Verborragia sem concessões

February 22, 2008

VIDA É DA VIDA A RAZÃO

Foi quase uma década de convivência diária com escadas, portas, janelas, banheiros, carpetes, paredes, cadeiras e pisos. Eu sabia de cor como seria o sabor de cada alimento comprado. Pela luminosidade que entrava numa fresta da janela, poderia dizer que horas eram. Pela sombra que corria ao longo do corredor, tinha condição de adivinhar exatamente o horário. Mesmo trancafiado, tinha plena convicção de como estava a temperatura na rua só de olhar para o teto. Vivi praticamente todo o período dos meus vinte e poucos lá dentro, desfrutando da companhia das mais diversas pessoas. De todo o tipo.

Sabe, no fundo eu acho que as coisas sempre foram fáceis pra mim. Acho que é porque eu nunca passei pela sensação de queda. Nunca tinha caído, estatelado com meu beiço no chão. É a velha história das necessidades e possibilidades. Fazendo um balanço do que eu sou nestes 28 anos, chego à conclusão de que sempre fui estável. Mesmo colégio no primeiro grau, mesmos colegas no segundo grau. Passei de primeira no vestibular e nunca troquei de faculdade. Estágio, contratado no primeiro emprego. Quase uma década neste emprego e aí…boom. A porrada. A primeira. Até então minhas decepções eram poucas. E todas as decepções foram com pessoas. Nunca uma instituição havia me dispensado por opção. Só pessoas. E prefiro acreditar que foram pessoas que dispensaram minha colaboração.

Nutro ainda um profundo respeito por este grupo que me formou para o mundo. Guardarei para sempre mágoas das pessoas que, de certa forma, fazem parte das decisões deste grupo. Uma incompreensão crônica, que vai tomar conta de mim cada dia da minha vida, num revés irreparável que o destino traçou para mim. E é impossível não ter a nostalgia de que por um longo tempo da minha vida eu dediquei tempo, saúde, vontade e orgulho por ter feito tudo que eu fiz. Se houver algum arrependimento, é de ter confiado em gente que não deveria.

Depois da queda, a gente refaz todo um percurso que chega a machucar. A oportunidade, a ascensão, a confirmação, a contestação, a dúvida, o descarte. E por fim, a incompreensão e vinte e um mil questionamentos. Somos apenas um número de matrícula? Sou incompetente? Irresponsável? Instransigente? Inconstante? Desobediente? Inconseqüente? FOLCLÓRICO? Sou tudo isso? Eu errei? Eles erraram? Tem um culpado?

Engraçado como se cresce rapidinho. Em uma semana, parece que eu me tornei uns vinte anos mais sábio. E mais humilde também. E é com profundo orgulho que defenderei a camisa de onde estou agora. Porque é meu jeito. Vou teimar, teimar, teimar em não aceitar isso, não aceitar que eu sou só um número de matrícula que não existe mais. Por mais que tenham esfaqueado minha auto-estima. Por mais que, pela primeira vez na vida, eu tivesse que olhar para o espelho e pensar: “Eu sou ruim no que eu faço?”. Não há sensação pior no mundo do que duvidar da própria capacidade, do próprio potencial.

O que me conforta um pouco é que não vesti branco no final do ano e nem dei tapinha nas costas de chefe. E também não cantei que a vida é mentira, é verdade. Mas concordo com o lema. Vida também é uma cadeira vazia.

February 12, 2008

O DIA EM QUE O GÊNIO CAIU

Um dos meus jogos preferidos de computador é o grande CHAMPIONSHIP MANAGER. Gosto da versão da temporada 2003/2004, antes que houvesse uma briga na corporação que desmembrou a franquia em CM e FOOTBALL MANAGER.

Neste jogo, você acumula as funções de técnico, vice de futebol e presidente de qualquer clube do mundo. Desde o RS Futebol até o Real Madrid. Começa com um certo dinheiro em caixa, recebe mais grana da bilheteria dos jogos, bônus com títulos, além do grande barato: poder dispensar, contratar e promover jogadores. Mexendo os pauzinhos no simulador, você pode, daqui a pouco, promover um garoto de 16 anos sem muita certeza de que ele será um craque. Ou dispensar um veterano de 36 anos, porque não está “rendendo mais”.

O poder virtual de ser o presidente de um clube de futebol, que nada mais é hoje em dia, do que uma grande empresa, mexe com o cara, que acaba se viciando nisso. Você faz o papel dos chamados MANAGERS. Lembro que ali por 2004 eu jogava todas as tardes esse jogo, por uns dois meses, até que meu time conquistasse o título mundial. E óbvio, contratando MUITOS jogadores e DIPENSANDO vários. Prazer danado esse. Coisa boa ter PODER, o sonho do ser humano. MANDAR. Melhor ainda quando se mexe com vidas. Decidir os planos, o futuro, agregar novidades, comprar, vender, descartar. Pessoas. No videogame eu gostava, um monte de gente gosta.

Os managers odeiam os gênios. Causam problemas demais. A obsessão dos managers é pela perfeição de suas próprias idéias aplicadas. Dispensar, contratar, trocar de posição, botar no banco, escalar. E depois o técnico dedica a vitória aos seus jogadores de função tática. Afinal, foi sua organização que venceu, com os seus aplicados comandados fazendo exatamente o que ele pediu. Os chamados cumpridores de função tática são aqueles que não comprometem, os que fazem direitinho suas funções sem reclamar, sem cometer atos de indisciplina, fazendo um feijão com arroz bem feitinho, com a receita do chefe e nenhuma pitadinha de sal a mais do que diz na receita. Enquanto isso, o “gênio” entrou na lista de dispensados, sai do clube e vai jogar em outro lugar. Mesmo que durante sete anos ele tenha resolvido as coisas dentro de campo.

Gênio é o considerado extra-classe. Aquele que acredita que alguma coisa não usual faz a diferença. Uma novidade, um momento de criatividade. Um pouco de filé pra juntar ao arroz com feijão. O problema é que os “gênios”, os “diferenciados” são complicados. Eles não seguem um padrão pré-estabelecido de conduta porque simplesmente acreditam que a sua própria conduta é a mais efetiva. E no final das contas, aqueles que indicam este padrão só querem enquadrar o cara. Entrar na linha. Mesmo sabendo que dentro de campo ele resolve, ele mete gol, ele faz a alegria da galera.

