Então parece que a Angélica tem um programa onde invade a intimidade de ESTRELAS. No último sábado, eis que a sra. Luciano Huck visitou o cirurgião plástico Ivo Pitanguy. A visita não foi simplesmente à casa de campo, de praia, ao apartamento, à superfazenda, às terras vastas de Ivo Pitanguy. O cara simplesmente tem uma ILHA. É, uma ilha, porção de terra cercada de água, uma ilha, no litoral fluminense, só pra ele. Ele é dono de uma ilha, como a CARAS é, como tantos outros empresários são.
Eu não tenho nada contra o Ivo Pitanguy. Aliás, parece que tudo que ele obteve até agora foi graças à sua competência profissional. É o melhor cirurgião plástico do país, merece todos os méritos, batalhou, suou, estudou, pesquisou e hoje merece este patamar.
O que me chama a atenção é o fato dele ter uma ilha. Ele tem barcos pra chegar até à ilha, mas isso é demais, uma ILHA. E o pior, não pensaram ainda: IVO PITANGUY tem uma ILHA graças à VAIDADE HUMANA.
O maior medo do ser humano é o de ficar feio. Não fosse assim, academia de ginástica não seria um grande negócio, certo? E não me venha falar em saúde, porque 90% dos que freqüentam querem simplesmente ficar mais bonitos que são. Os produtos light não existiriam, porque todos sabemos que seus similares engordantes são bem melhores. Não gastaríamos vinte contos num simples corte de cabelo, e tem gente que gasta mais.
É absolutamente normal estes gastos com a aparência. Até é normal, também, quando alguém mais velho quer parecer jovem e apela para o sr. Pitanguy. Mas olha o ponto em que chegamos: dar uma ILHA para um cara graças à nossa própria vaidade!
O ser humano é tão vaidoso que não consegue medir esforços para corrigir as próprias imperfeições. É a corrida em busca do “eu” perfeito. Se tem gordurinha, taca lipo. Se tem raiz aparecendo, taca tinta. Se tá muito sem sal, taca tatuagem. Se tá na moda, taca piercing. E assim vamos, escravos do style, ao enriquecimento deliberado de gente que nos corrige. Sem contar o lado “interno” da situação: se tá com problemas, taca fluoxetina.
Gosto do Daniel Galera. Na resenha de ZH sobre seu novo livro, ele diz que “personalidade é uma ilusão”. Eu concordo com ele. O objetivo de vida do ser humano passou a ser a “busca pelo novo eu” diário. Ninguém mais gosta inteiramente de si mesmo. Sempre tem um porém, que se resolve no cabelereiro, no psiquiatra ou no cirurgião plástico. Nada está no lugar, tudo precisa ter uma alteração. Estamos vivendo a geração das metamorfoses ambulantes, camaleões constantes em busca de um objetivo próximo: mudar, mudar as estações, sair daqui, tirar o que é errado. Queremos e precisamos do complexo de deus grego: necessitamos da perfeição, da melhoria diária, e não mais nos conscientizamos de limites e do contentar-se com o pouco. A ambição virou megalomania, e realmente acreditamos que sempre precisamos melhorar. Melhorar no quê, cara pálida? Por acaso, é uma competição com todos os bilhões de habitantes do planeta? Temos que ser melhores do que eles?
É a cultura do mais: o mais bonito, o mais inteligente, o mais capacitado, o mais alto cargo, o que manda mais, o que evolui mais, o que tem mais talento, o que pega mais mulher, o que joga mais bola, o melhor do mundo em todos os tempos, o melhor amigo, o mais confiável, o mais, o mais, o melhor. O teu blog é melhor que o meu. Tu escreve mais. Eu sou mais viajado. Eu quero o mundo. Porto Alegre é um cu. É pequena demais pra mim. Eu quero mais, mais, mais, mais, consumo, chegar ao limite. Ninguém mais se contenta em simplesmente fazer o seu e voltar pra casa com o dever cumprido. É uma imposição generalizada de que isso é pouco demais.
A nossa geração chegou a um vazio tão grande, tão grande, que não se prende mais a nenhum objetivo considerado, ao meu ver nobre: a constituição de uma família, à solidificação de amizades, ao esforço diário de ser reconhecido, trabalhar, ser valorizado e subir ali por méritos, tendo posteriormente uma lembrança maravilhosa de como foi a tua evolução, sem que houvesse atropelamentos. O pra hoje é pra ontem e o que é de ontem, não existe mais. E o que é pra amanhã, tem que ser pra agora.
Que vazio desesperador, meu deus do céu. O que falta? Hein? E quanto sobra? Sobra? Falta? O nosso objetivo passou a não gostar da gente e mirabolar alterações nos nossos próprios rumos, tentando criar a fórmula perfeita da felicidade a cada minuto do dia. E esta fórmula perfeita nunca é “manter o que temos”. Sempre é “mais que isso”. Sempre tem uma correção a fazer e é tão triste conviver com imperfeições, que às vezes, são proporcionadas pela própria natureza, não?
O verdadeiro estado de espírito da felicidade humana não é abrir mão da ambição e aceitar o desapego completo como forma de camuflar tuas frustrações. Não há o perfeito. Há o imperfeito, e aí está a essência humana. Gostar da gente, com imperfeições e agir honestamente com os nossos próprios sentimentos, é o segredo. E aí, o objetivo vem bem mais fácil.
Na verdade, eu escrevi que Pitanguy tem uma ilha graças à nossa vaidade. Eu errei. Ele tem uma ilha graças ao nosso vazio. O vazio cotidiano que nos consome, não nos norteia e nos estabelece um objetivo por hora, depois alterado pra outro, é claro. O vazio tá dando ilha pro Pitanguy. Daqui a pouco, algum psiquiatra vai ter a sua. E a Angélica vai mostrar tudo no programa dela. Eu não vou perder esta.