Fiquei sabendo que não há milho verde para vender em Pipa(RN). Confesso que esta falha gastronômica na praia não foi notada por mim quando estive por lá, exatamente nos dias 13 e 14 de dezembro de 2003. Pipa, naquele final de semana, foi uma ida de van do albergue de Natal, uma noite num lugar chamado(talvez) Candango, contatos com sul-africanos, israelenses e argentinos, estréia da Nova Schin comercialmente(e um trago de destilados, por conseqüência), turistas bêbados, pousada espelunca de dez reais, passeio pela rua, descanso debaixo de coqueiro, mar, tentativa de ver golfinhos, ressaca curada ao cheiro de cana de açúcar na volta a Natal, chegada, Ponta Negra e sono.
Pipa lembra Bombinhas(SC) em alguns aspectos: uma rua principal, cortada por várias perpendiculares menores, a faixa estreita de areia, um certo congestionamento no final do dia, algumas galerias, bares, restaurantes e uma infinidade de lojinhas de roupas e artesanato local. Jamais iria reparar no maldito milho verde que falta em Pipa. Mas, descobri, não tem milho verde para vender. Tem tapioca, açaí na tigela, suco de frutas locais, camarão no espeto, mas falta milho.
Pipa pertence a Timbaú do Sul, que tem a chamada Baía dos Golfinhos. De acordo com o IBGE, Timbaú do Sul tem 8.867 habitantes fixos. Na alta temporada, apenas Pipa deve abrigar 50 mil pessoas. Nos finais de semana, com o movimento nômade que vem de Natal e João Pessoa, esse número deve aumentar. Ainda há um fator considerável: como não chove, como é quente quase todo o ano, o fluxo turístico é permanente, diminuindo um pouco na baixa temporada.
Aí está a visão empreendedora: se não tem milho verde em Pipa, pois que se comece a vender milho verde em Pipa. Milho verde alimenta, é saudável, não pesa e agrada aos gringos. Não precisa de grande infra-estrutura. É só comprar uma carrocinha, um fogareiro, água, caprichar na escolha dos milhos e colocar um que outro lance de marketing pra que funcione o esquema.
“Liberdade é o sentimento que ninguém sabe explicar, mas todo mundo entende”
(Ilha das Flores)
Não é muito fácil falar sobre liberdade, ainda mais porque não há uma definição exata sobre isso. Sentir-se livre é algo que volta e meia acontece com a gente. Ser livre, isso nunca ocorreu.
Lembro de dezembro de 2003. Lembro de Pipa, da falta de milho verde e da caminhada que fazia enquanto ouvia músicas duvidosas num walkman, olhando para o mar, pisando na areia, sem olhar no relógio, sem dar nenhum tipo de satisfação, com um despreendimento único e a sensação de que o mundo pode ainda ser pequeno para as tuas pretensões.
Isso é se sentir livre. São sentimentos passageiros, que às vezes duram um pouco mais, mas que logo ali, acabam sumariamente. E são duas as coisas que fulminam o sentimento de liberdade: a intimidade nos relacionamentos, que demandam exigências posteriores, e o sistema em si, que nos enfia goela abaixo uma vigilância e uma prestação de contas.
Sou a favor de qualquer intimidade. Não somos sozinhos, somos seres sociais, e logo estas relações, interações, são necessárias para uma convivência saudável. No entanto, a partir do momento em que se tem uma relação íntima com uma pessoa, temos igualmente uma sensação de obrigação com ela. Como se fôssemos obrigados a dizer a estas pessoas o que estamos fazendo, sob pena dela aprovar ou reprovar. Somos todos vigilantes do nosso próprio círculo.