Com relação aos “gênios”, a gente nunca sabe o que pode acontecer. Em dia de inspiração, ele sozinho vale por todo um time. Em dia de repé, briga com todo o grupo e não desempenha bem seu papel em campo. Mas quando exigido, resolve. Em grandes momentos, cresce. Joga fora de posição. Joga em TODAS as posições. Joga BEM em todas as posições. Nunca quis ser um burocrata. Sempre amou o clube e já atuou machucado, só por amor à camiseta. Mas ele é rebelde, ele não assume, ele nunca se compromete. E ele não manda.

Os que mandam são os managers. Eles têm o poder e a curtição é mexer no time, trazendo cara nova, dispensando outros e regendo as leis internas a seu bel prazer. Enquadrando todo mundo e depois se olhando no espelho numa masturbação para as próprias decisões. Os managers contratam os fiéis escudeiros, que jamais vão contrariar uma decisão sequer. Cumprem direitinho a função e voltam pra casa ou continuam na empresa, produzindo mais e melhor e mais barato. Custo-benefício atendido. Mais grana no cofre do clube e no bolso do manager.

Os managers mandam com um falso ar democrático. Na verdade, democracia só serve para quem está no poder. No fundo, bem no fundinho, se trabalha ainda com o modelo da ditadura militar. Nomenclaturas, cargos, hierarquias, disciplina, enquadramento. Esconder a podridão e jogar versões oficiais como se fossem as definitivas. Os subversivos, os talentosos, os extra-classe, estes estarão sempre à mercê de uma porrada. O modelo militar é o ideal! Ordem e progresso. Ame-o ou deixe-o. Ou eles te deixarão.

Cansei de jogar o Championship Manager. Uma vez eu dispensei um cara do meu time e ele desandou a marcar gol pelo adversário. Me arrependi tanto que desisti do jogo. Ele era do time dos “gênios”. Ele nunca cumpriu bem a função tática. Tá na seleção brasileira.

January 5, 2008

2008

Filed under: comportamento, relações sociais, brasil - Carlos @ 3:39 am

Seis ficaram feridos com bala perdida perto de onde eu estava no Rio de Janeiro, precisamente em frente à Rua Hilário Gouvêia, na areia de Copacabana, a uns metros do palco montado para a festa de fogos mais linda que eu já vi. Um dos feridos estava entre a Santa Clara e a Constante Ramos, três quadras de distância.

Eu não vi nenhum ferido. Aliás, eu nunca vi tanta gente. E não vi nenhuma briga. E nunca vi tanto policial na minha vida. Os fogos são lindos. O DJ Marlboro entrou no palco e Copacabana virou um grande baile funk. Não tive mais dúvidas. É da cidade maravilhosa que vêm as novidades mais agradáveis.

O Rio de Janeiro continua lindo, intenso e perverso. É impossível andar pelas ruas da capital carioca sem se sentir parte de alguma coisa. É impossível voltar lá e não se surpreender com alguma coisa. Sempre há uma novidade, uma sensação de medo que a mídia passa misturada com a satisfação de ver paisagens belíssimas contrastando com um ritmo frenético que a cidade te proporciona.

Desta vez, resolvi não fazer resoluções para o ano que chega. Só pegar leve, mas é difícil, é um exercício constante de (im)paciência. Não fiz planos, faz tempo que não faço planos. Não pedi nada. Passei de branco e uso uma fitinha que serve de “guia” (proteção). Resolvi me agarrar em alguma coisa e só pedir que as coisas fiquem bem. Bem leves. Soltas.

Não vou me enxergar daqui a quatro anos. Deixa assim, deixa levar, empurra aqui e ali que tá beleza. Uma falta de ambição por vezes é necessária para olhar pra dentro e resolver algumas INTERNAS.

Sem estes planos mirabolantes, tudo o que eu quero é minha casa em Atlântida Sul. Depois disso, eu vejo o que 2008 me reserva. A única esperança é que meu retrospecto ajuda. Os anos mais importantes da minha vida foram 1993, 1998 e 2003. O ciclo fecha em 2008. Só não sei exatamente quando chega o dia e nem qual mudança vai acontecer. Mas como eu não pensava também nos três anos nessas coisas, tá beleza. Acho que a guia vai me indicar algum caminho, sei lá.

September 20, 2007

A NOVA NOVELA DAS OITO (ou um texto completamente sem sentido)

Filed under: comportamento, relações sociais - Carlos @ 8:48 pm

Algumas coisas que eu tenho visto ultimamente são dignas de um folhetim de novela das oito. Quando eu era menor, eu não conseguia acreditar que executivos possam beber uísque todo o dia, por exemplo. Eu via nas novelas. Se eu tomar um dia, no outro eu fico inútil. Convivendo melhor com o mundo adulto, vi que isso existe. Outro caso são os vilões, na maioria estereotipados. Tal como nas novelas, eles estão entre a gente, talvez fazendo menos maldades do que uma Odete Roitman. Mas existem, principalmente, jogando para tudo que é lado.

Citando um ex-governador gaúcho, em uma entrevista com um certo fervor descompassado, eu digo pra vocês que eu posso ter todos os defeitos do mundo, mas eu tenho posição definida. Pra tudo. Eu sei o time que eu jogo, sei a posição em que eu atuo. Jamais faria qualquer tipo de lobby para simplesmente usar isso ao meu favor ou tirar um proveito, mesmo sendo uma informação privilegiada. Sou meio ruim de fonte, mas bom de consciência.

Se eu fosse menos duro, eu seria mais bem sucedido, tenho certeza. Meu marketing é péssimo. Meu jogo de cintura é similar ao de um siberiano no carnaval de Porto Seguro. Meu senso de perdão até é razoável, mas depende da situação. Jogo duplo, por exemplo, é imperdoável. Por essas razões, eu não consigo entender o fato de alguém, por exemplo, não gostar de uma pessoa e conseguir comparecer ao aniversário da mesma. Aniversário não é obrigação, é celebração, homenagem a alguém querido. Jamais eu faria uma presença política em algum evento desses, exceto quando obrigado. Mas não foi o caso.

