Verborragia sem concessões

September 23, 2008

MAIS UM?

Filed under: música - Carlos @ 4:15 am

Larguei o cowboy in the sand, mas fiz outro blog, mais acessível pras massas.

Faixa título.

Assunto? Música.

Dois blogs, um de futebol e um de música. Esse fica no espacinho pros reclames habituais e pra escrever, basicamente, sobre comportamento.

Futebol e música. Alguma coisa é mais importante que isso no mundo?

Pois bem, acho que vocês vão gostar. Música todo mundo gosta. Pelo menos eu acho que todo mundo gosta. Considero uma violência à raça humana em geral um ser humano pensante, saudável e sem seqüelas NÃO GOSTAR de música. Ah, tem gente que não gosta. Sim, violência à raça humana.

Obrigado e prestigiem.

August 29, 2008

GAUDÉRIOS

Filed under: comportamento, música - Carlos @ 3:01 am

Não sou tradicionalista pelo fato de que nasci, cresci e esculpi minha personalidade sob o céu cinzento da Assis Brasil e o máximo de gauchês que eu sentia era o cheiro de churrasco no domingo, o ônibus SARANDI-GAÚCHO e o rastro de bosta de cavalo deixado pelas carroças que cortavam a imponente avenida mais feia de Porto Alegre rumo aos pólos periféricos da GPA (principalmente Cachoeirinha, Gravataí e Alvorada).

Meu crescimento foi eminentemente urbano. Cercado de videogame, futebol na rua, movimento intenso de veículos e poluição. Nada campestre, nada gauchesco. Por isso, não tenho a ousadia de colocar aqui minhas opiniões a respeito de um movimento que eu tenho pouco conhecimento.

Entretanto, admiro o tradicionalismo e acho de extrema necessidade. A valorização das conquistas, dos hábitos e das tradições é sinal de reverência àqueles que construíram, seja do jeito que for, uma identidade específica para sua terra. E nisso, o Rio Grande do Sul é exemplo no país. Junto, talvez, com as tradições baianas e pernambucanas, com a fanfarronice carioca, que é uma delícia, e com as raízes sertanejas dos pantaneiros.

Depois que eu percebi que a música era mais do que três notas e que havia alguma coisa além das guitarras, me enfiei num pequeno guia para principiantes da música gaudéria. Para o meu espanto, me deparei com uma música riquíssima. Com influências diretas das mais belíssimas canções latinas, com letras espetaculares, há muita coisa boa a ser conferida na música gauchesca.

Claro que tem gente que fode tudo. Para deixar as coisas mais “ACESSÍVEIS”, um bando de gente que não sabe de nada misturou as coisas, botando até teclado de churrascaria e chamando num arrasta-pé forrozeiro mezzo brega que dá uma certa vergonha. Mas se formos no âmago, vale a pena descobrir mestres como Teixeirinha, Gildo de Freitas, Leonardo, Luiz Marenco, Mário Barbará e José Cláudio Machado. Gente que tem a manha, que lembram bardos, trovadores e blueseiros da melhor estirpe. Coisa fina.

Juro que dá vontade de pegar o carro e varar este Rio Grande. Até deu vontade de tomar chimarrão. Deve ser coisa do inverno, só pode.

March 10, 2008

DERIVADOS E PRIMITIVOS

Filed under: comportamento, música - Carlos @ 4:59 am

Sou partidário da teoria de que se virou mania, se caiu no gosto popular, geralmente é porque é bom. Depois, quando banaliza, o mercado geralmente escraviza o modismo, tornando o que é bom produto de massa. Aí vira produção em série, um saco. É onde reside o grande problema.

O filme “Closer - Perto Demais” é um exemplo clássico dessa regra. Extremamente bem feito, com ótimo roteiro e interpretações brilhantes, virou o filme de cabeceira da minha geração ali por 2005. Aí todo mundo pagou o maior pau pro Damien Rice e sua “Blower’s Daughter”. Ótima música. Versões terríveis. Mas de indies de boutique a patricinhas sem muito critério, passando por pagodeiros e surfistas, todos gostaram. A moda causada por um filme, mas que impede certamente essas pessoas pesquisarem mais sobre o cara e perceber que as influências dele, quase em sua totalidade, são de artistas que eles nunca ouviram falar. Mas a moda era gostar de Damien Rice. Ou desta música, somente. Até a SIMONE gostou. Gostou tanto que gravou. E o Seu Jorge, aquele da “Burguesinha”, o cara do suíngue maneiro, se juntou à Ana Carolina e tacou uma versão. O Seu Jorge é fera, mas o negócio dele é samba-rock. Não uma música como “Blower’s Daughter”. Seria como ele gravar “High and Dry” do Radiohead, em versão suingada.

