Verborragia sem concessões

March 29, 2007

GUIA TURÍSTICO DA ZONA NORTE

Filed under: turismo, porto alegre, saudosismo - Carlos @ 5:26 am

Tomado por uma súbita nostalgia após ler o ZH LINDÓIA, já que eu recebo o ZH PETRÓPOLIS quando tem, resolvi fazer uma espécie de guia turístico da Zona Norte de Porto Alegre, local onde morei por 23 anos.
No entanto, percebi que eu sou uma cria das radicais da ZN. Nem tudo o que dizem que é zona norte de fato é. Então, aqui vai primeiro um guia de LIMITE do que é a ZN:

Pegue todos os limites ao norte da cidade. Siga a linha pontilhada que divide a cidade até a Protásio Alves. Trace uma linha reta a partir da Protásio chegando até a Saturnino de Brito. Venha pela Saturnino até à Av. Ipê, na Vila Jardim. À esquerda, pegue a Nilo Peçanha e siga o pontilhado pela Mal. Andréa. Nesta rua, siga reto e na Anita Garibaldi, siga uma linha imaginária até a Plínio Brasil Milano. Suba um pouco e vá pelo fluxo da Cristóvão Colombo. Reto até dobrar à direita na Benjamin Constant e à esquerda na Av. Brasil até encontrar o Guaíba.

Pronto, tá delimitada. É difícil a descrição? Simples, pegue um mapa e siga isso que eu coloquei aí. Sei que é complicado imaginar, mas pegando o mapa fica simples. Pra mim, isso é Zona Norte. O Colégio Anchieta, por exemplo, TÁ FORA. Assim como a Carlos Gomes e alguns trechos da Terceira Perimetral (da Cristóvão pra cima). 24 de Outubro? Não é Zona Norte. O Zaffari Higienópolis até pode ser considerado, mas aí eu teria que incluir um pedaço NOBRE da Nilo e não é por aí.

A Zona Norte é basicamente feia e industrial. Mas há lugares bonitos de se visitar. Então, aí vão os 10 melhores lugares da ZN para passear. Anota aí.

1- Passeio a pé pelo Jardim Lindóia
O bairro mais chique da ZN é um oásis no meio da aridez da Assis Brasil. Reserve um domingo e estacione o carro no Lindóia Shopping (Panamericana com Assis Brasil). No meu tempo, era gratuito o estacionamento. Caminhe a pé pela Bogotá, passe pela praça Panamericana e depois, siga pela Montreal e retorne pela Bogotá. Conheça também o Lindóia TC, as pequenas ruas atrás do velho colégio Lindóia e não se esqueça da Praça Ponaim. É um passeio agradável, especialmente em dias de sol. No final, tome uma cerveja gelada no simpático Ronaldinho Lanches (ex-BACARÁ) ou na Praça de Alimentação do simpático shopping. Se tiver perna, vá até o Strip Center, que também é legal.

2- Assistir a um jogo de futebol no Tulipa
Cidade Baixa lotada? Goethe tá cara? Tá com saudades da praia? Pois então, pegue seu carro e vá até o Bar Tulipa, na Assis Brasil antes de chegar à Baden Powell (bairro Sarandi). Estacione (por incrível que pareça, COM SEGURANÇA) e vá torcer pelo seu time numa das cadeiras de plástico do bar mais simpático da redondeza. Ótimo atendimento, cerveja barata e variada, além de gelada, e sanduíches que saem em conta para todas as fomes. Fora isso, o clima é praiano, com um bar amplo e aberto, para todos os tipos de gente, e vários monitores para torcer. E de quebra, em dia de jogo, eles fazem promoções.

3- Jogar pelada no campo do Sabará
É pra quem gosta do riscado. Na minha época, era possível juntar um pessoal pra bater uma bolinha na meca varzeada da Zona Norte. O Sabará é um campo de futebol localizado na R.Guadalajara, bairro Itu-Sabará. O T6 passa ali, mas de carro é só pegar a Protásio e entrar na Av. Dr. Otávio Santos e seguir reto. O campo é dos melhores pra jogar futebol de verdade em Porto Alegre. Pra quem curte uma várzea, o lance é PEGADO e conta sempre com uma torcida (da paz) que fica corneteando a galera no alambrado.

4- Comer na pizzaria Fragata
A melhor pizzaria da Zona Norte agora também é um bom restaurante com diversas opções de gastronomia. Fica ali na Assis Brasil, no Cristo Redentor e é bom e barato. Vale a pena.