Se formos bem cruéis, rudes, grotescos, chegamos à conclusão de que as agressões pessoais e emocionais(não físicas, financeiras), as chamadas injúrias, calúnias, difamações, em um contexto público, não afetariam o ser humano fosse ele um ser desprovido de qualquer intimidade. Logo, é subjetiva a afirmação de que a gente não possa fazer determinada situação em nome da integridade moral do colega ao lado. Tanto é verdade que, em maioria dos casos, quando isso acontece, é superado. Mas aí entra a seguinte questão: como seres coletivos, somos ensinados a ter uma determinada “ética moral”, uma penca de “questões de bom senso”, uma variação de “costumes que são utilizados”. Não há, neste caso, uma simples liberdade de ir e vir. É aquela história: liberdade termina quando afeta o próximo. Ou acaba quando a própria moral é abalada. É uma questão normal, e de princípios. E o certo é deixar a consciência em paz, porque certamente, essa é uma liberdade que trará conseqüências marcantes na tua própria moral e ética.
Já o sistema fuzila tua liberdade pela imposição natural das situações históricas e culturais. Qual vida você prefere? A de vendedor de milho verde na praia da Pipa ou a de jornalista? Numa, você tem um sol, um mar, uma desopilada de meia em meia hora pra tomar um banho, uma iminência de praticar exercícios físicos a qualquer momento, mas os compromissos não páram: dificuldades em manter um padrão alto de vida, dívidas freqüentes, razoáveis condições de moradia, uma desistência quase que completa de tecnologias novas, abandono de diversos sonhos de consumo e nenhuma aspiração maior do que apenas aumentar o negócio. Ou ir pra “capital”. Ou ter o sonho de ter a outra vida. A vida do jornalista, por exemplo, onde não se tem tempo, não se tem grandes dinheiros, onde se está num círculo vicioso irritante, de joguetes, de mesquinharia, de alta tensão o tempo todo, de pouquíssima qualidade de vida, mas um padrão econômico-social bem melhor do que o de vendedor de milho verde em Pipa.
Eu levo a segunda vida, e com todas as restrições de liberdade que ela pode ter. Éticas, morais e de sistema. Não somente eu, todos nós. Ou quem não gostaria simplesmente de matar o trabalho, um dia, só por pura e simples vontade? Mas o compromisso, a responsabilidade, fala mais alto. Então, a gente imagina a liberdade. Pipa é o meu estado de liberdade. Minha vontade, meu despreendimento total. Meu olhar no pôr do sol, meu refúgio. Meu imaginário. Minha ilusão. Pipa é minha utopia, o impossível que nunca vai dar certo, simplesmente porque Pipa fica muito longe e porque não sei se daria exatamente certo vender milho por lá. É um ponto de interrogação gostoso. É um desejo.
É muito gostoso se sentir livre. É bom por uns poucos instantes do dia ficar pensando nas areias de Pipa. Em como seria a logística do milho verde. No sol queimando a pele, na atividade que poderíamos exercer, em criar filhos com nomes curtos e simples, na vida simples, nas amizades simples e nas brigas simples. É bom demais fugir dessa complicação e, do nada, ser teletransportado para a areia de Pipa e ter como preocupações coisas tão diferentes das que eu tenho hoje. Com a consciência limpa, o pulmão limpo e a liberdade introjetada.
Seria bem mais fácil se eu desistisse dessa idéia, abandonasse esse estado de espírito e fosse agora pagar minhas contas. Mas eu faço isso depois. Dá tempo pra tudo. Pra sonhar, pra ter os pés no chão e pra não se preocupar com o dia seguinte. Dá pra ser responsável e ser livre. Não sempre, mas por um momento. Acabar com o sonho de Pipa seria uma definição, uma conclusão, um fim. Deixa Pipa entrar, por mais ilusório que possa parecer.
Eu tenho umas quinze páginas pra escrever hoje. Ainda tenho um programa sobre a Copa do Mundo e um programa especial de uma hora e meia no sábado sobre o Campeonato Brasileiro. Produzo e apresento. Tem a Boca do Lixo. Tem Volta Redonda x 15 de Campo Bom, estou no jogo. Tenho que pagar o Renner. Se as coisas apertarem, eu penso novamente na Praia da Pipa. Mesmo sabendo que este lugar, tão complicado de ser alcançado, está a quilômetros longe de mim. Mas eu imagino. E faz bem. Bem. Bem. Vou imaginando Praia da Pipa até me dar conta de que é impossível de ter essa vida. Até o dia em que a gente possa definir situações. Por enquanto? É bem melhor não definir as coisas. Sem definições.