Aposto um real como a próxima música-moda-fetiche será “Falling Slowly”, de uma banda irlandesa chamada The Frames, interpetada e escrita por Glen Hansard e Marketa Irglova. Esta canção ganhou o Oscar há duas semanas e me chamou atenção. É absolutamente fantástica. Belíssima. Obra. O filme é “Once” e será o filme-moda-fetiche dos indies assim que estrear no Brasil. Se passa na Irlanda e aí foge da característica blockbuster-popcorn-americana que os indies tanto odeiam. Ponto pro filme. Duvido que gostariam tanto de “Closer” se fosse em MIAMI por exemplo. Miami não vai ser moda tão cedo.

Espero que não façam versões dessa música, que nenhum DJ desses faça um remix esperto e que ninguém se identifique com a narrativa e harmonia belíssima dos vocais e cordas da música. Mas acho que isso vai acabar acontecendo. É muito boa, ganhou Oscar e o filme deve ser bacana. Uma love story com musiquinha esperta se passando na Irlanda? É, vai ACONTECER, definitivamente. Vai acontecer porque é bom, como Closer. E porque a música é melhor ainda. E sendo bem sincero, olha, melhor do que muita coisa que eu ouvi nesta década.

Escrevi no outro blog sobre o tecnobrega. O conceito tecnobrega e forró brega é excepcional. Criativo, brasileiro, genuíno. Está virando moda. Quando chegar aqui em Porto Alegre, a CAPITAL MUNDIAL DO SAMBA-ROCK, a cidade com uma rua dedicada a um único estilo, vai estourar. Na primeira metade da década, festinhas de forró universitário bombavam. O tecnobrega e o forróbrega vai arrebentar, tenho certeza. Vai massificar. Vai invadir uma cidade completamente desacostumada com esse tipo de coisa, uma cidade que não cria muita coisa em termos musicais (excetuando o rock gaúcho anos 80), que mais copia e deseja intensamente em ser a República dos Excluídos e com Complexo de Inferioridade, apoiando-se na suposta qualidade de vida superior e no suposto “frio europeu”, mesmo que no verão a cidade seja uma versão parecida do inferno. Vai foder com toda a proposta do movimento tecnobrega, a pirataria, os ídolos, as caravanas.

A grande banda de 2008 no Brasil será Aviões do Forró. Fizeram uma versão de “Umbrella”, da Rihanna, que dói o esôfago de tão ruim, tão picareta e tão genial. Tem uma nova chamada “Chupa que é de uva” que é um primor. Vai tomar o lugar das bagaceirices saudáveis dos anos 90, por exemplo, como Tiririca e É o Tchan. O Brasil precisa disso. Desse lado suburbano que o Chacrinha ensinou a fazer e que depois de sua morte houve uma lacuna que foi preenchida por estes vigários musicais do bem.

O problema é que para cada gênio que bola um Tchan e um Aviões do Forró vem vinte mil palhaços com derivados que só se sustentam em quem criou a idéia. Ou alguém para “aparar as arestas da vagabundagem”, lapidar uma espécie de contracultura do contrabandismo musical, pasteurizar e faturar dinheiro. E aí todo mundo cai nessa história.

Como todo mundo caiu com a “Blower’s Daughter”. Todo mundo adorou, mas ao invés de conhecer Elliot Smith, PJ Harvey e Radiohead, pra não dizer o trabalho completo do Damien Rice, preferiu ficar só com “A MÚSICA DO FILME”. E todo mundo vai cair com o oscarizado cara do The Frames, com essa música espetacular. E ao invés de saber sobre a banda e seus contemporâneos, vai se dar por satisfeito em ter essa música como a canção da cabeceira e se converter ao modismo.

É o problema da moda. Quando vira DA MASSA, ninguém mais se preocupa em saber as origens, as influências, como surgiu, porque aconteceu. Só bate e vai. Aliás, alguém sabe da origem dos emos, pra falar em MODA ATUAL? Ou quando existia o grunge, alguém citava Mother Love Bone? Mais ou menos como o guri gostar de NX Zero e não conhecer Ramones. Ou ouvir Ramones e não gostar. Ora, NX Zero não existiria não fossem os Ramones. Não fosse uma transformação de ritmos, estilos e tendências que têm sua origem lá nos anos 70, com o punk rock. Só querem saber dos derivados. Mas não vão atrás dos primitivos.

