais: em 1998, com a TV a Cabo, eu devo ter perdido uns dez jogos apenas. Em 2002, por força profissional(e por prazer também), eu assisti a TODOS os jogos da Copa. Até os simultâneos, claro, sem devida atenção, no encerramento da primeira fase, quando, no estúdio da Gaúcha, duas televisões disponibilizavam este prazer.

Talvez seja o único momento em que eu vire tiete, de fato. Eu parei com esse lance de idolatria a muito tempo, mas a chegada de uma Copa do Mundo me transforma de uma maneira surreal. Sou um fã, um fã do futebol, do evento, me transporto para o país do Mundial, pesquiso sobre os times, esboço seleções, elejo os melhores de cada partida, invento táticas, critico, comento, torço. A Copa é fantástica.

Particularmente, eu tenho alguns rituais básicos nos jogos da Copa. Primeiro, eu não gosto de ter minha atenção desviada, seja em qual for a partida. Pode ser Togo x Angola que lá estou eu, observando o Adebayor, ou perguntando porque o Mantorras não entrou no time angolano. Não gosto de falatório. Por isso, nunca curti a chamada “festa pelo Brasil”. Em 94, assisti, ao lado do meu avô, aos jogos da Copa todos da mesma maneira: deitado no chão, com duas almofadas, grudado na TV, com um bloco de anotações. Em 98, o mesmo ritual, já sem meu avô. Sem trago, sem reuniões pra ver o Brasil, sem torcidas fanáticas. Em 2002, vi a Copa pelo lado profissional, mas com o mesmo ritual consciente. Nunca fui de ir para um boteco, reunir-me com a galera só pra ver o Brasil jogar. Prefiro o meu ponto de vista, a minha torcida particular, e é dessa maneira que eu lembro dos fatos. Coisa de chato, de maniático.

Quando eu digo que NADA supera a Copa, é a pura realidade. Eu não trocaria um jogo do Brasil na Copa por nada no mundo. Nada mesmo. Nem suborno, nem a mulher mais gostosa. Porque ali, aquele instante, é o Brasil, entrando em campo, pra jogar uma partida de futebol no campeonato mais importante do planeta. E eu falo sério. A arte mais complexa é o futebol, mais forte que qualquer tipo de manifestação, de obra relevante, de construção literária, de filme, de música. O futebol é a única coisa que me arrepia. Aconteceu isso quando assisti novamente a “Todos os Corações do Mundo”, o filme da Copa de 94. Acontece quando eu produzo os especiais da Copa, um arrepio. O futebol me fez chorar, e ainda me faz. Algo inexplicável. Todos temos, eu tenho o futebol e levo isso comigo. E a Copa, que só tem de quatro em quatro anos, é a síntese de toda essa explosão de sentimentos.

Comecei a colecionar o álbum de figurinhas da Copa de 2006. Quem quiser trocar, estamos aí. Vou comprar todos os guias, me informar sobre todos os atletas e comentar sobre todas as convocações. É o mais importante.

Por isso, não aceito pessoas que não gostam de futebol. Não aceito, não tolero, não admito, não RESPEITO. Exato, não RESPEITO. É mancha no currículo. É desvio de conduta. É doença, pra ser tratada no psiquiatra. É DEVER e DIREITO gostar de futebol, ao menos na Copa.

Brasil jogando na Copa do Mundo: gostar ou não? Acho que não é questão de gosto, simplesmente. Brasil jogando na Copa do Mundo, pra mim, é OBRIGAÇÃO CÍVICA.

E como diria o JAPA do Shoptime, que faz uma ponta em BELÍSSIMA: “AI, QUE VONTADE”(*)

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(*) Nota de rodapé: TAKESHI, Carlos. Canal Shoptime. Maio de 1998, anunciando o novíssimo FIFA WORLD CUP 98. Frase feita por ele ao divulgar o jogo.

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