Nunca utilizaria como desculpa um fator externo para esconder, apagar, mascarar um desejo pessoal. Os outros não têm nada a ver com os instintos pessoais. Como o tal de senso de preservação das pessoas já foi por água abaixo, que pelo menos sejam honestos com quem lhe confiaram a palavra. Isso eu serei sempre. É a síntese do que eu considero honestidade. Desejos pessoais às vezes esbarram na liberdade alheia. É quando a honestidade fala mais alto. E o pior tipo de desonestidade é o jogo duplo, a falsidade em estado bruto.

Perguntaram pra aquele cidadão que ficou tirando fotos de todo mundo numa festa grandiosa que a cidade recebeu aí, há umas duas semanas, se ele não tinha vergonha do que fez. Ele disse que não. Que não havia feito mal nenhum. Que tudo o que tinha feito era simplesmente brincar com as pessoas, sem nenhuma maldade. Que não tinha o que esconder, era escancarado e se de alguma maneira alguém se sentiu ofendido, que seria o primeiro a pedir desculpas. Ele está certo. Vergonha é bater nas costas de uma pessoa que você não gosta. Aliás, sempre desconfie de recados que chegam mais entusiasmados do que o normal, do tipo “AMIGOOOOOOOOO” ou “SAUDADEEEEEE”. Saudade se mata, desde que esteja perto. Sempre se dá um jeito de matar a saudade. Amigos não se tratam o tempo todo por “AMIGOOOOOOOOO”. Amigos se tratam com naturalidade, numa confiança mútua conquistada ao longo do tempo e com provas de risco que pudessem ter comprometido esta amizade, mas foram atravessadas apesar de qualquer fator externo que possa ter.

Eu não agüento mais o muro. É por isso que ando adotando essa prática de falar tudo o que eu penso a respeito de todo mundo. Eu sei que se um dia eu cair, no máximo cinco pessoas estarão me segurando. As mesmas que eu vou segurar quando caírem. E que eu depositei toda minha confiança. Não tem nenhuma novidade no meu círculo de confiança. Por mais que eu goste e admire mais gente do que estas cinco pessoas, não vou entregar o ouro assim, na maior, sem uma demonstração mais forte de HONESTIDADE em troca.

Só me chateia a sensação de decepção. É violenta. Porém, é um incentivo para manter com as pessoas uma relação superficial. Não uma relação de aparências, porque esta eu não consigo. Superficial apenas. E não adianta, quem pisou na bola, só me provando o contrário vai ter de volta o meu abraço. Um pedido de desculpas não me basta mais. É necessária a ação. Enquanto isso, eu contrario o MESTRE que um dia falou: “Eu é que não digo mais nada”. É o que eu tinha vontade de fazer, mas se alguém se cala, como que a gente fica? Eu não me calo, eu falo e não tolero.

Enquanto isso, eu sigo escrevendo esse folhetim que tá rolando. Meu hobby sempre foi desvendar as intimidades das relações humanas e as razões que levam o indivíduo a tomar certos caminhos. Olho assim, de fora. Mas beijando a camisa de um clube só.

August 22, 2006

SÍNDROME DE PETER PAN

Filed under: comportamento, relações sociais - Carlos @ 5:09 am

E então, vamos falar um pouquinho sobre intensidade. O que significa intensidade? O que é ser intenso?

Vi mais uma vez “Finding Neverland” e descobri que as crianças são intensas. Talvez não na hora de estudar, mas também não sei se é tão importante para as crianças que elas levem a sério os estudos. É bom pra questão de sobrevivência futura, quando já não se é mais tão intenso assim. Mas eu não lembro de algumas coisas quando era criança. O sofrimento infantil só se assemelha ao adulto na questão da perda. No mais, tudo muda. Por aqui, há um tédio, a cobrança, o limite, diversas regras e concessões que somos obrigados a fazer na busca por um bem comum maior. Crianças não são assim. São proibidas de brincar depois das nove, mas aí elas deitam a cabeça no travesseiro e imaginam. E voltam a brincar, e a jogar, e a encarar desafios virtuais tão gostosos e distantes dos nossos desafios diários. E, cá pra nós, bem menos dolorosos.

Crianças são intensas. A intensidade livra o tédio, rompe limites, cruza a fronteira do real com um mundo cheio de possibilidades imaginárias, que elas pensam que serão verdades absolutas quando crescerem, mas mal sabem o que espera.

Adulto intenso é conto. Adulto não é pra ser intenso, não é pra imaginar. Adulto não tem sonho, tem meta. Tem desejo, tem objetivo, tem busca por algo. Não se sabe o quê, a longo prazo, mas é aquela balela de sempre. Quando não é isso, o adulto apenas diz: viver. Viver, claro, ótimo, cara pálida. E ah, ser intenso a cada momento. Me mostra a tua intensidade então. Nah, é trova. Adulto feliz é aquele que estabelece de fato sua meta, a fim de cumprí-la o mais rápido possível. Geralmente vem uma meta por mês, e a bola de neve vem com dinheiro na conta e menos dinheiro três dias depois.

Ultimamente, confundem intensidade com porra-louquisse. Não é a melhor postura (conduta) a se exercer. Quer saber o que é um adulto feliz? O que fez as coisas certas sem derrapar na curva. O que estudou, trabalhou, já fez filhos e se estabilizou. O resto quer ser intenso, mas aí se percebe que já não é criança pra ser intenso e vira um punhado de clichês folclóricos, coleciona inimigos pelo simples prazer de se achar importante pra eles, acumula uma porrada de histórias que não levaram a lugar nenhum e acaba vendo filme de madrugada, sozinho, ou quem sabe, colocando os pés pelas mãos e perdendo pessoas importantes.

O adulto interessante é o convicto. Tipo um amigo meu. Dentista, vai casar. Ele não fez crônica alguma que não rendeu nada além de inflar um ego abalado. Ele toma café, vai trabalhar, volta pra casa e vai ter filhos. Vê a novela das oito, joga futebol com os parceiros do trabalho, vai pra praia no final de semana e retoma uma rotina de ambições, mas não obsessões. E pior, ausente de obsessões a respeito do próprio ego. É seguro. Só os anônimos são seguros.