January 10, 2008

COUVERT DOZE REAIS

Filed under: comportamento, música - Carlos @ 5:25 am

Confesso que o post embaixo me inspirou a fazer um pequeno protesto. Enfim, me irritei, deu raiva, gosto do sentimento de raiva, acho ele bem mais nobre do que pena, compaixão ou tristeza. Dos sentimentos ruins, a raiva é o melhor deles porque é o único que MOTIVA. Os outros são letárgicos, inoperantes, deprimentes. Raiva ou ódio traz uma certa força sobrenatural que, por pior que seja, agrega uma força de vontade para que os argumentos continuem, mesmo que sejam destrutivos. É uma merda que puxa o lado ruim da pessoa, por vezes absolutamente animal. Mas é o único que FAZ alguma coisa, pelo menos. Enfim, antes raiva do que resignação. Ou pena, esse o pior de todos. Síndrome do coitadismo.

Mas não é contra o coitadismo que eu vou protestar. Isso vale um outro post, outro dia. O protesto se faz contra as pessoas que respondem isso:
“Que tipo de música tu gosta?”
“Ah, eu sou eclético, gosto um pouco de tudo”.

Isso me lembra o mestre Abílio dos Reis. Não conhece, né? Seu Abílio, já falecido, era o cara do Inter que revelava garotos lá pelos anos 60 e 70. Falcão é cria dele. Seu Abílio perguntava para a galera:
“Em que posição você joga?”
“Ah, eu jogo em todas.”

Resultado: NÃO JOGA NADA.
Talvez tenha sido outro mestre, ÊNIO ANDRADE, o autor da pérola, mas enfim, pesquisa nessa hora tá complicada. Vai assim, no chutômetro saudável, que não dá nada.

Pois bem. Como eu ando numa fase extremamente musical e absolutamente contrariado com pessoas NÃO MUSICAIS (ah, música é música e só), a principal irritação é essa do ecletismo.

Mas tem uma pior que eu lembrei:
“Ah, eu gosto daquela do U2… putz, não lembro o nome, é aquela que eles tocaram no show em Buenos Aires que eu fui, sabe? Ah, eu adoro aquela música. Bah, desculpa, sou tri ruim pra lembrar nome de música.”

Isso é praticamente uma facada no meu peito. Eu ouvi isso. Primeiro, a pessoa foi no show do U2 por algumas razões. A primeira é pelo EVENTO. A segunda é porque tinha dinheiro e a terceira porque a MÚSICA (SHOW, MÚSICA, PEGOU?) era o que menos importava naquela altura do campeonato. Duas fotinhos no orkut e eu lembro que estava em Atlântida Sul numa TV 14 polegadas pegando mal o show e essa pessoa no entanto estava em Buenos Aires vendo o show. A propósito, eu refresquei a memória da pessoa. A música era “ONE”, do disco “ACHTUNG BABY”, de 1991. Provavelmente uma das três mais conhecidas do U2. E segundo que ir a um show do U2 e não saber que ONE É O NOME DE UMA MÚSICA DELES é como achar que o JAPÃO fica no continente AFRICANO.

Depois, eu perguntei que mais a pessoa gostava além de U2. Ela disse “Seu Jorge”, “Marisa Monte”, “samba de raiz” e “Rolling Stones”. Mas que ela era “ECLÉTICA” e “GOSTAVA DE TUDO UM POUCO”.

Não sou melhor do que a pessoa “eclética” em nada. Vai ver ela só acha que música é algo que entra no ouvido, agrada e não contribui em nada pra vida dela não saber que ONE é o nome daquela música. Pra mim, música é muito mais que isso. Eu escrevi no post abaixo.

Cada um preza por qualidades nas pessoas. Uma pessoa “musical”, no meu ponto de vista, é muito mais interessante do que as “ecléticas”. E esse lado musical COMUM às vezes passa tanto do limite que chega a irritar. Ao menos a raiva serve pra isso né: escrever um post.

COUVERT OITO REAIS

Filed under: comportamento, música - Carlos @ 4:41 am

Eu odeio barzinho que toca voz e violão e cobra couvert de oito reais pra músicas da MPB tradicional. Simplesmente porque todo mundo faz a batida do mesmo jeito. É horrível, de um mau gosto, mal tocada, feio o jeito de interpretar, praticamente assassinando toda a harmonia de músicas excelentes. As cinco músicas mais tocadas em bares (e prontamente assassinadas, com o chamariz de MÚSICA AO VIVO - COUVERT) são as seguintes:

1- Cláudio Zoli - Noite do Prazer
Aquela, “na madrugada vitrola rolando um BLUES, dançando BB King sem parar”. É uma musiquinha pop relativamente chata que enjoa o primeiro gole de chope quando é tocada, seja no ambiente mais agradável possível. Um saco de música.