5- Parque Germânia
Localizado no (ainda) futuro Jardim Europa, o parque é o mais limpo da cidade. É uma área verde que foi criada há pouco por paisagistas e que deve abrigar os condomínios mais luxuosos da cidade. Fica ao lado do Iguatemi.

6- Shopping Iguatemi / Bourbon Country
Um é o Shopping mais famoso da cidade. O maior e o mais fácil de se achar. O outro tem o melhor cinema da cidade. Vale passar um dia, mas acho que ambos dispensam maiores apresentações ao público local.

7- Passeio ao Delta do Jacuí
O barco sai do Gasômetro (que não é ZN), mas segue pro norte, passando pela ponte e chegando ao Delta. Dá pra ver os clubes náuticos do Navegantes e uma parte do Guaíba que abrange as Ilhas. Está na Zona Norte, então vale a pena conferir.

8- Aeroporto Salgado Filho
Outro ponto que dispensa apresentações. Ele tá na ZN.

9- Corrida de kart atrás do BIG SHOP
Pra quem não quer se dar mal fazendo pega na Assis Brasil, a Zona Norte reserva a você a melhor pista de kart de Porto Alegre. Fica atrás do Big Shop, na Sertório, perto da Vila Nazaré.

10- Praça dos Patos
Deixei por último o que, na minha opinião, é o melhor lugar da ZN. E o mais desconhecido. A chamada Praça dos Patos é um lugar onde passei minha infância e que dá vontade de derramar uma lágrima cada vez que a enxergo. Ela fica depois da Gomes de Freitas, no início da Paul Harris, bairro Itu-Sabará. Uma praça enorme, com um lago onde estão patos, gansos ou marrecos, não sei direito. Dá pra fazer um picnic ali, de tão aconchegante que é. Arborizada e bem cuidada, tem as melhores canchas de AREIÃO pra jogar bola. E fica numa zona extremamente simpática, talvez pela recordação pessoal de grandes dias vividos ali.

Ainda poderia indicar o Jardim Planalto, o Bourbon Assis Brasil, o Parque Alim Pedro, no IAPI e o Estádio do Passo D’Areia. Talvez um passeio pelas vielas do IAPI (mas é perigoso). Mas acho que este guia está de bom tamanho. Porto Alegre também é bonita ao norte. Vale a pena, garanto.

April 15, 2006

VIVA EL MEXICO, CABRÓN

Filed under: turismo - Carlos @ 3:22 am

Meus sonhos de consumo turísticos são completamente diferentes dos desejos dos outros. Se formos considerar uma lista de “lugares que sonho conhecer”, pessoas entre 20 e 30 anos, com uma situação econômica e graduação semelhantes, escolheriam provavelmente algo que não sairia entre Londres, Roma, Paris. Nova Iorque, ok. Surfistas, Austrália, Califórnia. Intelectualóides, leste europeu. Eu quero conhecer estes lugares. Quero conhecer todos os lugares. Mas eu tenho alguns locais específicos no planeta que me fariam muito feliz em conhecê-los.

Sou um nacionalista irritante, sou apaixonado pelo Brasil. Acho meu país a coisa mais linda do mundo e o nosso povo absolutamente espetacular. A diversidade deste país me causa um transtorno tão grande e um fascínio absurdo. Sou repetitivo a respeito da minha tour nordestina em 2003, eu sei, mas aquela viagem de 20 dias de ônibus de Fortaleza a Salvador, absolutamente sozinho, me traz memórias incríveis. Mais do que o pôr do sol em Jericoacoara, do que as piscinas naturais de Porto de Galinhas, da Praia da Pipa(citada no texto anterior) ou do que as ruas de Salvador.

Muitas das lembranças daquela viagem me remetem ao povo brasileiro. Tenho uma sensação estranhíssima, e que me vem até hoje, quando me recordo da chegada do ônibus Fortaleza-Jericoacoara em uma cidadezinha do sertão cearense. A cidade, com postes de luz fraquinhos, casas modestas, jegues e habitantes usando chapéus de palha, as crianças correndo atrás do ônibus fazendo festa, e atacando os gringos pra vender rapadura. Acho que aquilo foi a coisa mais linda que eu vi na viagem. A descoberta de que, bem longe daqui, ou bem perto daqui, existe uma simplicidade ingênua, uma pintura lúdica, um minimalismo belíssimo de um retrato de um povo que consegue extrair de uma simples chegada de um ônibus toda uma felicidade no meio de muitos problemas. Como se o ônibus cheio de branquelo vermelho do sol, torrando grana comprimida do euro, fosse um sinal de esperança, uma sinfonia de que novos tempos podem chegar. Só a simples chegada de um ônibus.