Muita luz pode deixar a gente cego. A vontade de estar na luz já traz seus efeitos colaterais: uma ressaca filha da puta, uma pesquisa no google sobre preço de passagem aérea pra Europa e saber quando vai ser a próxima festa no Ocidente. Sai da luz, mete água nos olhos e aí tu enxerga alguma coisa. Enquanto isso, fora da luz, eles estão se divertindo como gente real. E você, intenso, está no meio dessa solidão, numa noite fria, coberto de remorso e indecisão.

E aí, tudo que eu quero é ser este sujeito, que tá indo pra Mostardas pescar no sábado, vai ser pai no ano que vem e toma iogurte pra dormir às dez da noite.

April 12, 2006

VENDENDO MILHO NA PIPA

Filed under: relações sociais, brasil - Carlos @ 4:30 pm

Fiquei sabendo que não há milho verde para vender em Pipa(RN). Confesso que esta falha gastronômica na praia não foi notada por mim quando estive por lá, exatamente nos dias 13 e 14 de dezembro de 2003. Pipa, naquele final de semana, foi uma ida de van do albergue de Natal, uma noite num lugar chamado(talvez) Candango, contatos com sul-africanos, israelenses e argentinos, estréia da Nova Schin comercialmente(e um trago de destilados, por conseqüência), turistas bêbados, pousada espelunca de dez reais, passeio pela rua, descanso debaixo de coqueiro, mar, tentativa de ver golfinhos, ressaca curada ao cheiro de cana de açúcar na volta a Natal, chegada, Ponta Negra e sono.

Pipa lembra Bombinhas(SC) em alguns aspectos: uma rua principal, cortada por várias perpendiculares menores, a faixa estreita de areia, um certo congestionamento no final do dia, algumas galerias, bares, restaurantes e uma infinidade de lojinhas de roupas e artesanato local. Jamais iria reparar no maldito milho verde que falta em Pipa. Mas, descobri, não tem milho verde para vender. Tem tapioca, açaí na tigela, suco de frutas locais, camarão no espeto, mas falta milho.

Pipa pertence a Timbaú do Sul, que tem a chamada Baía dos Golfinhos. De acordo com o IBGE, Timbaú do Sul tem 8.867 habitantes fixos. Na alta temporada, apenas Pipa deve abrigar 50 mil pessoas. Nos finais de semana, com o movimento nômade que vem de Natal e João Pessoa, esse número deve aumentar. Ainda há um fator considerável: como não chove, como é quente quase todo o ano, o fluxo turístico é permanente, diminuindo um pouco na baixa temporada.

Aí está a visão empreendedora: se não tem milho verde em Pipa, pois que se comece a vender milho verde em Pipa. Milho verde alimenta, é saudável, não pesa e agrada aos gringos. Não precisa de grande infra-estrutura. É só comprar uma carrocinha, um fogareiro, água, caprichar na escolha dos milhos e colocar um que outro lance de marketing pra que funcione o esquema.

“Liberdade é o sentimento que ninguém sabe explicar, mas todo mundo entende”
(Ilha das Flores)

Não é muito fácil falar sobre liberdade, ainda mais porque não há uma definição exata sobre isso. Sentir-se livre é algo que volta e meia acontece com a gente. Ser livre, isso nunca ocorreu.
Lembro de dezembro de 2003. Lembro de Pipa, da falta de milho verde e da caminhada que fazia enquanto ouvia músicas duvidosas num walkman, olhando para o mar, pisando na areia, sem olhar no relógio, sem dar nenhum tipo de satisfação, com um despreendimento único e a sensação de que o mundo pode ainda ser pequeno para as tuas pretensões.

Isso é se sentir livre. São sentimentos passageiros, que às vezes duram um pouco mais, mas que logo ali, acabam sumariamente. E são duas as coisas que fulminam o sentimento de liberdade: a intimidade nos relacionamentos, que demandam exigências posteriores, e o sistema em si, que nos enfia goela abaixo uma vigilância e uma prestação de contas.

Sou a favor de qualquer intimidade. Não somos sozinhos, somos seres sociais, e logo estas relações, interações, são necessárias para uma convivência saudável. No entanto, a partir do momento em que se tem uma relação íntima com uma pessoa, temos igualmente uma sensação de obrigação com ela. Como se fôssemos obrigados a dizer a estas pessoas o que estamos fazendo, sob pena dela aprovar ou reprovar. Somos todos vigilantes do nosso próprio círculo.

Se formos bem cruéis, rudes, grotescos, chegamos à conclusão de que as agressões pessoais e emocionais(não físicas, financeiras), as chamadas injúrias, calúnias, difamações, em um contexto público, não afetariam o ser humano fosse ele um ser desprovido de qualquer intimidade. Logo, é subjetiva a afirmação de que a gente não possa fazer determinada situação em nome da integridade moral do colega ao lado. Tanto é verdade que, em maioria dos casos, quando isso acontece, é superado. Mas aí entra a seguinte questão: como seres coletivos, somos ensinados a ter uma determinada “ética moral”, uma penca de “questões de bom senso”, uma variação de “costumes que são utilizados”. Não há, neste caso, uma simples liberdade de ir e vir. É aquela história: liberdade termina quando afeta o próximo. Ou acaba quando a própria moral é abalada. É uma questão normal, e de princípios. E o certo é deixar a consciência em paz, porque certamente, essa é uma liberdade que trará conseqüências marcantes na tua própria moral e ética.

Já o sistema fuzila tua liberdade pela imposição natural das situações históricas e culturais. Qual vida você prefere? A de vendedor de milho verde na praia da Pipa ou a de jornalista? Numa, você tem um sol, um mar, uma desopilada de meia em meia hora pra tomar um banho, uma iminência de praticar exercícios físicos a qualquer momento, mas os compromissos não páram: dificuldades em manter um padrão alto de vida, dívidas freqüentes, razoáveis condições de moradia, uma desistência quase que completa de tecnologias novas, abandono de diversos sonhos de consumo e nenhuma aspiração maior do que apenas aumentar o negócio. Ou ir pra “capital”. Ou ter o sonho de ter a outra vida. A vida do jornalista, por exemplo, onde não se tem tempo, não se tem grandes dinheiros, onde se está num círculo vicioso irritante, de joguetes, de mesquinharia, de alta tensão o tempo todo, de pouquíssima qualidade de vida, mas um padrão econômico-social bem melhor do que o de vendedor de milho verde em Pipa.