2- Djavan - Eu te Devoro
NUNCA vi alguém tocar bem essa música.

3- Caetano Veloso - Sozinho
Como ninguém consegue fazer as viradas da harmonia, fica um troço monotônico.

4- Ana Carolina - Quem de Nós Dois
A versão é excelente pra música italiana. Mas estragam de uma maneira que irrita.

5- Cássia Eller - Malandragem
Já não curto a versão acústica da própria Cássia. O acústico cover amador do acústico então fica um lixo.

Mas enfim, o POVO gosta. Na verdade é o tipo de música que entra por um ouvido e sai pelo outro. E é o tipo de música que as pessoas mais gostam. Ninguém na noite tem o hábito de PENSAR a música. Não. É só um fator circunstancial, um efeito sonoro que não atrapalha o bate papo, não influencia na conversa e não estimula o flerte. Justamente por essas razões, eu não consigo gostar de bar que toca o diabo de MÚSICA AO VIVO. Música ao vivo não é atrativo nenhum. Um show sim. Uma festa cuja atração principal seja exatamente a banda no palco. Senão, mete um DJ e põe a versão original que funciona muito melhor.

A chatice das músicas-ao-vivo-em-bares-MADUROS está cada vez pior. Na Padre Chagas, por exemplo, que é uma rua agradável, pelo menos 80% dos bares fazem esse tipo de coisa, cobrando um couvert simbólico para um cara que tá ali, vivendo daquilo, ESTRAÇALHANDO com a obra dos outros pra simplesmente agradar a um público pouco exigente nesse quesito. Eu meio que desisti de tentar convencer as pessoas que a música vai muito além da própria música. Talvez porque eu tenha feito uma trilha musical da minha própria vida. E em nenhum momento, nestes 28 anos, um cidadão tocando “SE”, do Djavan, em ritmo de SAMBA ROCK, batida pra lá e pra cá, fez parte desta trilha. E eu só lembro porque era ruim demais. Tá aí um passo pra me convencer, mas que até pode se tornar divertido. Se alguém quiser me convidar pra fazer alguma coisa, jamais me leve a um bar com música ao vivo tocando “clássicos” da MPB. Músicas que eu adoro, como por exemplo “Chão de Giz”, do Zé Ramalho, são melancolicamente detonadas.

A culpa não é dos músicos. É do público. E esse público, o consumidor deste tipo de local, me irrita mais do que patricinha metida a funkeira. É aquele pessoal na faixa dos 30 anos, já bem sucedidos em seus empregos, seja lá quais forem. Que tem uma certa pretensão em soar “cool”, que utilizou boa parte do conhecimento próprio pra estabelecer uma carreira e lutar por esse tipo de coisa sem ter tido tempo pra pensar se é realmente de qualidade aquilo que estão consumindo. Mais ou menos: pago 5 reais por um chope de 300 ml num lugar agradável, mas eu não entendo muito de música e nem tenho tanto discernimento pra livros, cinema e (até) política. Mas o carro é bom, a janta é por minha conta e minhas histórias são as mesmas da mesa do lado. Eu cresci, me estabeleci, me formei. Viajei pra Europa uma vez, onde provavelmente não fiz nada de interessante. Vou aos jogos no Olímpico ou no Beira-Rio. Moro sozinho e sou independente. Pós graduei. E gosto das malditas MÚSICAS AO VIVO MAL TOCADAS, tomando-me 8 reais que, ah, não fazem falta.

É uma irritação paranóica, quase obsessiva por esse estilo de vida. No final das contas, a música ao vivo é um símbolo de uma geração que procurou fazer tudo certo e não tem nenhuma história pra contar. É o carro-chefe dessa gente BACANA, de CARA LIMPA, mas que pra funcionar precisa ser banhada num caldeirão de sal pra que tenham algum tipo de tempero que chame a atenção.

Sinceramente, ao menos nessa parte os pagodeiros são mais honestos. Existe um público que consome e gosta. Um público que, bem ou mal, não toma suas músicas como um zumbido qualquer que ALIVIA os ouvidos em happy hours do Moinhos de Vento. Não gosto de pagode, mas admiro pessoas que pensam que (mais uma vez) MÚSICA é muito maior do que MÚSICA. Música é uma parte considerável e substancial da sua alma, um definidor de personalidade, uma poesia constante do inconsciente, um catalisador de vontades, necessidades e possibilidades, é vento, é ar, oxigênio, é uma das poucas coisas que faz rir, chorar, muda humor, esculhamba corações, rompe e une relações. E eu não posso conceber que mandem músicas boas À MERDA.