Viagens para mim têm um sentido muito mais amplo do que um simples refúgio turístico. É a possibilidade de enxergar num horizonte completamente distante o que o nosso umbigo esconde no cotidiano. Eu não falo na arte, não falo na história. Não falo em praias, não falo em vales, em cachoeiras e montanhas paradisíacas. Falo do povo, da diversidade que só é possível quando se dá o fora do nosso próprio ninho. Somos de várias espécies, todas bem diferentes, mas que não conseguimos enxergar, afinal, a brutalidade monstruosa de nosso dia a dia só nos permite enxergar semelhantes e atrasar nosso próprio crescimento. É muito bom passar um tempão sem olhar para o espelho, e ver que há coisas bem maiores do que a nossa própria imagem. Na volta, ela parece menos distorcida.

Corrigindo uma falha de currículo, assisti a “E Sua Mãe Também”, maravilhoso filme mexicano, do qual todo mundo tem referência(principalmente as groupies modernosas) porque tem o tampinha sem graça do Gael Garcia Bernal. O filme é maravilhoso. Além da história ser fantástica, tratando da descoberta, abordando amizades e todas as complicações que envolvem relações entre amigos, mostra um pouco do que é o México. As intervenções do narrador, em off sem background, são perfeitas, colocando um pouco da paisagem mexicana na nossa cara.

Quero conhecer o México. Assistindo ao filme, percebi uma semelhança incrível do México com o Brasil. A pobreza, a dificuldade de um povo que vive à margem, em estradas sorrateiras, localidades massacradas pela poeira, uma vigilância extrema na contravenção. E praias lindas, contrastando um avanço natural que devasta toda a pureza que possa existir na beleza natural mais rica do país(no caso, a expansão dos resorts, tomando conta de áreas que deveriam ser de convívio público). Quero o México, mas quero mais ainda o Brasil.

Ainda sobre viagens: eu sou o único ser(ao menos que eu mesmo conheço, claro) que gosta mais de Rodoviárias do que de Aeroportos. Nas rodoviárias, as pessoas se multiplicam. Elas não vão apenas para São Paulo, Rio, Curitiba, Brasília. Elas vão para São Luiz Gonzaga, elas pegam um pinga pinga até Teutônia, vão no madrugadão pra São Miguel do Oeste, fazem conexão pra Cascavel pra ir até Ponta Porã. Gente simples, passagem barata. Despedidas, projeções de viagens longas, preparações, concentração no sono. E a vista, a vista de cada vilarejo que se pode ter ao longo da jornada. A chegada em uma nova rodoviária, a renovação dos passageiros, a parada para fazer lanche, caras de sono tentando se recuperar do cansaço, uma cachacinha pra acordar, uma lembrança para um ente querido.

A sensação que eu tive no Ceará, a sensação que eu tive da janela do Recife-Salvador ao cruzar a divisa de Alagoas com Sergipe e passar pelo São Chico, qualquer parada no Japonês em Sombrio nas várias viagens de ônibus para Santa Catarina, são sentimentos que eu nunca vou me esquecer.

Antes do México, antes de Nova Iorque, antes da Europa, antes da civilização mais avançada, eu quero repetir isso tudo. No verão, na BR-101, cruzei com o PELOTAS-FORTALEZA, o ônibus de maior trajeto no país. Talvez um dia eu pegue, só pra matar, em uma dose cavalar, toda essa vontade. Não penso em sair fora. Só quero ir, ver e aprender. E voltar. Pra poder olhar pro espelho de uma maneira diferente.

February 21, 2006

AS VERDADEIRAS FÉRIAS

Filed under: jornalismo, turismo - Carlos @ 8:43 pm

Voltei a Porto Alegre. Não foi a ida pra Santa Catarina, nem a praia, nem Atlântida Sul, nem as pessoas que eu não via há tempos, nem a vagabundagem, o ócio ou o tédio que recarregaram minhas baterias.
Duas semanas sem conversar com jornalistas foi o melhor remédio do ano até o momento. Revigora qualquer um. Sugiro esta receitinha pros viciadinhos de redações.
Jornalista é chato, burro e limitado.

Bom, eu sou repórter esportivo de rádio. Segundo o manual básico dos JORNALISTAS APAIXONADOS PELA PROFISSÃO, eu desempenho uma função MENOR no contexto.

A merda é que a redação da Zero Hora fica no mesmo prédio.

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