Eu levo a segunda vida, e com todas as restrições de liberdade que ela pode ter. Éticas, morais e de sistema. Não somente eu, todos nós. Ou quem não gostaria simplesmente de matar o trabalho, um dia, só por pura e simples vontade? Mas o compromisso, a responsabilidade, fala mais alto. Então, a gente imagina a liberdade. Pipa é o meu estado de liberdade. Minha vontade, meu despreendimento total. Meu olhar no pôr do sol, meu refúgio. Meu imaginário. Minha ilusão. Pipa é minha utopia, o impossível que nunca vai dar certo, simplesmente porque Pipa fica muito longe e porque não sei se daria exatamente certo vender milho por lá. É um ponto de interrogação gostoso. É um desejo.

É muito gostoso se sentir livre. É bom por uns poucos instantes do dia ficar pensando nas areias de Pipa. Em como seria a logística do milho verde. No sol queimando a pele, na atividade que poderíamos exercer, em criar filhos com nomes curtos e simples, na vida simples, nas amizades simples e nas brigas simples. É bom demais fugir dessa complicação e, do nada, ser teletransportado para a areia de Pipa e ter como preocupações coisas tão diferentes das que eu tenho hoje. Com a consciência limpa, o pulmão limpo e a liberdade introjetada.

Seria bem mais fácil se eu desistisse dessa idéia, abandonasse esse estado de espírito e fosse agora pagar minhas contas. Mas eu faço isso depois. Dá tempo pra tudo. Pra sonhar, pra ter os pés no chão e pra não se preocupar com o dia seguinte. Dá pra ser responsável e ser livre. Não sempre, mas por um momento. Acabar com o sonho de Pipa seria uma definição, uma conclusão, um fim. Deixa Pipa entrar, por mais ilusório que possa parecer.

Eu tenho umas quinze páginas pra escrever hoje. Ainda tenho um programa sobre a Copa do Mundo e um programa especial de uma hora e meia no sábado sobre o Campeonato Brasileiro. Produzo e apresento. Tem a Boca do Lixo. Tem Volta Redonda x 15 de Campo Bom, estou no jogo. Tenho que pagar o Renner. Se as coisas apertarem, eu penso novamente na Praia da Pipa. Mesmo sabendo que este lugar, tão complicado de ser alcançado, está a quilômetros longe de mim. Mas eu imagino. E faz bem. Bem. Bem. Vou imaginando Praia da Pipa até me dar conta de que é impossível de ter essa vida. Até o dia em que a gente possa definir situações. Por enquanto? É bem melhor não definir as coisas. Sem definições.

March 28, 2006

A BANALIZAÇÃO DA SAUDADE

Filed under: comportamento, relações sociais - Carlos @ 4:27 pm

O caso é verídico, mas obviamente não citarei nomes, velha história de preservar identidades e ocultar fontes. Defeito pra uns, qualidade pra outros(afinal, consigo me manter informado), eu sou um dos grandes fuxiqueiros do orkut. Verificando alguns scraps, eu consigo perceber uma sinalização quase patética de algumas pessoas em afirmarem a amizade com as outras por base de palavras de incentivo que beiram a babaquice. Vou explicar.

Eu sou um cara simpático até certo ponto. Não tenho vocação que algumas pessoas têm de ser o que eu chamo de “Rainha da Festa da Uva”. Saca, a princesa gringa polenteira, vermelha, maquiagem já borrada, tendo que ser atenciosa com todos, abanando pra multidão com um sorriso forçado? É, não sou assim. Às vezes, há uma falta de compreensão no modo com que encaro minhas relações. Eu sou legal a princípio, mas não gosto de encher as pessoas de elogios descabidos apenas pra comprovar, de fato, que eu gosto dela. Não é comigo. Então, o que eu escrevo ou falo a respeito, vem com uma sinceridade absurda.

Também sou um profundo crítico das relações e das pessoas que me cercam. Afinal, a gente realmente anda com quem quer? Ou simplesmente se move porque precisamos? Na verdade, é simples, e mesmo assim, é encarado por todos como defeito: se eu não gosto, não demonstro. Não preciso tratar mal, não tem porque romper as coisas. Só não gosto e ponto final. Sempre haverá um motivo(afinal, quem é unânime?). Às vezes é pura antipatia à primeira vista, pode ser uma rejeição da outra pessoa pelas tuas condutas, ou, em algum caso, a pessoa te tratar mal ou ter feito algo bastante grave a ti. Nestes últimos casos, elas abrem precedentes pra que eu fale mal delas.

Pelo lado positivo, não gosto mesmo de declarações diárias de amor, de elogios enlouquecidos aos outros, esse tipo de coisa. Prefiro somente ser legal, tratar bem, sorrir e ser solidário. Aí está a palavra chave. Solidariedade. Os atos de espontênea vontade que têm como intenção ajudar o próximo são bem menos valorizados do que as palavras de carinho. Quer dizer, ajudar é bem pior do que puxar o saco, simplificando a situação. Babar o ovo segura amizade sim senhor. Bajular, encher a bola, passar a mão, tudo isso conta bem mais do que apontar erros, indicar direções, criticar buscando um aperfeiçoamento.

É quando a honestidade é deixada de lado em troca da política de boa vizinhança. É como se apaixonar por um político pelo número de beijos em crianças que ele dá na campanha. É preferir quem esconde o próprio sentimento buscando não interferir(e nem contribuir para a melhora) do ambiente do que estourar e nisso acontecer um resultado que todos aproveitem.

Toda essa desconfiança nas relações se reflete em atos basicamente de pura carência de sentimentos. É preciso provar a todos que eu gosto dele, dela, e vice-versa. E mais, pra que ele/ela acredite nisso, é melhor contar pra todo mundo. Eu até entendo quando as pessoas trocam recadinhos diários jurando amor eterno em alguns casos, como casais que estão começando namoro ou casais apaixonados ou ainda quando se está a fim de ir às chamadas “vias de fato” com alguém. O “te amo”, “te adoro” e “saudade” tem sua importância e até é fundamental para a consolidação da imagem para com o outro, já que é preciso solidificar a relação e fortalecer o convívio.