Pra fechar, um exemplo disso. Pego leve. A música “Inverno”, da Adriana Calcanhoto, é a minha preferida dela. A letra é de Antonio Cícero e acho absolutamente perfeita. Observem a interpretação de Adriana Calcanhoto:


E agora uma cover da música:

Respondam-me. PRA QUÊ ESSA BATIDINHA SAMBA ROCK IRRITANTE E ESSE TIMBRE POBRE NUMA MÚSICA CUJA HARMONIA EM NENHUMA PARTE PEDE ISSO?

E não me venham defender esses fazedores de couvert porque eu nunca ouvi um que prestasse. Não é importante a trilha sonora numa noite pra você? Mude este conceito, aposto que você será bem mais feliz. Ou então põe a versão original, ao menos não tem um desrespeito artístico nessa questão.

December 7, 2007

ALMA

Filed under: música, saudosismo - Carlos @ 6:48 am

É coisa de mulher o que eu vou escrever, mas foda-se. Como disse uma amiga minha esses tempos: “Tem que ser muito macho pra dançar uma coreografia da Spice Girls em público. E ainda por cima ficar macho fazendo as coreografias”. Gostei disso, de qualquer maneira.

Pequenas coisas mudam a nossa vida. A gente nem percebe e um momento, um instante, um lampejo e pah! Muda tudo, as percepções se alteram e algum horizonte se abre. Ninguém nota, né? Geralmente dão valor ao emprego novo, ao carro novo, ao relacionamento novo, às conquistas novas. Mas ninguém dá bola para os pequenos momentos. Tu e tua alma.

Praia de Oásis, 2003. Depois do fim de um relacionamento de um ano em pleno carnaval daquele ano, procurei um amigo meu do colégio, meu melhor amigo do colégio. O cara se casou recentemente, fui no casamento e fui obrigado a dizer que ele era foda pra caralho. Um dos melhores amigos que eu já tive na minha vida. Em 2003, ele namorava uma menina que tinha uma casa em Oásis, litoral gaúcho, que pra mim, àquela altura, tinha sido apenas um antro de bebedeira no verão de 1999. Se Atlântida Sul é a minha residência oficial dos grandes momentos da minha vida, coloco em segundo lugar Oásis. Na frente de Atlântida e Capão da Canoa, que eu jamais subestimo, colocando estas praias num inestimável valor sentimental de crescimento, aprendizado e mil e vinte e cinco experiências inesquecíveis e antológicas (quem vai pra rua do Ibiza sabe do que eu estou falando).

Assim que estacionei o recém comprado Palio em Oásis algum aparelho de som do centrinho daquela praia tocava a música “Alma”, da Zélia Duncan. Eu nunca gostei da Zélia Duncan, nem tive um período de redescoberta súbita após o boom da Ana Carolina, que eu acho talentosa, mas sapatona demais pro meu gosto. De som sapatão prefiro KD Lang ou Melissa Etheridge. Entretanto “Alma” estava tocando. Acho que em 2003 eu nunca tinha ouvido a música. Parei, numa noite quente, estrelada e absurdamente linda. Talvez fosse o efeito das três cervejas compradas no caminho de Atlântida Sul até Oásis. Se eu me lembro, foram no BECKER (Atlântida Sul), algum posto em Imbé e num bar no centro de Nova Tramandaí.

“Alma”. Zélia Duncan. Olhei pro céu e ao invés de pedir um Jesus and Mary Chain eu comprei outra cerveja pra prestar atenção na letra. Nunca as coisas foram tão claras. Aquele momento, da “alma”, eu e a”alma”, o céu, as pessoas comendo crepe, as crianças no parque de diversões, os adultos discutindo o futuro da dupla Grenal no bar, uma caminhada breve até a casa do meu amigo. Acho que pela primeira vez eu soube o significado de alma. Acho que ali talvez tenha sido um dos momentos mais marcantes da minha vida. O momento em que eu soube o real significado da ALMA. De como as coisas às vezes, do nada, fazem bem mais sentido do que uma conquista nova.

Às vezes o que você planeja é muito menor do que a força do acaso. Eu juro que se essa música não tivesse tocado naquele momento, se o céu não brilhasse tanto como naquele dia, se o trajeto até Oásis não fosse tão esclarecedor quanto naquela noite, se as pessoas não parecessem tão radiantes quanto naquele instante, eu não estaria escrevendo sobre isso agora. Acreditem, estes cinco minutos e meio de estacionar o carro e ir até a casa do meu amigo mudaram a minha vida. Pela primeira vez eu acreditei na minha alma. É nela que eu me baseio até hoje e é nessa força que eu passei a crer irremediavelmente desde a segunda-feira de carnaval de 2003.

O que é melhor? Não se trata de ninguém. Sou eu. O buraco é mais embaixo. Uma conjunção de fatores que mudam para sempre uma filosofia de vida. Uma confluência de fatos que modificam a personalidade de uma pessoa. Noite, movimento, calor, felicidade, uma música. Acho que estes são os verdadeiros meios que te fazem enxergar o fim. As conquistas? São o fim.

Zélia Duncan, quem diria. Depois eu devo ter ouvido uma overdose de axé, funk ruim e marchinha de carnaval. Eu fico com a “Alma”. A minha alma.

November 23, 2007

DEVER SENTIMENTAL

Filed under: comportamento, música - Carlos @ 4:15 am

Existem dois tipos de pessoas, basicamente: as que algum dia ouviram Iron Maiden e as que não entendem absolutamente nada de música. Mais uma vez fecho no meu mundinho aqui ó: minha faixa etária e predominantemente masculino (metal pra guria no início dos anos 90 era muito coisa de guri). Tendo entre 25 e 32 anos e gostando de música, alguma vez o Iron Maiden já foi a banda mais importante da sua vida. Ou uma das mais. Se não foi, sério, reveja alguns conceitos. Ou então tu é do tipo de curte aquele violãozinho cachorro de boteco caro com um cara mandando ver no “EU TE DEVORO” do Djavan né? Bom, resumindo, tu não entende de música. Vamos ao Iron.

A banda toca aqui em Porto Alegre dia 5 de março. Eu particularmente não ouço nada produzido por alguém do Iron desde “Tears of the Dragon”, baladaço explodido pelo Bruce Dickinson em trabalho solo de 1994, com belo videoclipe que ainda emociona volta e meia. Nunca mais ouvi Iron Maiden desde então, ou melhor, nunca mais ouvi alguma coisa nova do Iron Maiden. Em 1992, comprei a fita original de “Fear of the Dark”, sendo este disco de valor sentimental único. Ali tinha Be Quick or Be Dead, Afraid to Shoot Strangers, a porrada da faixa título e a melosa Wasting Love. Gostava de ouvir esse disco, o que me projetou para outros trabalhos da banda, com destaque para “Number of the Beast” e “Powerslave”.

Admito que com o passar do tempo, aquela mística do Iron Maiden me pareceu mais uma brincadeira de adolescente se descobrindo musicalmente. Foi assim que aconteceu comigo. Eu ouvia Bon Jovi também e gosto pra caralho de discos como “Slippery When Wet” e o “Keep the Faith” mora no meu coração até hoje, era a época, eu acho. Digamos que o Iron Maiden, como o Bon Jovi ou como naquela época o Metallica serviram de iniciação musical, uma espécie de introdução na porrada para um mundo muito maior do que o Eddie (a caveira) ou o baixo do Steve Harris (que é o cara da banda). Uma “primeira vez”, como se fosse a primeira transa, liberando o guri para se entregar a paixões avassaladoras, casinhos de ocasião e uma imensidão de amores eternos, como várias bandas são pra mim até hoje. Antes era só beijinho e pegar na mão, ainda quando eu gostava e me emocionava com “Astronauta de Mármore” em 1989.

Aliás, estranho esse mundo de idolatria. Quarta série, gincana. Prova: a melhor interpretação de uma música ganhava o prêmio. Uma menina chamada Renata (ou seria Juliana, sei lá), dois anos mais velha que eu, cantou “Astronauta de Mármore”, em 89, e ganhou a prova. Me apaixonei pela música, com nove anos. Platonicamente pela menina, acho. Comprei uma fita do Legião Urbana e outra dos Engenheiros do Hawaii. Já gostava de RPM, mas de canto. Mas antes do Guns e antes do Iron Maiden, eu ouvia aquela versão de Starman (genial, genial) e nem sabia quem era David Bowie. Foi há 18 anos. Hoje, o cara que fez essa versão, o vocalista da banda, me encomendou dois trabalhos, sobre o Inter campeão da Libertadores e do Mundial. Me pagou, direitinho. O cara que cantou uma música que me abriu algum tipo de encantamento foi meu “patrão”.