No caso de amizades recentes, tem dois casos: ou é hipocrisia ou é deslumbramento. O deslumbramento é fácil de identificar. É óbvio que na nossa trajetória a gente cruza com pessoas extremamente interessantes. E não necessariamente pessoas que despertariam nosso interesse sexual ou amoroso, mas pessoas que a gente admira ou gosta de estar. Por que diabos então, não demonstrar isso com atitudes discretas, com a doação de sentimentos? Por que temos que confirmar o “te adoro” o tempo todo? Acreditem, amizades que começam com um “te adoro” constante em todo momento não duram. Pelo menos comigo, não colou. Deslumbramento, que passa. Normal. Hipocrisia é quando o “te adoro” tem como intenção se valer da pessoa para seu próprio bem. Tirar algum proveito, usar da boa vontade para suprir uma carência, que não se sabe lá de onde vem.

Agora, a manifestação mais hipócrita de todas é a “Saudade”. Dizer “saudade” para alguém que eu vi há dois dias é de uma falsidade gritante. É meio frio esse pensamento, eu sei. Talvez até amargo, e de se pensar que eu não tenha saudade. É claro que eu tenho. Todo o tempo, de várias pessoas, de situações, de fatos. Mas eu não me sinto a vontade em colocar isso publicamente. Para os outros. Não, isso não existe.

Então, pensem bem quando forem manifestar saudade pra alguém. Ou um sincero “Eu te amo”. É preciso convivência, é preciso cumplicidade e conhecimento completo da pessoa para que estes sentimentos existam. No resto, ou se quer CONQUISTAR a pessoa ou é deslumbramento puro. Já passei da fase de me deslumbrar com as pessoas. Por mais que haja uma simpatia impressionante logo de entrada, jamais sairia dizendo a ela que estou com saudades e que o convívio com ela é viciante. A saudade só se torna palpável quando se tem uma longa estrada percorrida de intimidades e vivências.

E o mais interessante: quando é o deslumbramento, enquanto mais se convive, menos manifestações ocorrem. Ou mais: quando alguém que antigamente pertencia a esta “panelinha”, é simplesmente deixado de fora porque não conseguiu se deslumbrar. Ou apenas porque foi sincero. É, sincero, honesto e comedido na troca de afetos. Para se inserir no contexto, é preciso “dar a graça”.

Eu até pareço antipático, mas meus amigos não acham. Eles me conhecem e sabem que quando precisar, vou estar apto a elogiá-los, auxiliá-los e ser gentil com eles. Ser humano: às vezes estamos bem, outras vezes estamos mal. Quando se trata alguém que se ama bem o tempo todo, é porque alguma coisa está errada. E até o teu amigo saberá perceber que não é o teu dia, e ele irá ajudá-lo na maior sinceridade do mundo.

Uma última sobre estas pessoas: elas são pouquíssimo interessantes. Necessitam da atração dos outros por motivos basicamente imbecis. Não têm o mínimo charme, um sarcasmo necessário para que haja o interesse, são sem sal, sem gosto e sem paladar. Saudade? Por que? Por que ela te deixa com saudade? Porque é legal! Ah… ok. E ainda, são voláteis. Hoje, a saudade, amanhã, difamação geral por falta de compreensão do erro humano. Afinal, é preciso manter a boa vizinhança, correto? É preciso manter o “ti adoruuu”, a “saudadeee”, e se isso acaba, já é um motivo certo para que a relação morra. Viva a falsidade, não?

Meu ponto de vista provavelmente seja amargo demais e isso poderá gerar uma compreensão errada dos fatos. Mas tudo bem, não estou aqui pra fazer média com ninguém. Ódio, rancor, amargura? Nada disso. Somente o olhar de fora, de espectador, feito por alguém que não acredita que as relações sociais estejam no PAÍS DAS MARAVILHAS. Já pensei diferente. Hoje, estou me doando a quem está adepto à cumplicidade e à honestidade. E, ao contrário do que possam imaginar, gosto muito de conhecer novas pessoas e fortalecer novas amizades. Sem bajular. Só conquistar por méritos próprios, por empatia e atos. Pra que, depois de um longo tempo, eu possa sentir e afirmar, em letras garrafais, que eu estou com SAUDADE dessa pessoa. Antes? Como? Se eu mal a conheço.

March 8, 2006

DIA DA MULHER

Filed under: relações sociais, amor(?) - Carlos @ 4:09 pm

Ao contrário do que muita gente pensa, não acho uma bobagem a comemoração de datas estipuladas em homenagem a determinados assuntos. Gosto do Natal. Mais ainda de celebrar o Ano Novo, que simbolicamente é o início de uma nova caminhada. Acho válido o Carnaval, a Páscoa, Independência, Proclamação da República, Finados. Feriados que quebram uma rotina, concedem uma respirada. Não sou aquele hipócrita que argumenta que feriados atrasam nossa economia em um dia, que o importante é a produção, o trabalho, etc. A reflexão também é necessária para nossa evolução, e às vezes ela pode se dar através de uma simples pausa. Como num feriado.
Além disso, valorizo as datas. Somos a soma dos nossos dias vividos. Portanto, se lembrarmos de datas exatas, ou anotarmos, saberemos que determinado dia foi especial. Faço isso. Se puxar 23 de dezembro de 1994, sei que teve Brasil x Iugoslávia no Estádio Olímpico. Que fui no jogo, e, apesar de não ter acontecido nada de extraordinário, foi um dia especial, pelas amizades, pela cor, pelo calor e pelos acontecimentos. A lembrança é minha, e não necessariamente as coisas aconteceram daquela maneira.