Não ouço mais Nenhum de Nós, mas gosto ainda de Cascavelletes. Pra mim, a maior banda já surgida no Rio Grande do Sul. Engenheiros fica em segundo lugar. Cascavelletes era absolutamente genial pra proposta que apresentava. Letras absolutamente impressionantes, uma performance espetacular e uma precisão de banda que até hoje é reconhecida. Entrevistei sábado o Nei Van Sória e confesso que não conseguia pensar em outra coisa a não ser nele como vocalista do Cascavelletes.

Em 2002, recém contratado, não era plantão. Era um produtor e aos poucos fui fazendo algumas reportagens. Naquele mesmo ano, entrevistei o Felipão, o Parreira (dois campeões mundiais), o Ortega (jogador da Argentina, quando o River jogou contra o Grêmio aqui) e em 2005 fiz uma entrevista por telefone com o Edmundo, talvez meu maior ídolo de adolescência no futebol. Ancorei a cobertura da TAM sem qualquer experiência, transitando numa área que não era exatamente a minha. Não tremi em nenhuma dessas vezes. Nem quando era inexperiente, nem quando falei com meu ídolo e nem quando entrei num terreno desconhecido. Por mais leve que estivesse o papo, por mais cancha que eu já tenha, confesso que o Nei Van Sória na minha frente era muito mais o guitarrista dos Cascavelletes do que um entrevistado jornalístico. Não parava de pensar que era o cara que fazia parte da banda que me ensinou a palavra PUNHETA, por exemplo. Ou o que era MENSTRUAÇÃO. Que ele tinha sido muito mais educativo (mesmo que às avessas) do que a maioria dos professores que eu tive.

Foi quando eu pensei no Thedy e percebi que eu estava trabalhando pra ele. O cara que um dia cantou “Astronauta de Mármore” e fez com que eu me arrepiasse aos 9 anos, ainda não tirando minha “virgindade”, mas já indicando onde estava a “porta do paraíso”.

É justamente por isso que eu PRECISO ver o Iron Maiden. Mais que o Led Zeppelin, mais que o Police, apesar de eu saber e gostar bem mais dessas duas bandas do que a respeito do próprio Iron. Mas a banda do Bruce Dickinson e do Steve Harris, cujo material novo eu não sei há 15 anos, banda que não entraria numa lista de 200 bandas que eu ouviria numa ilha deserta, merece a minha audiência. O Nei Van Sória merece um abraço meu. O Márcio Petracco (que eu também entrevistei) merece um abraço meu. O Thedy Correa merece um agradecimento meu.

Não são ídolos de fato. É como se eles fossem conselheiros inconscientes da minha formação musical. A formação que eu me orgulho e que gerou boa parte da minha personalidade. Vocês têm culpa. Obrigado. Iron Maiden, eu não sei mais cantar nada que seja depois de 92, me perdoem, ok? Mas a missão de vocês comigo foi cumprida bem direitinho quando eu tinha 13 anos. Vou retribuir. Me esperem dia 5 de março.

March 13, 2007

O CÉU DE SUELY - TRILHA SONORA

Filed under: cinema, música - Carlos @ 4:53 pm

Ainda preciso escrever um pouco mais sobre este filme emocionante. Filmes brasileiros especialmente me comovem. Foi assim com “O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias”. No caso, uma identificação esplêndida com uma paixão de criança que supera e pula todas as adversidades: o futebol. O fanatismo pela seleção brasileira em uma Copa do Mundo, as primeiras descobertas, andar de bicicleta, colar figurinha em álbum. A lindeza de uma fase única e inesquecível.

Em “O Céu de Suely”, o que me tocou foi o sonho da menina de 21 anos dividida entre a angústia de criar um filho sem dinheiro e o sonho de ganhar o mundo.

Sobre a trilha sonora do filme, eu escrevo no outro blog.

March 12, 2007

EU AINDA ESCREVO

Filed under: música - Carlos @ 3:27 am

Este blog parece parado?
Sim, mas eu não estou. No outro blog, 28 posts para você.
De 1979, ano do meu nascimento, até 2006, os discos mais importantes de cada ano, na minha opinião.
Confere ali.
Ultimamente, escrever sobre música me dá bem mais prazer do que escrever sobre sei lá o que. Passa ali.

February 21, 2007

EU TENHO SAMBA NO PÉ

Filed under: comportamento, música, brasil, alegria - Carlos @ 3:30 am

Ainda não cheguei à conclusão a respeito de quem critica o carnaval. Na verdade, eu simplesmente respeito aqueles que apenas não gostam da festa. É um pensamento contrário do meu, mas eu também não gosto de exposição de arte e não pretendo ser alvo de críticas por causa disso. Há de se entender perfeitamente as pessoas que acham a festa um saco, não curtem as músicas, não vêem sentido na necessidade de se divertir, preferem outro tipo de festa, ou até mesmo o silêncio.

Particularmente, eu sou fã do carnaval. Eu tive a minha época anti-folia, mas era só uma forma de rebeldia patética numa época em que eu tinha inveja de quem se divertia mais do que eu. Hoje passou e eu comecei a assimilar o carnaval como um daqueles períodos em que eu preciso estar sintonizado com o que acontece em fevereiro. Portanto, se eu tiver que tomar algum partido, certamente ergo minha bandeira pró-Carnaval. É uma das poucas manifestações populares que ainda me faz arrepiar. Me faz sorrir e interagir o máximo de tempo.

Mesmo com um hiato nessa idolatria, sempre me posicionei adequadamente quanto a uma questão que insistem em levantar. A maior hipocrisia de todas, algo que beira o nojento, é atribuir ao Carnaval um rótulo de festa para esconder os podres do Brasil.

Os bodes expiatórios caem sempre no futebol e no carnaval. A contradição das pessoas que criticam estas duas expressões artísticas chega a dar pena. As duas maiores alegrias do povo brasileiro são condenadas por pessoas que justamente pregam uma melhor condição para este povo. E essas críticas vêm dos mais diversos lados. Dizem as feministas que “a festa pagã que prega a exploração da mulher, o culto ao sexo, à prostituição e à promiscuidade”. Já os moralistas de plantão afirmam que “o carnaval serve para desencaminhar os jovens e desestruturar as famílias”. O pior são os metidos a justiceiros sociais. Estes têm uma série de argumentos tortos e imbecis, do tipo “enquanto se passa fome no Brasil, todo mundo só pensa em Carnaval”, ou “gente pobre que só é lembrada nos dias de folia”. E pra fechar, tem o porto-alegrense recalcado, que diz que a cidade melhora no carnaval porque fica vazia. Um ponto de vista que gera uma pena enorme em mim, que considera um prazer estupendo o fato de pessoas simplesmente estarem mais felizes, usando um pretexto simples, como o Carnaval. Mesmo que imposta, se é que ela é nesse caso, mas empregando um contexto usado por esta gente, felicidade à flor da pele é algo que enche os olhos. De qualquer um, mesmo que haja tanta gente triste e sem graça nesse mundo.

O país tem inúmeros problemas, mas certamente não é evitando as celebrações coletivas que eles vão ser solucionados. Pelo contrário, ele traz mobilização de comunidades, união entre quem é carente, alegria para quem espera o ano todo por isto, e com todas as dificuldades do mundo, esquecem por um momento das adversidades no intuito de simplesmente festejar.

Além disso, carnaval é arte. Observe um desfile carioca e você estará de cara com uma arte revigorada, moderna, atual e incrivelmente bem feita. Carnaval é cultura, basta reparar no que estes gênios carnavalescos fazem com os enredos. E, acima de tudo, carnaval é festa. E onde há festa (em qualquer lugar no planeta), há uma óbvia conotação sexual para a data. É parte da festa: o sexo, a pouca roupa, a descontração, o exagero, o despudor, a entrega. Tudo isso é maravilhoso, e eu me orgulho demais que seja no Brasil. Que a gente exporte a beleza de um desfile da Mangueira, a beleza das nossas mulheres e a nossa gostosa sem-vergonhice, que nada mais é do que um desapego a todo tipo de chatice e caretice que toma conta desse mundo. Um antídoto contra um mau humor permanente que insiste em tomar conta do planeta, e pior, de gente jovem que prossegue nessa cavalgada de execrar toda liberação e alegria.

No final das contas, é um bando de gente chata e triste. Desprezam e avacalham uma festa que brinda a felicidade, mas ajudam quem eles acham que precisa muito menos qualquer membro de comunidade carente. É o tipo de gente que tem tanta crítica ao país, mas não mexe um dedo pra fazer bosta nenhuma. Pior (ou melhor, pra mim): ao invés de contribuir, seguem com as críticas ao Brasil, mas quando deitam a cabecinha no travesseiro, o único sonho é sair daqui. Que bom. Enquanto isso, todo fevereiro eu vou ver um pouco do desfile da Globo, se der dou uma pulada, vejo gente, estou junto das pessoas e fico um pouco mais feliz com a leveza desta grande brincadeira que é o carnaval.

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