“Nunca se conta a história do jeito que aconteceu, mas sim do jeito que a gente se lembra” (Charles Dickens, Great Expectations)

Para mim, o dia teve a coloração azul. Mas poderia ser amarelo.
Não vou aqui ficar discutindo a respeito das supostas igualdades entre homens e mulheres. Como todos sabem, sou defensor de uma cultura que se estabelece há séculos, e que convenientemente me favorece. Homens, mulheres, crianças e idosos, pelas diferentes capacidades físicas, emocionais e estruturais, devem ter seus privilégios e suas restrições. Seres humanos são iguais, mas quando há uma diferença biológica, há sim de haver uma distinção entre eles. A separação de direitos, valores e comprometimentos não se dá pela cor, gosto ou classe social. Se dá pelas diferenças biológicas. Portanto, creio que as igualdades gerais são absolutamente utópicas.

Não gosto de copiar texto. Entretanto, há exatamente um ano, o Cardoso escreveu algo sobre as mulheres que representa exatamente o que eu penso a respeito delas.

Não tem nada na minha vida que seja mais importante que a MULHER.

E não falo com meu FALO quando disso falo: não é só da EROGINIA feminina que está contaminado meu interesse. A verdade é que há quem muito me estranhe quando digo que eu mais gosto é do PROBLEMA. Do AZUCRINO. Da DEMORA. Da DIFERENÇA. De tudo aquilo que eu não tenho.

Eu não sei nada sobre a mulher, mas eu gosto de pensar que estou aprendendo. Gosto de olhar pra ela. Observá-la. Fazer de conta que entendo o que estou LENDO nos sorrisos, no triste das sobrancelhas, no ângulo do queixo que me aponta, nos ruídos estranhos que emite quando quer e quando não quer dizer alguma coisa. Fico prestando atenção pra saber o que fazer no próximo movimento, mas, no próximo movimento tudo MUDOU, tudo é diferente, eu sou, novamente, ignorante.

Eu gosto de manha, de birra e pirraça. De esperar meia hora um trocar de vestido. De errar por quilômetros meu caminho. Gosto de cuidá-la doente, fechar os olhinhos insones, ouví-la roncar noite afora. Gosto de sentir cheiros e sabores causadores de rubores, conhecer os mais vexatórios pormenores, abraçá-la com medo ou com dores.

Gosto de comprar flores. Preparar pratos simples e delicados, grandiosos e complicados. Fazer massagens. Ouvir gemidos. Sabê-la alegre e sabê-la louca. Gosto do gosto da boca e do jeito que ela me vê e que me toca. Gosto de comprar pipoca e entradas pro cinema. De antecipar as preferências, fazer surpresas, limpar a casa, lavar a louça, botar a mesa. Gosto de ter dúvidas e de ter certezas.

Gosto dela.

Ela já não gosta mais de mim.

Mas eu gosto dela mesmo assim.

É isso que eu penso.
Dizem que eu sou machista. Dizem que eu sou homofóbico. Dizem que eu virei covarde. Dizem que eu fiquei amargo, ou azedo. Ou que eu me esqueci. Ou que eu não sei mais. Dizem que eu as considero inferiores.
Apesar da minha divergência com algumas mulheres, eu ainda sou romântico. Talvez a negligência destas qualidades e a necessidade de algumas delas em provar não sei o quê na base do custe-o-que-custar façam com que, às vezes, eu seja tão contrário a certas atitudes. Mas no final das contas, a essência feminina é insuperável.

Pois como disse o Cardoso, e nisso eu assino embaixo:

Não tem nada na minha vida que seja mais importante que a MULHER.

E acrescento: se um dia houve felicidade plena na vida de um homem, só foi por causa de um motivo.
E você sabe qual é. Mesmo fazendo a gente de bobo, vocês são demais.

February 24, 2006

CAMA DE GATO

Filed under: comportamento, relações sociais, cinema - Carlos @ 11:24 pm

A proposta narrativa de “Cama de Gato” é a simplicidade, metalinguagem e tosqueira das cenas. Talvez o diretor, Alexandre Stockler, quisesse dar um realismo maior ao que é colocado na tela. Como o Dogma 95, ele denomina o filme como sendo do movimento TRAUMA, a versão tupiniquim da corrente gringa. Justamente por este tipo de artifício, poderia haver um choque gigantesco quando se assiste ao filme.
Particularmente, sou avesso a tais inovações cinematográficas. Pelo menos as novidades “estéticas” que o cinema apresenta, volta e meia. Não gosto do minimalismo na tela. Prefiro as inovações nos roteiros do que na condução dos quadros. Gosto mesmo da TELA CHEIA. Orson Welles, por exemplo, provou isso, em vários de seus filmes, caracterizando a grande revolução cinematográfica do século. Logo, não houve choque. Nem na falada cena do estupro.

O que menos me impressionou, portanto, em “Cama de Gato”, foi a estética. Já vi isso, não choca, não é impactante, e poderia até mesmo ter sido contato de outra forma.
Ele fala sobre três rapazes de classe média que aparentemente fazem a mesma coisa que qualquer um de nós faz: estudar, não se importar e se divertir. Ao longo de um dia, a irresponsabilidade e a inconseqüência vão tornando os acontecimentos trágicos, até o final da trama.
O filme é bom. Eu gostei. A minha justificativa será apresentada abaixo, para que entendam do que eu estou falando. Acompanhem.

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Até onde vai o limite para a nossa diversão?
O que estamos aptos a fazer em troca da diversão?
O que você daria em troca de diversão?

A nossa geração virou escrava da DIVERSÃO. Nada é mais absoluto, mais grandioso e que valha mais a pena do que a DIVERSÃO. É uma ditadura das luzes. A felicidade só é alcançada através da diversão, custe o preço que custar.
O fenômeno da DIVERSÃO A QUALQUER CUSTO se dá pela falta de identidade que a nossa geração passa. Acreditem, os anos noventa acabaram, mas esta ausência de personalidade nossa ainda faz com que estejamos vivos na década passada. As gerações anteriores tinham um monstro bem vivo para se lutar contra. Ditadura, esperança, descobertas, medos relativamente novos. Nos 50, a rebeldia juvenil. Nos 60, a liberação sexual. Nos 70, a luta contra a opressão. Nos 80, o medo da AIDS. O que sobrou para os 90? E o que restou para os 00? Consolidação de uma identidade formada ao longo dos tempos? Para quem viveu estas décadas, talvez. Mas para nós, que crescemos nos 90? E ainda: para os JOVENS de hoje, os que começaram a descobrir as coisas a partir do início deste novo milênio?
Não nos restou nada para fazer. Um profundo vazio, uma sensação de que nada incomoda e nada satisfaz. A esperança numa convivência melhor é completamente obstruída por um consumismo desenfreado. Uma valorização do EGO, do EU. Uma competitividade cruel, e a única forma de se sobressair é colocando o umbigo acima de todas as coisas.
Logo, nunca vai haver a sensação de dever cumprido. Nós não temos um monstro para enfrentar. Se existe o monstro, a gente não conhece a cara dele. É a história das necessidades e possibilidades. A nossa geração possui uma gama completa de possibilidades, ao contrário das outras. Anteriormente, havia muito mais necessidades. Necessidade da mulher se expressar, necessidade de uma liberdade de falar e ser ouvido, necessidade de controlar desejos por causa de uma epidemia, necessidade de ser simplesmente aceito. Ainda temos estas? Não. Isso nos dá possibilidades de fazermos mais coisas, realizarmos objetivos próprios e atingirmos metas mais complicadas. O SONHO ESTÁ AO NOSSO ALCANCE. Motivo: MENOS NECESSIDADES. MAIS POSSIBILIDADES.
No entanto, com menos necessidades, cresce a angústia. Do quê eu preciso? Qual é a nossa esperança? Angústia que vira vazio e a resposta para achar o pote de ouro é essa que vem na tua cabeça: ORA, SE NEM TEMOS NADA PARA NOS PREOCUPAR, SE NOSSO LEGADO É SÓ IR A FAVOR DA MARÉ… VAMOS NOS DIVERTIR!!!

O ser humano é insasciável por natureza. Com tantas possibilidades, há muito o que fazer. E com tanto vazio, um objetivo é achar estas possibilidades. A preocupação com a diversão seria inofensiva, não fosse o efeito colateral disso tudo. Estas mil possibilidades referidas por mim fazem com que uma certa sensação de impunidade paire sobre a gente. Como não há nada que impeça, viva a diversão, e a gente só para quando algum limite chegar. Como jovens não conhecem limites, e essa livre consciência dão esta impressão, a coisa vai ficar preta quando REALMENTE houver uma necessidade.

O limite é cruzado normalmente. Ao ponto de o cara que sai se cuidando pra não dirigir bêbado ser chamado de, simplesmente, “VELHO”. Ou o outro carinha que trabalha como um condenado ser sugerido pelo “AMIGO” de largar o emprego pra “CURTIR A VIDA”. É, “CURTIR A VIDA” tem sido engraçado pra nós, não é mesmo? Ou o cara que comeu a mulher do melhor amigo, mas que fez isso em nome da diversão, desconsiderando o fator amizade. O fator família então, este é pisado, passado por cima. As relações se deterioram conforme o andar da carruagem, ou conforme quantas tequilas a gente tomou, ou qual a droga a gente ingeriu. Em nome da diversão, vale o MOMENTO. Sem grandes preocupações futuras. Sem dramas passados. Aí, a gente faz o seguinte: pega a consciência, deixa em casa antes de sair pra rua, toma uns trecos pra não se lembrar de que ela ficou em casa, e só se deixa levar. Pelo momento, tudo no momento: a música do momento, a droga do momento, os falsos amigos do momento, a buceta do momento, a pica do momento. Ali, aqui, agora. Impune. I´m a golden god. EU. FODA. Ao meu redor, nada.
No que acreditar? Qual a razão da luta? Em nome do quê? Da DIVERSÃO. E para atingí-la, para me sentir no topo dos felizes por um minuto, vale tudo.

Vocês acham que eu exagerei? Que tipo de contestação real se encontra na maioria dos blogs? O que é mais corriqueiro a não ser postar foto do que se quer comprar, do resumo das férias e de fotinhos felizes com turminha razoavelmente bêbada feliz em fotolog colorido?

Talvez a desesperança é tão velada e inconsciente que a gente anda acreditando que a vida é cor de rosa. Então, que a gente vá se divertindo. Indo pra cá, indo pra lá, tomando umas, outras, sem orientação, sem rumo, sem limite. Agora tá tudo bem. Mas, sinceramente, eu temo que essa falta de consistência, de profundidade, que essa supervalorização do ego, do presente, do momento e da falta de respeito completa e absurda com todo mundo, tenha algum pesar sigfnificativo no futuro. DIVERSÃO é PARTE DA VIDA, nunca o objetivo final. A gente ainda tem a necessidade de solidificar este momento. Não é com a falta de limites, mas com a disciplina necessária pra marcarmos alguma coisa na história, mais do que sermos testemunhas oculares de um milhão de pessoas vendo os Stones. A história também passa por nós.

Quem tem 14 anos já não pensa como a gente. Quer dizer, até pensa, mas de um jeito piorado. E aí, meu velho, se continuar assim, quando a gente for tentar se segurar em alguma coisa que realmente importa quando apertar… corremos o risco de agarrar o vento.

Eu ainda tenho que escrever sobre a dos jovens hoje em dia e sobre a postura da Igreja Católica com relação aos chamados tabus. Mas como o post tá longo, fica pra próxima.

February 23, 2006

CADA UM TEM SEU TRABALHO

Filed under: relações sociais, música, política - Carlos @ 4:42 pm

Todo mundo teve opinião própria sobre o show do U2. Desde os “LINDO”(com vinte e cinco “o” depois do último “o”), até os que chinelearam a postura do Bono, os que falaram da mina que deu o beijo, os que xingaram, os que elogiaram, enfim.

O que eu tenho a dizer? Ah, deixa os caras. Fizeram um show, ganharam uma grana, é o trabalho deles. Azar do que o Bono fez, da visita ao Lula, do selinho na guria, ou o caralho a quatro. Deixa. É só um show, se for pensar.

É muito mais proveitoso xingar ou elogiar quem está do nosso lado. Vai ali, dá um beijo no vizinho e depois chama o outro de filho da puta! Dá muito mais repercussão, podem apostar. E, acreditem, falar sobre o show do U2, sobre o Lula, sobre o Fome Zero, politicagem, etc, não vai te tornar reconhecidamente mais inteligente que os outros.

Afinal, é pra isso que você tem um blog: pra que os outros pensem que você é inteligente, correto?

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